Temos de saber onde esteve, quando, o que foi lá
fazer... Essas coisas.”
“Isso já está a ser preparado. Dou-lhe amanhã um
relatório preliminar.”
“Será interessante cruzar as duas reconstituições e ver
se existem pontos em comum nos trajectos recentes das
duas vítimas, o que nos permitirá...”
Nesse instante o telemóvel do superintendente tocou e
ele, pedindo licença, atendeu de imediato.
“Está sim?” Fez uma curta pausa e endireitou-se de
repente. Quase se pôs em sentido. “Sim, sou eu, sir.”
Uma pausa mais longa, durante a qual o polícia foi
arregalando os olhos. “O quê?” Mais uma pausa. “Onde?
Esta manhã?
Mas... mas como é isso possível?” Ainda uma pausa.
“Imediatamente? Mas eles acabaram de chegar, sir!...”
Nova pausa. “Sim, sir. Vou já falar com eles. Muito
bem, sir.” Quase fez continência. “É para já, sir.
Obrigado, sir.”
O irlandês desligou o telefone e as faces coradas
tinham desaparecido; estava lívido, como se tivesse
visto um fantasma. Olhou para os dois convidados com
cara de caso.
“O nosso homem atacou outra vez!”
“Quem?”
“O serial killer”, disse com uma ponta de impaciência.
“Voltou a fazer das suas!”
Valentina e Tomás deram um salto nas cadeiras.
“Morreu mais alguém?”
O’Leary fez que sim com a cabeça.
“Na Bulgária.”
Os dois interlocutores abriram a boca, estupefactos.
“O quê?”
O superintendente acenou com o telefone, como se se
tratasse de uma entidade superior, de autoridade
absolutamente indiscutível.
“Querem-vos lá o mais depressa possível.”
XXIV
Uma fina neblina branca cobria a cidade, envolvendo-a
num manto de luz angelical. Os picos nevados do
Vitosha, o vulcão adormecido à distância como uma
sentinela silenciosa, elevavam-se acima da névoa e
davam a impressão de estar cobertos por iogurte
derramado, os veios brancos de neve a entornarem-se
pela serra nua.
Os primeiros sinais registados por Sicarius de que
estava a chegar ao destino foram os grandes blocos de
apartamentos de linha soviética que enxameavam a
periferia como formigueiros gigantes plantados em
largos espaços de um verde cru e acinzentado; faziam
pensar numa boa ideia mal concretizada. As tabuletas em
caracteres cirílicos indicavam Grad, mas foi só quando
o automóvel desembocou no emaranhado elegante das ruas
bem arranjadas do centro, circulando entre belos
edifícios de traça francesa ou em estilo balcânico, que
o automobilista pegou no telemóvel e fez a chamada.
“Cheguei a Sófia.”
Do outro lado da linha, o mestre parecia ansioso.
“E a missão?”, quis saber. “Correu bem?”
“Como previsto.”
A voz ao telefone suspirou de alívio.
“Ufa! Ainda bem que acabou. Já estava em cuidados.”
Em contraste com os arredores, onde a traça soviética
se misturava com linhas modernas, o centro da capital
búlgara respirava ordem e exibia uma arquitectura
clássica de bom gosto. A atenção de Sicarius foi,
aliás, atraída nesse instante pela Igreja Russa, um
edifício que parecia saído de um conto de fadas, com
cúpulas verdes e douradas que emprestavam à cidade um
toque de presépio moscovita.
“O que faço agora? Tem uma nova missão para mim?”
O mestre riu baixinho.
“És uma máquina, Sicarius”, ronronou com satisfação.
“Um digno filho de Deus. Para já não. Volta para casa.”
A ordem deixou o operacional um tudo-nada decepcionado.
“Acabou? Não há mais?”
“Eu não disse isso”, corrigiu o mestre. “Isto está
longe de ter acabado. Ainda vou precisar de ti.”
“Ainda bem.”
“Mas não de momento. Volta para casa. O teu trabalho
foi inestimável e estou certo de que o guerreiro
precisa de repouso.”
Sicarius respirou fundo, resignando-se à decisão.
“Está bem. Adeus.”
E desligou.
O carro passava nessa altura pela grande catedral de
Alexandre Nevski, com as suas espectaculares cúpulas
bizantinas. Sicarius abrandou para apreciar melhor o
edifício e depois virou em direcção ao aeroporto.
Passou por uma rua estreita e movimentada, os passeios
repletos
de
transeuntes,
uns
a
caminharem
despreocupadamente e outros a espreitarem as vitrinas
das lojas. Algumas montras exibiam produtos búlgaros,
outras expunham marcas internacionais e aqui e ali
viam-se néones coloridos a publicitar casinos.
Foi nesse instante que Sicarius sentiu a irritação
trepar-lhe pelo estômago.
“ímpios”,
vociferou
entre
dentes.
“Impuros
e
pecadores.”
XXV
O sol batia com um hálito acolhedor sobre o casario
quando o automóvel da polícia búlgara que trazia Tomás
e Valentina do aeroporto de Sófia deu finalmente
entrada no perímetro urbano. Uma tabuleta assinalou a
chegada a Plovdiv.
“Sabem quantos anos tem esta cidade?”, perguntou o
motorista com evidente orgulho. “Seis mil!” Virou a
cabeça e sorriu para os passageiros no banco de trás.
“Seis mil anos, já viram?” Voltou-se de novo para a
frente. “Incrível!” Tomás tinha os olhos colados aos
blocos de apartamentos de arquitectura soviética;
conhecia bem aquele lugar pelos livros de História da
faculdade.
“Foi fundada no Neolítico”, observou com uma expressão
sonhadora. “É a cidade mais velha da Europa.”
Uma vez cruzado o rio Maritsa, os blocos de cimento da
periferia deram lugar a um centro arejado, com
edifícios de traça tradicional encravados amiúde em
ruínas antigas. O mais desconcertante era a visão dos
montes verdes cobertos de rochedos escarpados e
coroados com casas que se erguiam abruptamente a meio
da urbe.
O motorista apontou para o maior desses promontórios,
cravado em pleno centro como se uma pedra gigantesca
ali tivesse de repente tombado do céu.
“Stariot Grad”, indicou. “A cidade velha.”
Os dois passageiros ergueram os olhos para o topo do
promontório, fascinados por aquela imagem fantástica.
“Foi ali que construíram as primeiras habitações, há
seis mil anos?”, quis saber o historiador.
“Exacto”, confirmou o búlgaro ao volante. “E foi ali
que ontem ocorreu o crime.”
De cenário histórico, aos olhos curiosos dos recém-che-
gados, Stariot Grad passou de imediato a palco de um
homicídio.
“Vamos agora para lá?”