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“Para Stariot Grad?”, admirou-se o motorista. “Não.

Tenho ordens de vos deixar na Glavnata.”

Ao chegarem à Glavnata deram com uma rua soalheira de

peões, larga e encaixada numa fileira de edifícios

coloridos, com fachadas de clara influência francesa,

os andares superiores adornados por belas varandas, as

lojas a ocuparem o rés-do-chão.

Valentina e Tomás foram levados para uma esplanada,

onde um homem magro de imediato se levantou de uma

cadeira e os acolheu de mão estendida para os

cumprimentar.

“Todor Pichurov”, anunciou. “Inspector da polícia

búlgara. Sejam bem-vindos a Plovdiv.”

Os visitantes apresentaram-se e instalaram-se à mesa.

Pediram cafés e trocaram amabilidades com o anfitrião a

propósito da beleza da cidade e do facto de o dia estar

excelente, em contraste com a neblina que haviam

encontrado nessa manhã ao desembarcarem em Sófia.

Mas a italiana não queria perder tempo e à primeira

oportunidade entrou no assunto.

“Então o que se passa?”, perguntou. “Disseram-me que

precisavam da nossa ajuda por causa de um crime. Que

aconteceu exactamente?”

O polícia búlgaro abriu uma pasta que estava pousada

sobre a pequena mesa circular da esplanada e extraiu a

fotografia de um homem de barba grisalha rala e olhar

compenetrado.

“Este é o professor Petar Vartolomeev”, identificou.

“Tratava-se de um dos cidadãos mais notáveis da nossa

cidade. Era professor catedrático de Medicina Molecular

aqui na Universidade de Plovdiv. Vivia num edifício

histórico de Stariot Grad, a Casa de Balabanov. Ontem

de manhã, quando vinha das aulas, foi esfaqueado por um

desconhecido que o esperava à porta de casa. Fui

chamado de urgência, mas quando cheguei ao local já o

professor estava morto.”

Valentina aproveitou a pausa para intervir.

“Professor de Medicina Molecular?”

“Um dos mais reputados do mundo no seu campo”,

confirmou Pichurov. “Todos os anos se dizia que ia

ganhar o Nobel da Medicina.”

A italiana sacudiu a cabeça.

“Desculpe, mas não percebo. Nós estamos a investigar

dois crimes que ocorreram na Europa ocidental e que

envolvem dois historiadores que andavam a consultar

manuscritos antigos do Novo Testamento. Uma paleógrafa

foi assassinada em plena Biblioteca Vaticana, o outro

era um arqueólogo, morto diante de uma biblioteca em

Dublin. Mas o senhor está a falar-nos de um médico e,

com franqueza...”

“Cientista molecular.”

“O que seja”, retomou Valentina, sempre no mesmo tom.

“Um professor catedrático na área da Medicina, se

prefere.

Para todos os efeitos, esta vítima não é um

historiador. O senhor fez-nos cruzar a Europa de uma

ponta à outra e vir aos Balcãs por causa desta morte. O

que o levou a pensar que havia uma ligação entre o seu

caso e os nossos dois historiadores?”

O inspector búlgaro exibiu uma fotografia do cadáver da

vítima, tombado no chão, de barriga para baixo e a

cabeça mergulhada numa vasta poça de sangue.

“O professor Vartolomeev foi degolado.”

A italiana olhou de relance para a imagem e respirou

fundo, subitamente impaciente.

“É desagradável”, disse com frieza. “Não sei como é

aqui na Bulgária, mas as degolações no meu país são

muito raras. No entanto, e à parte esse pormenor

repugnante, não vejo o que poderá ter este caso em

comum com aqueles que estou...”, olhou para Tomás e

corrigiu, “... que estamos a investigar.” Pichurov

coçou o nariz.

“Por coincidência, momentos antes de ser alertado para

a ocorrência, estava a consultar o site da Interpol,

como faço todas as manhãs, e cruzei-me com o seu

relatório preliminar sobre o crime no Vaticano”, disse.

“Crime estranho, convirá.”

“Muito.”

“Interessei-me pela coisa e apercebi-me de que horas

depois

ocorreu

um

homicídio

com

características

semelhantes em Dublin. Como sou uma pessoa de natureza

curiosa, fui espreitar o relatório deste segundo crime

e voltei a cruzar-me com o seu nome, o que me

surpreendeu. Percebi que estava a ajudar os irlandeses

e que era acompanhada por um historiador português.”

Valentina deitou um olhar cúmplice a Tomás.

“De facto, assim é”, confirmou. “E então? Onde quer

chegar?”

“Achei os dois casos curiosos”, disse. “As charadas

deixadas pelo assassino pareceram-me intrigantes. Mas

não pensei mais nisso, sobretudo a partir do momento em

que fui chamado de urgência a Stariot Grad para lidar

com um homicídio que tinha ocorrido junto à Casa de

Balabanov. Quando cheguei lá, apercebi-me de que a

vítima era o professor Vartolomeev. Descobri que ele

tinha sido degolado.”

“E foi aí que pensou nos casos que estou a investigar.”

O inspector abanou a cabeça.

“Na verdade, não. Achei estranho, claro. Também aqui na

Bulgária são raros os homicídios por degolação. Quando

ocorrem têm sempre uma natureza ritual.”

“Como em todo o mundo.”

“Naturalmente que me questionei sobre o assunto. Por

que razão haveria alguém de matar o professor

Vartolomeev? E por que motivo o faria deste modo? Um

assassínio ritual? Aqui, em Stariot Grad? E com um dos

nossos mais respeitados concidadãos?” Esboçou uma

careta. “Não faz sentido.”

“Então o que o levou a estabelecer a ligação desse

homicídio com os nossos casos?”

O polícia búlgaro voltou a meter a mão na sua pasta.

“Foi uma coisa que descobri ao lado do corpo”, disse,

retirando um plástico selado com uma folha de papel no

interior. “Isto.”

Virou a folha para os seus dois interlocutores.

Tomás e Valentina debruçaram-se de imediato sobre o

enigma e perceberam o raciocínio do anfitrião.

“É o nosso homem!”, exclamou Valentina, apontando para

o primeiro sinal, à esquerda. “Veja aqui. Até desenhou

o símbolo da pureza da Virgem Maria, exactamente como

no Vaticano.”

O historiador olhava para a charada com uma expressão

de perplexidade, como se o que estava a ver não fizesse

sentido.

“Não pode ser!...”

“É o nosso homem!”, insistiu a inspectora da Polizia

Giudiziaria, rendida à evidência. “É mesmo ele!”

“Eu sei que é ele”, assentiu Tomás. “Mas o símbolo da

pureza da Virgem Maria...” Abanou a cabeça. “Esse

símbolo não faz sentido ao lado do que ele desenhou a