seguir.”
A italiana quase se indignou.
“Ora essa! Porquê?” Fez um gesto a indicar a charada.
“Pelo contrário, faz todo o sentido! Ele assinou o
homicídio
do
Vaticano
com
esta
flor-de-lis
esquematizada e voltou a utilizá-la agora para assinar
este novo crime. Parece-me tudo claro. Qual é a
admiração?”
O académico português mirava o enigma como se estivesse
hipnotizado, esforçando-se por extrair dele o sentido
que lhe escapava. Porque raio tinha o assassino
desenhado ali aquele símbolo? O contexto não batia
certo. Talvez a resposta estivesse no contexto. Na
verdade, raciocinou, se calhar deveria começar a
interpretação pelo resto do enigma. Ora o que tinha ele
ali? Tinha uma palavra escrita em... em...
“Já sei!”, exclamou Tomás de repente.
Os dois polícias voltaram os olhares para ele.
“O quê? Que se passa?”
O historiador virou-se para Valentina e depois para Pi-
churov e de novo para Valentina, muito excitado, e
exibiu o papel selado dentro do plástico.
“Já sei!”
As atenções voltaram-se para a charada que lhe dançava
entre os dedos.
“Conseguiu decifrar?”, espantou-se o búlgaro. “Já?”
A italiana sorriu e aplaudiu.
“Bravo, Tomás!”, exclamou, com evidente orgulho nele,
quase como se o português fosse o seu herói. “Bravo!”
Ao vê-la tão feliz, Tomás sentiu-se atrapalhado.
Encolheu-se num gesto reflexo, recolheu a mão que
brandia a charada e baixou os olhos tingidos de
embaraço.
“Não sei se vai ficar contente depois de me escutar”,
disse ele a Valentina, quase sem coragem para a
encarar. “Acho até que vai ter vontade de me
degolar!...”
“Eu?!”, admirou-se ela. “Que disparate! Porque diz
isso?”
O olhar do historiador desviou-se para a charada
encerrada no plástico selado.
“Este enigma remete-nos para mais uma fraude da
Bíblia.” A face de Valentina toldou-se como se de
repente tivesse sido coberta por uma sombra densa.
“Oh, não!”, exclamou ela, irritada. “Sou mesmo ingénua!
Devia ter desconfiado!”
Tomás inclinou-se para a sua pequena mala de viagem e
pôs-se a vasculhar no interior com a mão esquerda.
Fixou a mão num objecto e extraiu-o da mala, pousando-o
sobre a mesa. Tratava-se do exemplar da Bíblia que já
lhe havia sido útil em Dublin. Levantou os olhos
embaraçados e colou-os enfim aos da italiana.
“A fraude da divindade de Jesus.”
XXVI
O empregado ziguezagueou entre as mesas da esplanada da
Glavnata a equilibrar a bandeja e, naquele menear
profissional, aproximou-se da mesa onde o historiador e
os dois polícias se encontravam. Distribuiu os cafés e
afastou-se para atender os clientes que entretanto se
tinham instalado numa mesa ao lado.
De novo à vontade, Tomás pegou no plástico que protegia
a folha encontrada junto ao corpo do académico búlgaro
e apontou para os três símbolos desenhados no papel.
“Este enigma remete-nos para duas questões teológicas
centrais do cristianismo”, explicou. “São questões
diferentes, mas relacionadas entre elas.”
O inspector Pichurov mexeu-se no seu lugar.
“O professor falou na divindade de Jesus”, observou,
ansioso por ir direito ao assunto. “E disse que se
tratava de uma fraude. Como é que essa gatafunhada
levanta tal questão?”
O historiador indicou os símbolos do meio e da direita,
“Estão a ver isto? Sabem o que é?”
Os polícias prenderam os olhos nos dois caracteres.
“Parecem
sinais
alienígenas”,
brincou
Valentina.
“Daqueles
que
vemos
desenhados
nas
naves
dos
extraterrestres em filmes de ficção científica. Star
Trek e coisas do estilo.”
Tomás riu-se.
“Realmente, estes caracteres parecem um pouco
bizarros”, admitiu. “Mas não são símbolos dos ET
pintados em naves espaciais. São letras gregas grafadas
na Bíblia.”
Os dois polícias arregalaram os olhos, surpreendidos.
“Isso?”
O historiador assentiu.
“O símbolo do meio é um teta e o da direita é um
sigma”, identificou. “Quando juntas num manuscrito
bíblico e com um traço no topo, teta-sigma dão a
abreviatura de um dos nomina sacra."
“Que é isso?”
“Um nome sagrado. Neste caso, Deus.”
O inspector Pichurov franziu o sobrolho numa expressão
céptica, como quem dizia que aquela não engolia ele.
“O assassino deixou o nome abreviado de Deus ao pé da
vítima?”, questionou. “A que propósito?”
“Isso é o que iremos ver”, disse Tomás, ignorando o tom
incrédulo do polícia búlgaro. “O mais interessante é
que, à luz do que o nosso serial killer já revelou nas
duas mensagens anteriores, isto constitui sem dúvida um
piscar de olho ao Codex Alexandrinus e a uma aldrabice
habilidosa feita nesse manuscrito por um escriba.”
A referência pareceu familiar a Valentina.
“Está a referir-se ao documento antigo que a professora
Escalona estava a consultar na Biblioteca Vaticana?”
“Isso era o Codex Vaticanus”, esclareceu o historiador.
“Mas esta nova charada remete-nos para o Codex Alexan-
drinus, um manuscrito do século V oferecido pelo
patriarca de Alexandria ao rei de Inglaterra e que se
encontra guardado na Biblioteca Britânica. É também um
dos manuscritos mais antigos e completos da Bíblia, com
a versão grega do Antigo Testamento, a que faltam
apenas dez folhas, e o Novo Testamento, excepto trinta
e uma folhas, que desapareceram.”
“Como
sabe
que
este
teta-sigma
se
refere
especificamente a esse códice?”
“Trata-se de uma suposição sustentada no tipo de
raciocínio desenvolvido até agora pelo nosso homem”,
explicou o académico português. “Já percebemos que ele
parece obcecado com as fraudes no Novo Testamento. Ora
acontece que existe de facto uma anomalia no Codex
Alexandrinus, localizada justamente numa referência
abreviada a Deus. Uma referência com teta e sigma.”
“Não estou a perceber!...”
Tomás pousou o papel da charada na mesa e pegou na sua
Bíblia, que se pôs a folhear.
“Um dos problemas da tese de que Jesus era uma
divindade nasce de ele não se ter referido a si mesmo
nesses termos de uma forma explícita nos textos mais
antigos”, explicou. “Apenas no último evangelho, o de
João, escrito por volta de 95, Jesus indica com clareza