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a sua natureza divina. João cita Jesus em 8:58 a dizer

isto: ‘Antes de Abraão existir, Eu sou.’ É uma

referência clara ao Êxodo.

A italiana apontou para os dois símbolos,3:14, onde

Deus diz a Moisés: ‘Eu sou Aquele que sou.’ Ou seja, o

Jesus de João apresenta-se como o Deus das Escrituras.”

“Ah-ha!”

“Curiosamente, Jesus não faz o mesmo nas fontes

anteriores a João”, apressou-se Tomás a sublinhar. “Nem

Paulo, nem Marcos, nem Mateus, nem Lucas, que

escreveram os seus textos antes do autor do Evangelho

segundo João, põem Jesus a dizer-se Deus.” Fez uma

careta irónica. “Ter-se-ão esquecido? Terão achado esse

pormenor irrelevante? Seria uma coisa sem importância?”

Ergueu o dedo. “Quanto mais antiga é a fonte, menos

divino Jesus aparece. O primeiro evangelho a ser

escrito foi o de Marcos. Que Jesus nos é apresentado

por Marcos? Um ser humano que nunca se reivindica Deus.

O mais que Jesus faz é, durante o seu julgamento, e

pressionado pelo alto sacerdote que lhe pergunta se é

ele ‘o Messias, Filho do Deus Bendito’, responder em

14:62: ‘Sou’, adiantando que ‘vereis o Filho do Homem

sentado à direita do Poder e vir sobre as nuvens do

céu.’ Mas atenção que, na cultura hebraica, o masbia

não é Deus, apenas alguém escolhido por Deus. Nunca em

Marcos vemos Jesus afirmar ser Deus.”

O inspector Pichurov, que assistia pela primeira vez a

uma conversa de análise crítica do Novo Testamento,

voltou a remexer-se na cadeira.

“Desculpe, eu de Bíblias percebo pouco”, disse. “Mas

não é Marcos que o apresenta como o Filho de Deus?”

“Todos os evangelhos apresentam Jesus como o Filho de

Deus. E depois? No contexto da religião judaica, a

expressão Filho de Deus não significa Deus-Filho, como

agora se pretende, mas descendente do rei David,

conforme estabelecido nas Escrituras. Nos Salmos, Deus

diz a David, um ser de carne e osso, que ele é o Seu

filho, coisa que confirma em Samuel II. Uma vez que os

Evangelhos apresentam Jesus como um descendente do rei

David, é natural que o designem por Filho de Deus, o

título de David. E, atenção, o Filho de Deus pode até

ser a própria nação de Israel, conforme estabelecido no

Antigo Testamento por Oseias, em 11:1, onde Deus diz:

‘Quando Israel era ainda menino, Eu o amei, e chamei do

Egipto o Meu filho.’ Ou em Êxodo 4:22: ‘Assim fala o

Senhor: Israel é o Meu filho primogénito.’ Em suma,

diz-se que é Filho de Deus alguém que tem uma relação

especial com Deus. Isso não significa que esse alguém

seja Deus.”

Valentina lançou um olhar sobranceiro ao seu colega

búlgaro, intimando-o a calar-se.

“Ele já me tinha contado isso”, disse. “Depois explico-

-lhe tudo.”

Pichurov encolheu-se no seu lugar e, percebendo que

havia pormenores que o ultrapassavam naquela conversa,

remeteu-se ao silêncio.

“Sendo assim, Marcos jamais afirma, ou insinua sequer,

que Jesus é Deus”, retomou Tomás. “Os evangelhos que se

lhe seguiram foram os de Mateus e Lucas. Também estes

nunca disseram que Jesus é Deus. Os três evangelistas

põem até Jesus a afirmar que não tem poderes para

decidir quem se sentará à sua direita e à sua esquerda,

e a dizer que nem sabe o dia e a hora em que chegará o

Reino de Deus. Ou seja, e ao contrário de Deus, Jesus

não é omnipotente nem omnisciente. O grande debate

entre estes três evangelistas e Paulo não é pois o

problema de Jesus ser Deus, questão que nem sequer se

levanta, mas determinar quando é que Deus atribuiu a

Jesus o Seu favor e o transformou num ser humano

especial. O primeiro evangelista, Marcos, dá a entender

que isso aconteceu no momento em que João Baptista

baptizou Jesus. Foi nessa altura que ‘dos céus veio uma

voz: «Tu és o Meu Filho muito amado, em Ti pus toda a

Minha complacência»’, conforme estabelecido em 1:11,

frase inspirada numa citação dos Salmos hebraicos. Ou

seja, Marcos considera que Jesus se tornou Filho de

Deus no momento do baptismo. Já Lucas e Mateus defendem

que isso aconteceu na altura do nascimento, com a

imaculada concepção.”

“E Paulo?”

“Esse apresenta ainda outra versão. É interessante

notar que nos Actos dos Apóstolos, um texto do autor de

Lucas a descrever o que fizeram os apóstolos depois da

morte de Jesus, não encontramos nenhuma declaração de

um discípulo a considerar que Jesus é Deus. Os

apóstolos limitam-se a pregar que Jesus é alguém a quem

Deus conferiu poderes especiais. Pedro é até citado em

2:36 a dizer ‘Deus estabeleceu, como Senhor e Messias,

a esse Jesus por vós crucificado’, relacionando

implicitamente o título de Messias com a crucificação,

conceito explicitado em 13:33 por Paulo, segundo o qual

Deus cumpriu a Sua promessa ‘ressuscitando Jesus, como

está escrito no salmo segundo: «Tu és Meu Filho, Eu

gerei-te hoje!»’, insinuando assim que esse estatuto

especial foi entregue, não quando Jesus nasceu, não

quando Jesus foi baptizado, mas boje, o dia em que ele

ressuscitou. Ou seja, Paulo e Pedro aparecem até a

sugerir que, em vida, Jesus nem sequer era Filho de

Deus! Isso só aconteceu com a sua morte.” Os olhos de

Tomás dançaram entre os dois polícias que o escutavam.

“Para os textos mais antigos não está em causa Jesus

ser Deus, mas apenas perceber quando é que Deus lhe

conferiu o estatuto especial de o tornar Seu filho, na

acepção judaica de descendente de David. Foi na

imaculada concepção? Foi no acto de baptismo? Ou foi no

momento em que ressuscitou?”

“Se bem entendi”, observou Valentina, “só o último dos

evangelhos estabelece que Jesus é Deus.”

“O Evangelho segundo João”, confirmou o historiador.

“Quer isto dizer que, quanto mais perto no tempo um

texto está dos acontecimentos, mais humano é Jesus.

Quanto mais se afasta, mais divino ele se torna. O que

parece natural. Com o passar dos anos, a memória

histórica do ser de carne e osso foi-se perdendo, sendo

substituída por elementos míticos de exaltação do herói

a um estatuto de divindade. O ser humano Jesus

transforma-se gradualmente num ser humano especial

escolhido por Deus e, mais tarde, torna-se o próprio

Deus. É uma espécie de processo de construção divina. E

a questão é esta: porque haveremos nós de afirmar que

Jesus era Deus se ele próprio não o fazia nos primeiros

textos do Novo Testamento?” Recomeçou a folhear a sua

Bíblia. “Os teólogos cristãos andaram muito tempo a