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queimar as pestanas à volta deste problema, até

encontrarem uma importante referência numa epístola de

Paulo, a Primeira Carta a Timóteo.” Parou de folhear e

pousou a mão numa página. “Está aqui.” Procurou a

referência.

“Vejamos

o

versículo

3:16:

‘Deus

manifestou-se

na

carne,

foi

justificado

pelo

Espírito.’” Olhou para os seus interlocutores com uma

expressão interrogativa, claramente a interpelá-los.

“‘Deus manifestou-se na carne’? Que Deus se manifestou

na carne? A quem se está Paulo a referir?”

Valentina hesitou, receando dizer algum disparate, mas

o historiador fez um sinal a encorajá-la e ela avançou.

“O Deus que se manifesta na carne é Jesus, parece-me a

mim.” Vacilou. “Ou não?”

“Claro que é Jesus!”, confirmou Tomás, tranquilizando-

-a quanto à sua interpretação. “Aliás, essa é ainda

hoje a tese oficial da Igreja. Jesus é Deus a

manifestar-se em carne. Mas a questão essencial não é

essa. O mais importante é que esta frase é de Paulo.”

Ao aperceber-se das implicações dessa constatação, a

italiana quase deu um pulo na cadeira.

“Paulo é o primeiro dos autores do Novo Testamento!”,

exclamou. “As suas cartas foram escritas dez a quinze

anos antes do primeiro evangelho! Isso significa que

temos o autor mais antigo a referir-se a Jesus como

Deus!”

Tomás sorriu.

“Vinte valores para a signora Valentina Ferro!”,

anunciou, como se estivesse a atribuir uma nota na

faculdade. “É isso mesmo! Esta citação é fundamental

porque significa que o mais antigo dos autores do Novo

Testamento, e consequentemente o mais próximo dos

acontecimentos, não se referiu a Jesus como uma mera

figura humana especialmente escolhida por Deus. Paulo

apresentou Jesus como se ele fosse o próprio Deus. Com

Jesus, ‘Deus manifestou-se na carne’. É verdade que nas

restantes epístolas Paulo atribuiu um estatuto divino a

Jesus, mas só depois da ressurreição, não em vida. Daí

que esta frase tenha uma importância crucial, porque

põe o autor mais antigo a expor uma teologia que só

apareceu mais tarde, a de que em vida Jesus era Deus.”

A inspectora da Policia Giudiziaria, já habituada às

súbitas reviravoltas do seu interlocutor, hesitou.

“De certeza que me vai apresentar aí um qualquer

problema”, disse, cheia de prudência repentina. “E acho

que já sei qual é: só existe um manuscrito onde Paulo

afirma tal coisa.”

O historiador regressou à linha que havia lido.

“Não, pelo contrário”, assegurou. “Este versículo da

Primeira Carta a Timóteo é o que consta na maior parte

dos manuscritos antigos que chegaram até nós.”

“Então qual é o problema?”

“O problema é que, se formos consultar este versículo

no Codex Alexandrinus, verificamos que a linha sobre o

teta-sigma, e que indica assim tratar-se da abreviatura

de um nomen sacrum, foi traçada com uma tinta diferente

da usada no texto em redor. Examinando melhor esta

anomalia, percebe-se que se trata de algo que um

escriba acrescentou posteriormente, portanto é uma

adulteração fraudulenta que desvirtua o texto.” Apontou

para a primeira letra grega da palavra, (§), constante

na charada. “Estudando com cuidado o teta, percebe-se

que a linha horizontal traçada no meio da letra não foi

originalmente colocada naquele sítio. Trata-se antes de

um ponto de tinta usada no texto do verso da página e

que

atravessou

o

pergaminho

para

ali

aparecer

acidentalmente.”

Os dois polícias seguiam a explicação com um ar muito

atento, os olhos a saltitarem entre o historiador e a

charada deixada pelo assassino.

“E então? Qual a consequência dessa alteração?”

“As letras originais desse versículo não são teta-

sigma, que daria Deus abreviado, mas ómicron-sigma,

palavra que significa aquele." Desenhou numa folha de

papel os dois caracteres da charada e a sua tradução, =

Deus, e por baixo a nova versão, o primeiro símbolo sem

o traço no interior e a respectiva tradução, OS =

Aquele. Depois voltou à página da Bíblia aberta na

Primeira Carta a Timóteo. “Ou seja, o texto original

copiado pelo escriba do Codex Vaticanus em 3:16 não é

‘Deus manifestou-se na carne, foi justificado pelo

Espírito’, mas ‘aquele manifestou-se na carne, foi

justificado pelo Espírito’. É uma coisa totalmente

diferente, uma vez que Jesus deixa assim de ser Deus.”

Fechou o livro. “O perturbador é que a mesma alteração

feita intencionalmente por escribas foi detectada em

quatro outros manuscritos antigos da Primeira Carta a

Timóteo, contaminando assim as cópias posteriores, em

particular as medievais, que reproduziram e eternizaram

a adulteração.”

“Nesse caso, o que me está a dizer é que Jesus não é

originalmente equiparado a Deus.”

“Exacto”, confirmou o académico. “Nem ele provavelmente

alguma vez declarou ser Deus, nem os apóstolos assim o

encaravam. Isso é uma construção posterior. Aliás, e

como já lhe expliquei, os próprios apóstolos relataram

coisas que inviabilizam que se equipare Jesus a Deus.

Por exemplo, o baptismo. Marcos revela em 1:5 que os

judeus iam ter com João Baptista ‘e eram baptizados por

ele no rio Jordão, confessando os seus pecados’. Depois

diz que Jesus também foi baptizado, admitindo assim que

ele tinha pecados para confessar. Se Jesus fosse Deus,

seria credível que pecasse? E Mateus, em 24:36, põe

Jesus a predizer o fim dos tempos e a afirmar: ‘Quanto

àquele dia e àquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos

do Céu, nem o Filho; só o Pai.’ Ou seja, Jesus não era

omnisciente. Assim sendo, pergunto eu, poderia ele ser

Deus?”

“E então os milagres que Jesus fazia?”, insistiu

Valentina. “Isso não prova que ele era Deus?”

Tomás riu-se.

“Os milagres não têm nada a ver com a suposta divindade

de Jesus”, retorquiu. “Tal como acontece hoje nas

feiras, naquele tempo também existiam curandeiros e

pessoas com poderes especiais, ditos milagrosos. A

antiguidade está cheia de gente assim. Apolónio de

Tíana, um conhecido filósofo, era também curandeiro e

exorcista. O Antigo Testamento mostra-se repleto de

milagres levados a cabo por Moisés, Elias e outros. O

próprio historiador judeu Josefo afirmava ser capaz de

fazer curas milagrosas e exorcismos. Até na Galileia,

uma geração depois de Jesus, viveu um famoso curandeiro