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chamado Hanina ben Dosa, a quem se atribuem milagres.

Umas décadas antes de Jesus, apareceu naquela região um

homem chamado Honi, célebre por conseguir atrair a

chuva. Apolónio, Moisés, Elias, Josefo, Hanina e Honi

eram alegadamente capazes de fazer milagres, mas

ninguém achava que eram Deus. Dizia-se que estas

pessoas tinham ‘poderes’, e apenas isso.”

“Está bem, não digo que Jesus fosse Deus”, concedeu a

italiana, “mas há-de concordar que, se ele era capaz de

fazer milagres, tinha pelo menos algo de divino!...”

“Oiça, o que é isso algo de divino? Que eu saiba o

cristianismo

diz-se

uma

religião

monoteísta.

Os

cristãos, tal como os judeus, defendem que só há um

Deus. Quer isto dizer que ou Jesus é o próprio Deus ou

é um ser humano. Não pode é ser um deus mais pequeno,

ou um ser humano com qualidades divinas. Percebe? Isso

iria contra o monoteísmo proclamado pelos cristãos.”

A inspectora da Polizia Giudiziaria baixou os olhos e

assentiu, vencida pela argumentação.

“Pois, tem razão.”

O historiador apontou para o primeiro dos três símbolos

da charada encontrada ao lado do cadáver em Stariot

Grad.

“E essa é justamente a questão suscitada por esta flor-

-de-lis.”

“Está a referir-se ao símbolo da pureza da Virgem

Maria?” Tomás abanou a cabeça.

“Neste contexto, o assassino já não se está a referir à

questão da Virgem Maria, como na charada que deixou na

Biblioteca Vaticana”, corrigiu. “Está a referir-se ao

outro sentido simbólico da flor-de-lis.”

Valentina esboçou um esgar de surpresa.

“A flor-de-lis tem mais de um sentido?”

O seu interlocutor acenou afirmativamente.

“Este é também o símbolo da Santíssima Trindade”,

esclareceu.

“A

mais

bizarra

das

invenções

do

cristianismo.”

XXVII

O som de uma batida rap acelerada irrompeu na

esplanada, interrompendo inopinadamente a conversa.

Tomás olhou em redor, quase atarantado, tentando

perceber de onde vinha aquela estranha música, e acabou

por se fixar no rosto corado do inspector Pichurov. De

ar comprometido, o polícia deitou a mão ao bolso das

calças enquanto exibia um sorriso embaraçado.

“Peço desculpa”, disse. “É o meu telemóvel.”

O anfitrião atendeu e desatou a falar em búlgaro. Menos

de meio minuto depois desligou o telemóvel, fez sinal

ao empregado e largou uma nota sobre a mesa.

“Vamos andando”, disse. “A viúva do professor Varto-

lomeev chegou agora do mar Negro, onde estava a banhos.

Temos de ir a Stariot Grad falar com ela.”

Tomás e Valentina ergueram-se da mesa.

“Ah, com certeza!”

O inspector Pichurov virou-se para a colega italiana.

“Também me disseram do escritório que a sua gente em

Roma e a polícia irlandesa acabaram de nos enviar uns

documentos urgentes. São para lhe entregar a si.”

“Que documentos?”

“Parece que se trata de reconstituições do que fizeram

as vítimas de Roma e de Dublin nos últimos doze meses.

Pediu isso?”

“É verdade. Onde estão?”

“Disse-lhes que os levassem para Stariot Grad.”

Abandonaram a esplanada e caminharam pela Glavnata em

direcção ao lugar onde o inspector Pichurov havia

deixado a sua viatura de serviço. O final de manhã

revelava-se realmente aprazível, com o sol a banhar a

vasta rua de peões e o chilrear melodioso dos pássaros

a embalar os transeuntes.

O polícia búlgaro levava o dossiê do caso numa mão e na

outra o plástico onde a terceira charada permanecia

selada. Valentina fez-lhe sinal a pedir o plástico e,

enquanto caminhava ao lado de Tomás, indicou os

rabiscos que o assassino fizera no papel.

“Já percebemos que os símbolos do meio e da direita são

teta e sigma, do alfabeto grego, e remetem para o

problema da divinização de Jesus”, recapitulou. “Agora

não percebo bem o papel desta flor-de-lis esquematizada

à esquerda. Diz você que, neste contexto, ela

representa a Santíssima Trindade?”

“Desculpe, mas qual a relevância da Santíssima Trindade

nesta conversa? Porque se referiu o assassino a ela?”

“Correcto.”

Tomás pegou no plástico com a charada.

“Porque

a

Santíssima

Trindade

está

directamente

relacionada com a atribuição do estatuto de divindade a

Jesus”, explicou.

“Relacionada como?”

O historiador fixou os olhos pensativos no piso da Gla-

vnata, que percorriam em ritmo de passeio.

“Oiça, a partir do momento em que o Evangelho segundo

João começou, no ano 95, a dizer que Jesus era Deus,

criou-se um problema teológico sério. Em primeiro

lugar, se Deus é Deus e Jesus também é Deus, então

quantos deuses temos?”

Pichurov, que seguia à frente, voltou a cabeça para

ele.

“Na minha contagem dá dois deuses.”

O historiador exibiu o seu exemplar da Bíblia.

“Mas não eram as Escrituras que diziam que só havia um

Deus? Como conciliar a atribuição do estatuto de Deus a

Jesus com a afirmação do monoteísmo? Em segundo lugar,

se Jesus é Deus, isso significa que não era um ser

humano?”

“Claro que era um ser humano!”, exclamou Valentina.

“Morreu na cruz, lembra-se?”

“Então, se era um ser humano, isso significa que não

era Deus?”

A italiana olhou-o, atrapalhada com a pergunta.

“Bem... também era Deus.”

“Humano ou Deus? Em que ficamos?”

“Metade uma coisa, metade outra.”

Tomás torceu os lábios e esboçou uma expressão céptica.

“Hmm... tudo isto parece um pouco dúbio, não acham? A

verdade é que foram justamente estes problemas que

dividiram os seguidores de Jesus. Havia um grupo, os

ebionitas, que defendia que a conversa da divindade era

um disparate, Jesus não era deus nenhum, não passava de

um ser humano que Deus tinha escolhido por se tratar de

uma pessoa particularmente respeitosa da lei, e apenas

isso. Mas outros grupos puseram-se a adorar Jesus como

se ele fosse Deus. Os docetas entendiam que Jesus era

uma entidade exclusivamente divina que apenas parecia

ser humana. Não tinha fome, não tinha dor, não

sangrava, embora parecesse sofrer de todos esses males

do corpo. Defendiam que havia dois deuses, o dos judeus

e Jesus, sendo este o maior. E depois havia os

gnósticos, que afirmavam existirem muitas divindades e

que Jesus era uma delas, pertencente a uma raça de

deuses superior à do Deus dos judeus. Achavam que Jesus