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era um ser humano cujo corpo foi temporariamente

ocupado por Deus, designado Cristo. Cristo entrou no

corpo de Jesus no momento do baptismo, e terá sido por

isso que nesse instante Deus disse ‘Tu és o Meu Filho

muito amado, em Ti pus toda a Minha complacência’, e

Cristo abandonou o corpo quando Jesus se encontrava

pregado à cruz, tendo sido por isso que Jesus disse

‘Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?”’

“Que trapalhada!”, observou Valentina.

“Os cristãos de Roma, que viriam a tornar-se a

ortodoxia,

posicionaram-se

a

meio

deste

debate.

Afirmaram que Jesus era Deus e homem em simultâneo.”

“Uma decisão verdadeiramente salomónica”, constatou o

inspector Pichurov com um sorriso. “Metade Deus, metade

homem.”

“Não, não!”, corrigiu Tomás. “Para se demarcarem da

posição gnóstica e estabelecerem que Jesus e Cristo

eram a mesma entidade, os cristãos romanos disseram que

Jesus era, ao mesmo tempo, Deus e homem. Para se

demarcarem dos ebionitas, afirmaram que era cem por

cento

Deus.

E

para

se

demarcarem

dos docetas

sublinharam que era cem por cento homem. Ou seja, Jesus

é ao mesmo tempo cem por cento humano e cem por cento

Deus.”

O polícia búlgaro sacudiu a cabeça, sem entender.

“Cem por cento as duas coisas? Isso não é possível!”

“Mas foi o que ficou decidido. Além do mais, a

ortodoxia considerou que Deus-Pai era uma entidade

diferente de Deus-Filho. Mas ambos são Deus.”

O inspector Pichurov deteve-se a meio da Glavnata e fez

uma careta, como se não tivesse entendido.

“Então temos dois deuses.”

“Não. É apenas um. Deus-Pai e Deus-Filho.”

Os dois interlocutores esboçaram uma expressão confusa.

“Mas... mas isso dá dois.”

“Não segundo a Igreja”, sorriu Tomás, fazendo um gesto

de impotência como se ele próprio não fosse capaz de

entender o que estava a dizer. “Deus-Pai e Deus-Filho

são entidades diferentes. Mas os dois são um único

Deus.”

“Espere aí”, disse Pichurov, tentando dar sentido ao

que estava a escutar. “De acordo com a Igreja, Jesus é

Deus?”

“É.”

“E Deus-Pai é Deus?”

“Claro.”

“Jesus é Deus-Pai?”

“Não.”

“Então há dois deuses! Deus-Pai e Deus-Filho!”

“Não, segundo a Igreja. Os dois são distintos, Jesus

senta-se à direita do Pai e os dois são Deus, mas só há

um Deus.”

Valentina ergueu o sobrolho.

“Bom, isso não faz realmente muito sentido”, admitiu.

“Com certeza essa ideia evoluiu depois para qualquer

coisa mais lógica...”

“Só evoluiu no sentido em que a Igreja, não contente

com toda esta confusão, decidiu acrescentar-lhe ainda

uma terceira entidade. Como em 14:16 o Evangelho

segundo João põe Jesus a apresentar o Espírito Santo

como ‘outro consolador, para estar convosco para

sempre’ quando Jesus voltar para o Céu, a Igreja achou

por bem instituir esta nova entidade de contornos

difusos, o Espírito Santo, também como Deus.” Fez um

gesto grandioso. “Voilà! A Santíssima Trindade!”

“Porque faz essa expressão sarcástica?”, protestou a

italiana. “As três entidades são três expressões

diferentes de Deus. Qual é o problema?”

“Não!”, corrigiu o historiador. “Eu sei que é difícil

de entender, mas segundo a doutrina oficial são três

entidades totalmente distintas umas das outras. Todas

diferentes, mas todas são Deus, embora só exista um

Deus. E Jesus é cem por cento Deus e cem por cento

homem. Esta foi a tese estabelecida no célebre Concílio

de Niceia, convocado em 325 para resolver todas as

disputas teológicas e unificar o cristianismo, e que

vigora ainda hoje.” Fez um gesto enfático. “Ainda

hoje!”

A inspectora da Polizia Giudiziaria sacudiu a cabeça,

como se tivesse esperança de que assim as peças se

encaixassem de alguma forma dentro do seu próprio

crânio.

“Há três deuses diferentes e são todos um Deus?”,

estranhou. “Jesus é cem por cento divino e cem por

cento humano? Realmente, essa aritmética não bate

certo!...” “Pois não.”

“Como é que a Igreja resolveu o problema?”

Tomás riu-se.

“Disse que era um mistério.”

“Um mistério... como?”

“A Igreja percebeu que é um absurdo afirmar que Jesus é

cem por cento humano e cem por cento Deus. Não faz

sentido! E percebeu que é também incompreensível

defender que Deus, Jesus e o Espírito Santo são três

entidades divinas totalmente distintas umas das outras

e, porém, só existe um Deus. Mas não quis recuar nas

suas posições paradoxais. Então o que fez? Fugiu em

frente. Incapaz de resolver estas contradições, mas não

querendo dar razão aos ebionitas, ou aos gnósticos, ou

aos docetas, limitou-se a declarar que isto é tudo um

grande mistério.” Mudou o tom de voz, como se fizesse

um aparte. “No que, aliás, até tem razão: é um mistério

porque não faz nenhum sentido.” Retomou o tom normal.

“E assim, como quem esconde o lixo debaixo do tapete

para fingir que ele não existe, lavou as mãos da

trapalhada teológica que montou. E aqui está, em todo o

seu esplendor, o mistério da Santíssima Trindade.”

Chegaram junto da viatura de serviço da polícia

búlgara. O anfitrião retirou a chave do bolso, mas não

entrou de imediato.

“De certeza que isso faz sentido e nós é que somos

burros”, observou. “Mas o que eu quero perceber é qual

a relação entre esse assunto e a charada deixada pelo

autor dos crimes que estamos a investigar.”

O olhar dos três descaiu para o objecto na mão de

Tomás, o plástico com a folha de papel encontrada junto

à vítima de Stariot Grad.

“Por algum motivo que me escapa, o nosso homem quis

nesta mensagem chamar a atenção para as ficções criadas

em torno da divindade de Jesus e da Santíssima

Trindade”, disse ele. “Se a segunda parte desta charada

incide na adulteração que conduziu ao teta-sigma que

transformou Jesus num Deus, talvez o primeiro símbolo

se relacione também com adulterações do Novo Testamento

relativas à Santíssima Trindade.”

“Também aí houve adulterações?”

“Claro que houve. Basta ler o Novo Testamento para

perceber que em parte alguma se fala na Santíssima

Trindade. Nem mesmo no Evangelho segundo João!”. Abriu

o seu exemplar da Bíblia. “A excepção, claro, é a