Primeira Carta de João, onde, em 5:7-8, está escrito:
‘Porque três são os que testificam no céu, o Pai, a
Palavra e o Espírito Santo: e estes três são um. E há
três que prestam testemunho na Terra, o Espírito, a
água e o sangue; e os três estão de acordo.’”
Valentina lançou-lhe um olhar desconfiado.
“Vai dizer-me que isso é falso.”
“Duplamente”, confirmou Tomás. “Em primeiro lugar, as
três Cartas de João que constam do Novo Testamento são
fraudes. O apóstolo João, que os Actos dos Apóstolos
revelam ser ‘analfabeto’, não as escreveu. Confrontada
com este problema, a Igreja diz que a epístola pode não
ter sido escrita por João, mas mesmo assim o seu
conteúdo é ‘inspirado’ por Deus. É uma maneira de
ignorar o problema embaraçoso de existirem textos
canónicos fraudulentos, embora essa prática na altura
não fosse considerada condenável. Mesmo que se aceite
essa ficção, o facto é que este versículo nem sequer
fazia parte da carta original. Nenhum manuscrito grego
o contém desta maneira. O texto foi adulterado para
meter à força a referência ao Pai, ao Filho e ao
Espírito Santo, num exemplo claro de adaptação dos
factos à teologia.”
“E diz você que essa era a única referência no Novo
Testamento à Santíssima Trindade?”
“A única”, insistiu o historiador. “E é duplamente
falsa.” Soprou, como se assim o versículo se desfizesse
em pó. “Já não resta mais nada.” Voltou a folhear a
Bíblia. “O que fica é a simples constatação de que
Marcos põe um escriba a perguntar a Jesus qual o
primeiro de todos os mandamentos e Jesus responde desta
forma em 12:29: ‘O primeiro é: «Ouve, Israeclass="underline" O Senhor,
nosso Deus, é o único Senhor.»’ Ou seja, Jesus limita-
se a proclamar o Shema, a afirmação judaica de que só
há um Deus. Jesus não faz em parte alguma alusão a uma
Trindade nem a um Espírito Santo, e muito menos à
possibilidade de ele próprio ser Deus. Ao longo de toda
a Bíblia, a palavra Deus aparece cerca de doze mil
vezes. Pois não há uma única vez em que a palavra três
ou trindade surja no mesmo versículo onde está a
palavra Deus. E em parte alguma, quando Deus ou Jesus
falam e se referem a si próprios, dizem ou insinuam
‘Eu, os três’.”
Fez-se uma pausa e o inspector Pichurov destrancou o
automóvel e convidou os seus dois acompanhantes a
acomodarem-se no interior. Tomás instalou-se ao lado do
condutor, Valentina no banco de trás. O búlgaro meteu a
chave na ignição e, antes de ligar o motor, olhou para
o lado.
“Onde é que isso tudo nos deixa nesta investigação?”,
quis saber.
O historiador encolheu os ombros.
“O nosso assassino é evidentemente um erudito em
questões teológicas”, disse. “Parece apostado em
demonstrar que quase tudo o que sabemos sobre Jesus é
uma mentira. E cheira-me que só perceberemos o que está
verdadeiramente a acontecer se descobrirmos o que une
as três vítimas. Será esse ponto em comum entre elas
que nos conduzirá ao autor destes crimes.”
Os dois polícias assentiram.
“Tem razão”, concordou Valentina. “Essa também me
parece ser a única maneira de deslindar estes casos.”
O consenso estava estabelecido no interior do carro.
Percebendo
que
já
se
encontravam
atrasados,
e
determinado a não perder mais tempo, Pichurov ligou a
ignição, fez pisca à esquerda, verificou pelo espelho
retrovisor lateral se tinha a via livre e carregou no
acelerador.
XXVIII
O ambiente no interior da Casa de Balabanov era de
profunda consternação. Quando subia as escadas de
madeira, Tomás ouviu o choro abafado da viúva no
primeiro andar e teve vontade de fugir dali; sentia-se
um intruso na desgraça alheia, como um abutre que vive
dos despojos da morte. Mas os polícias que o
encaminhavam nem hesitaram; afinal era uma situação a
que estavam habituados. Resignando-se, o historiador
remeteu-se ao seu papel.
A escadaria desembocou num grande salão no primeiro
andar, bem iluminado pelas múltiplas janelas que o
cercavam.
O
salão
fazia
ligação
a
vários
compartimentos, como um polvo a espraiar os seus
múltiplos tentáculos, e os visitantes aperceberam-se de
movimento numa das salinhas de esquina. Era decerto ali
que se encontrava a viúva, pelo que se encaminharam
para lá.
“Dober den”, cumprimentou o inspector Pichurov ao
penetrar na salinha. “Kak ste?”
Uma mulher com o rosto chupado e os olhos
congestionados estava sentada numa cadeira ao canto e
acolheu os recém-chegados com um olhar interrogador. O
polícia pôs-se a dialogar com ela em búlgaro. Instantes
depois apontou para a italiana, disse o nome dela e
depois indicou o historiador. Tomás escutou o seu nome
entre a algaraviada eslava e ainda entendeu a palavra
portugalski, jnas o resto escapou-lhe. A conversa em
búlgaro acabou no entanto por se revelar curta e foi
interrompida
quando
a
viúva
encarou
os
dois
estrangeiros e se dirigiu a eles em inglês.
“Sejam bem-vindos”, disse, com uma voz arrastada.
“Lamento
que
tenham
vindo
nestas
circunstâncias
penosas. Oferecer-vos-ia chá se me sentisse com forças,
mas assim...” Uma grossa lágrima deslizou pelo rosto
enrugado
da
mulher,
deixando
o
historiador
constrangido.
“Oh, não se preocupe”, balbuciou. Não sabia o que dizer
naquelas
circunstâncias.
Deveria
apresentar
condolências, claro, mas, não conhecendo ele a vítima
nem a sua interlocutora, pareceu-lhe que os pêsames
seriam artificiais. Tudo o que conseguiu dizer foi:
“Isto é uma coisa terrível...” Tomás deixou a frase em
suspenso, mas Valentina, experiente naquelas situações,
não perdeu tempo.
“Vamos apanhar a pessoa que fez isto”, garantiu com a
convicção de quem acabara de fazer do caso uma questão
pessoal. “A polícia italiana está empenhada em
descobrir
o
criminoso
e
contamos
com
ajuda
internacional.” Indicou Tomás, como se fosse ele a dita
ajuda internacional. “No entanto, primeiro precisamos
da sua cooperação.”
A viúva abanou a cabeça com tristeza.
“Não sei se me encontro em condições de vos ajudar”,
disse ela. “Quando ontem me deram a notícia eu estava a
banhos na nossa casa de Verão em Varna.” Pousou a palma