da mão no peito. “Ah, foi um choque! Ando há quase
vinte e quatro horas com sedativos e sinto-me um pouco
entorpecida.” “Eu compreendo”, afirmou Valentina num
tom caloroso, toda ela compaixão profissional. “Queria
apenas saber se notou alguma coisa anormal nos últimos
tempos. O seu marido andava preocupado? Receberam
alguma ameaça? Passou-se qualquer coisa de estranho?”
A mulher abanou a cabeça.
“Não, nada. Estava tudo bem. O Petar andava nas suas
coisas, claro. Sempre entusiasmado, como era o seu
timbre. Passava a vida metido na faculdade, a dar aulas
ou lá nas suas pesquisas. Às vezes tinha de fazer umas
viagens ao estrangeiro, mas nada de anormal.”
“Ai sim? Ele viajava? E onde foi ele nos últimos
tempos?”
“Não tenho bem a certeza”, disse ela, os olhos
encovados a traírem a fadiga. “Esteve em Nova Iorque,
foi a Israel, deu um salto a Helsínquia...” Fez um
esforço de memória. “Ah, passou por Itália!...”
A referência ao seu país chamou a atenção da inspectora
da Polizia Giudiziaria.
“Onde foi ele, em Itália?”
“Ah, isso já não sei. Andou por lá em conferências e
coisas do género.” Fez um gesto incomodado. “Talvez
seja melhor irem à faculdade. Eles é que tratam das
viagens...”
O inspector Pichurov inclinou-se para a sua colega
italiana.
“Os meus homens já estão na universidade a recolher
informação”, segredou-lhe. “Se quiser, encaminho-lhe
depois os pormenores.”
A viúva aproveitou aquela pausa para se erguer da
cadeira. Com uma expressão condoída, fez um gesto a
indicar aos visitantes que a deixassem passar.
“Estou muito cansada”, disse. “Se me dão licença, vou
para o meu quarto repousar um pouco.”
“Com certeza”, assentiu Valentina. “Só tenho mais uma
pergunta para lhe fazer, se não se importar.”
A mulher continuou a caminhar, embora com passos
curtos, como vergados pelo pesar.
“Diga.”
“O seu marido era um homem religioso?”
A viúva parou, estranhando a pergunta.
“Nem por isso. O Petar não ligava a essas coisas. Inte-
ressava-se mais por ciência, está a ver?”
“Mas não consultava a Bíblia nem nada? Nunca lhe falou
de manuscritos antigos e coisas do género?”
A senhora Vartolomeev esboçou uma careta atónita, como
se não entendesse a pertinência da pergunta.
“O minha senhora”, retorquiu com uma ponta de acidez,
“pois se lhe estou a dizer que ele não se interessava
por
esses
assuntos!...”
Endireitou
o
corpo,
empertigando-se, e retomou a marcha, agora com passos
mais convictos. “Se me dão licença, retiro-me para os
meus aposentos. Boa tarde!”
A viúva desapareceu para além de uma porta e deixou os
polícias a olharem uns para os outros na salinha do
canto. Valentina fez a expressão de quem tinha tentado
obter alguma coisa de útil, mas os colegas búlgaros
responderam-lhe com uma expressão facial fria e
distante. Embaraçada pelo fracasso, bateu em retirada e
recolheu-se com Tomás ao salão central. O inspector
Pichurov
ficou
para
trás
a
conversar
com
os
subordinados, mas pouco depois juntou-se aos visitantes
no salão com algumas folhas de papel entre os dedos.
“Estão aqui os documentos enviados de Dublin e de
Roma”, anunciou. “Contêm a relação das viagens das
outras duas vítimas nos últimos doze meses.”
A italiana arrancou-lhe os papéis com um gesto sôfrego
e pousou de imediato os olhos neles. Quase se assustou
com o que viu.
“Ui, a professora Escalona fartou-se de viajar!”,
exclamou. Virou o documento na direcção do historiador.
“Olhe para isto! São mais de quarenta viagens!”
Espreitou o segundo documento. “Que horror! O Schwarz
ainda foi pior!” Também exibiu o texto. “Este homem
devia ser o holandês voador! Madonna, são umas
cinquenta viagens!”
Tomás espreitou as duas listas.
“É realmente muita coisa”, concordou. “Oiça, veja só
quais os sítios onde ambos estiveram na mesma altura.”
Valentina pegou numa caneta e assinalou os destinos
comuns. Fez dezasseis cruzes. Depois verificou os dias
das respectivas viagens, em busca de coincidências de
datas, e reduziu o número de cruzes a cinco.
“Hmm, interessante”, murmurou. “Estiveram ambos em Roma
ao mesmo tempo. A Escalona foi ver manuscritos no
Vaticano e o Schwarz andou envolvido em escavações
dentro do Coliseu.” Fez uma pausa. “Andaram os dois
pela Grécia na mesma altura. Ele nas ruínas de Olímpia,
ela na biblioteca do Mosteiro de Roussanou.” Nova
pausa. “Israel é outro ponto em comum. Ele foi lá
inspeccionar ossários na Autoridade das Antiguidades de
Israel, ela participou numa conferência sobre os
manuscritos do Mar Morto.”
“Até aqui, tudo muito normal”, observou o académico
português. “O professor Schwarz sempre envolvido em
actividades ligadas à sua especialidade, a arqueologia,
e a Patricia no meio de manuscritos, como seria de
esperar de uma paleógrafa com a sua reputação. Não há
nada de anormal nas outras duas viagens em comum?”
“Paris”, disse a italiana. “A professora Escalona foi
participar numa peritagem de dois palimpsestos.”
“Parece-me normal. E o professor Schwarz?”
“Fez uma simples visita de turismo.” Cravou os olhos
azuis em Tomás. “O turismo é uma excepção no perfil
geral das viagens que ele efectuava. Pode querer dizer
alguma coisa.”
“Pode ser que sim”, concordou o historiador, “mas
também pode ser que não. Escolher Paris como destino
turístico parece-me uma coisa perfeitamente normal.”
Desviou a atenção para os documentos. “E a última
viagem?”
Valentina verificou a derradeira cruz.
“Estiveram ambos em Nova Iorque ao mesmo tempo. Ela de
passagem para Filadélfia para ir ver um qualquer
manuscrito antigo que está lá guardado...”
“Deve ser o pergaminho Pl, o primeiro fragmento de
papiro alguma vez catalogado. Contém versículos do
Evangelho segundo Mateus e data do século III. Uma
preciosidade.” Desviou os olhos para a lista das
viagens do professor Schwarz. “E ele?”
“Foi lá tratar de umas questões de financiamento para a
Universidade de Amesterdão.”
Os dois trocaram um olhar, esperando contra todas as
esperanças.
“Se calhar foi aqui que eles se cruzaram”, observou