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Tomás. Fez um gesto a indicar a salinha ao lado. “Não

foi em Nova Iorque que a nossa viúva disse que o marido

também esteve?”

Os olhos de Valentina brilhavam.

“Nova Iorque”, repetiu, como se se tratasse de um nome

mágico. “Acha mesmo que é esse o ponto que une os

três?” O português encolheu os ombros.

“Pode ser, não acha? Alguma coisa terão em comum, para

serem assassinados da mesma forma.”

Estavam ambos a ponderar as diversas hipóteses quando o

inspector Pichurov, que se havia afastado para dar

instruções aos seus subordinados, voltou a aproximar-

se.

“Haide!”, disse em búlgaro, fazendo com a mão um gesto

a chamá-los. “Vamos embora. A viúva está muito afectada

pelo que aconteceu e pediu silêncio.”

“Ah, compreendo.”

Meteram pelas escadas e começaram a descer. Eram de

madeira e os degraus rangiam a cada passo, como se

protestassem pelo peso que tinham de suportar.

“Coitada!”, desabafou Pichurov. “Parece que a senhora

Vartolomeev ficou muito perturbada quando lhe contaram

que o assassino lançou um berro a lamentar a morte do

marido. Perguntou que raio de animal mata uma pessoa e

depois se põe a fingir que...”

“O quê?”, interrompeu-o Tomás, estacando a meio das

escadas como se um raio tivesse acabado de o paralisar.

“Repita lá o que disse!”

Os dois polícias ficaram a olhar para o historiador,

surpreendidos com a sua reacção.

“Bem, dizia que ela perguntou que raio de animal é

que...” “Não. Antes. O que disse antes?”

“Antes?”, admirou-se o búlgaro, sem entender nada.

“Antes, como?”

“Disse que o assassino gritou?”

“Ah, sim. Temos uma testemunha, a beldade do quiosque,

que diz que o assassino lançou um berro, como se

lamentasse ter morto o professor Vartolomeev. Estranho,

não é?”

Tomás atirou um olhar a Valentina, que acabara de

perceber a reacção do português.

“Lembra-se do que revelou a testemunha de Dublin?” “Tem

razão!”, exclamou ela. “O bêbado contou a mesma coisa.

O assassino de Dublin também gritou, como se chorasse a

morte do professor Schwarz.” Hesitou. “O que quererá

isso dizer?”

O historiador fez um ar pensativo. Tinha os olhos

baixos, colados à madeira da escada, mas no seu cérebro

só passavam imagens de páginas e páginas dos milhares

de livros de história que ao longo dos anos tivera de

ler por causa da sua profissão.

“Os sicarii!”, exclamou de repente. “São os sicarii!”

A italiana esboçou uma expressão inquisitiva.

“Os... quem? Que diabo está para aí a dizer?”

Tomás indicou com a cabeça os documentos que ela tinha

nas mãos, com a lista dos destinos de viagem das duas

primeiras vítimas.

“Já sei o que têm as nossas três vítimas em comum.”

“Ai sim? O quê?”

O português olhou para a porta que dava para a rua,

como se não houvesse mais tempo a perder.

“Jerusalém.”

XXIX

O sol banhava o topo do muro com intensidade, mas a

sombra cortava uma recta pelas enormes pedras e

abrigava os fiéis do ardor inclemente. Depois de

ajeitar o tallit sobre a cabeça e os ombros e de

assegurar que o tefilin sbel rosb estava adequadamente

apertado em torno da testa e os tzitzit se encontravam

devidamente atados nas bordas, como requerido pelas

Sagradas Escrituras, Sicarius deitou a mão ao rolo de

pergaminho.

Deu um passo para a frente, encostou a cabeça à pedra

fria, estendeu o rolo e começou a murmurar as palavras

sagradas dos Salmos, nas Escrituras.

“‘Para Vós, Senhor, elevo a minha alma!’”, entoou,

lendo o texto impresso no pergaminho. “‘Meu Deus, em

Vós confio, não seja eu confundido! Não exultem contra

mim os meus inimigos! Na verdade, quantos esperam em

Vós...’” O som do telemóvel irrompeu inesperadamente do

bolso, atraindo para Sicarius os olhares incomodados

dos fiéis que rezavam em redor. Embaraçado, o crente

deitou à pressa a mão ao bolso e, às cegas e de

memória, localizou o botão vermelho e premiu-o,

desligando

o

aparelho.

A

tranquilidade

fora

restabelecida.

“ ‘Na verdade, quantos esperam em Vós não serão

confundidos’”, recitou, retomando a leitura sagrada.

“‘Confundidos serão os traidores sem qualquer motivo.”’

Sicarius permaneceu meia hora a recitar os Salmos em

voz baixa diante do grande muro de pedra, o tronco a

balouçar para a frente e para trás, os dedos a

desenrolarem o pergaminho. Depois voltou a deitar a mão

ao bolso, localizou os papéis que trazia preparados com

versículos do Cântico dos Cânticos e inseriu-os nas

pequenas aberturas entre as pedras gigantescas.

Terminada a tarefa, retirou-se com todo o respeito e

foi preparar as suas coisas para abandonar o local.

Quando atravessou a enorme praça, voltou a ligar o

telemóvel, localizou a chamada que o havia interrompido

a meio da oração e ligou para o número.

“Lamento não ter atendido, mestre”, desculpou-se.

“Estava em oração no HaKotel HaMa’aravi.”

“Ah, peço desculpa. Não sabia que tinhas ido rezar ao

Muro das Lamentações. Está aí muita gente?”

Sicarius olhou em redor.

“O costume.” Torceu os lábios. “Foi para saber isso que

me ligou?”

“Sabes bem que não. Queria apenas avisar-te de que me

chegaram uns zunzuns aos ouvidos...”

“Que zunzuns?”

“Eu cá sei”, disse, enigmático. “Preciso é de me

assegurar que estás pronto para mais uma operação.”

O coração de Sicarius deu um salto.

“Com certeza, mestre. Para que país quer que eu vá

“Não terás de viajar”, retorquiu a voz ao telemóvel. A

operação irá decorrer cá em Jerusalém.'’’’

“Aqui?”, admirou-se o operacional. “Quando?”

O mestre fez uma pausa antes de responder.

“Era breve. Mantém-te preparado.”

XXX

O bar do American Colony tinha um certo ar de tugúrio

lúgubre, como se estivesse encravado nas masmorras de

uma fortaleza medieval sombria, o que de resto pareceu

a Tomás o ambiente adequado para o encontro com o

inspector-chefe da polícia israelita.

“Shalom!”, cumprimentou o homem mal os dois recém-

-chegados cruzaram a porta do bar do hotel. “Sou Arnald

Grossman, do departamento de homicídios da polícia

israelita. Podem chamar-me Arnie. Bem-vindos a

Jerusalém!” O anfitrião era um homem de sessenta anos,