alto e bem constituído, olhos claros e cabelo grisalho,
a denunciar o louro já perdido da juventude. Ofereceu
um whisky a Tomás e um martini a Valentina, e desatou a
tagarelar sobre os infindáveis problemas de segurança
do seu país.
Ao fim de alguns minutos de conversa de circunstância,
a inspectora da Polizia Giudiziaria achou que estava na
altura de entrar no assunto que ali os trouxera.
“Estamos convencidos que está em Israel a solução para
uma série de crimes ocorridos há três dias na Europa”,
disse ela. “No espaço de vinte e quatro horas foram
assassinados três académicos em países diferentes.
Temos razões para acreditar que a chave dos casos se
encontra aqui.”
Grossman semicerrou os olhos, como um jogador de póquer
a avaliar os adversários.
“Estou familiarizado com o sucedido”, declarou. “Li os
relatórios da Interpol e o material que acompanhou os
pedidos urgentes que nos fizeram chegar. Mas não
percebo bem os motivos pelos quais vocês acreditam que
esses casos se resolvem aqui.”
“Bem... as três vítimas estiveram em simultâneo em
Israel”, explicou Valentina. “A professora Patricia
Escalona era uma paleógrafa muito reputada e veio cá há
três meses participar numa conferência sobre os
manuscritos do Mar Morto. O professor Alexander Schwarz
esteve na mesma altura em Jerusalém a inspeccionar os
ossários protocristãos guardados na Autoridade das
Antiguidades de Israel para um artigo que estava a
escrever para a Biblical Arcbaeology Review. Na mesma
data, o professor Petar Vartolomeev proferiu uma
palestra no Instituto Weizmann de Ciência.” O polícia
israelita estudou os seus dois interlocutores com olhos
argutos, como se os dissecasse.
“Tudo isso já eu sei”, acabou por dizer, no tom de quem
insinua que a ele não o enganavam facilmente. “Mas,
meus amigos, não nasci ontem. Vocês não me estão a
contar tudo.”
“Porque diz isso?”
Arnie Grossman suspirou, como se se enchesse de
paciência. “O facto de as três vítimas terem estado em
simultâneo em Israel constitui sem dúvida uma pista
interessante”, admitiu. “Mas não confere certezas sobre
coisa alguma.
É apenas um indício, uma coisa circunstancial.”
Inclinou-se
para
a
frente,
cravando
os
olhos
perscrutadores na italiana. “Decerto que algo mais vos
deu a certeza de que a chave dessa série de homicídios
se encontra aqui.”
Valentina esboçou um esgar todo ele feito de inocência
angelical.
“Não sei do que está a falar. Limitamo-nos a seguir uma
pista. As três vítimas estiveram ao mesmo tempo aqui em
Israel. Trata-se de uma coincidência perturbadora e que
requer investigação. Queremos saber se se encontraram e
onde. Apenas isso.”
O enorme polícia israelita abanou a cabeça.
“Mau, não nos estamos a entender!”, declarou em voz
baixa, num leve tom ameaçador. “Se querem a nossa
ajuda, têm de jogar limpo.” Bateu com o indicador na
mesinha que os separava. “Ou me contam tudo o que
sabem, e contam agora com todas as vírgulas, ou estou-
me nas tintas para a vossa investigação.” Cruzou os
braços, na pose de quem se põe à espera. “Escolham.”
Valentina cruzou o olhar com Tomás. O historiador
encolheu os ombros, indiferente; não sabia qual a
utilidade daqueles joguinhos entre polícias, nem queria
saber. Ela é que era a profissional, ela é que sabia o
que seria ou não adequado para revelar às outras
polícias, ela é que teria de tomar a decisão.
A inspectora da Polizia Giudiziaria percebeu a
mensagem. Respirou fundo e encarou o seu homólogo
israelita.
“Está bem”, cedeu. “Existe de facto um elemento
adicional que criou em nós a firme convicção de que a
solução para este mistério se encontra aqui em Israel.”
Grossman tirou o seu bloco de notas e a caneta e
preparou-se para começar a escrever.
“Sou todo ouvidos.”
“As nossas três vítimas morreram degoladas.”
“Eu reparei. O que quer dizer que estamos perante
assassínios rituais.”
“Exactamente. Acontece que temos testemunhas oculares
do segundo e do terceiro crime. Em ambos os casos, elas
disseram-nos que o assassino soltou um grito de
angústia, como se lamentasse as mortes, no instante em
que terminou as execuções.”
A informação levou o polícia a suspender as anotações e
a erguer o olhar, intrigado e desconcertado.
“Ele lamentou as mortes?”
“Exacto. Essa observação chamou a atenção do professor
Noronha, a quem pedi assistência no caso.”
Valentina voltou-se para Tomás, como se o convidasse a
retomar a palavra onde ela a deixara.
“De facto, esses dois testemunhos pareceram-me reminis-
centes de algo com que me cruzei quando estudei o
período entre a morte de Jesus, por volta do ano 30, e
a destruição do Templo de Jerusalém pelos Romanos, no
ano 70.” Apontou para Grossman, que voltara a tomar
notas. “Como o senhor observou há pouco, os homicídios
por degolação resultam em geral de práticas rituais. A
inspectora Ferro já me tinha falado nisso na noite do
primeiro homicídio no Vaticano, e até observou que a
vítima foi morta como um cordeiro. Mas na altura não
prestei grande atenção. Não me pareceu relevante.
Quando, porém, me apercebi de que o criminoso soltava
lamentos terríveis depois de cada execução, fez-se luz
na minha mente.”
“ Yehi or!”, murmurou o polícia quase automaticamente,
enunciando em hebraico a célebre expressão bíblica.
“Faça-se luz!”
“Foi o que me sucedeu. Yehi or! Como se tivesse sido
atingido por um relâmpago, lembrei-me nesse instante
das práticas de uma seita de assassinos judeus que
existiu aqui em Israel nas décadas que se seguiram à
crucificação de Jesus, e que...”
“Não me vai falar nos zelotas, pois não?”, atalhou
Grossman, com uma expressão desconfiada.
Tomás fez uma pausa e arregalou os olhos, como uma
criança que tivesse sido apanhada em flagrante com a
mão afundada no jarro dos rebuçados.
“Por acaso vou”, admitiu por fim. “De facto, lembrei-me
dos zelotas, que na altura tinham uma facção extremista
conhecida por sicarii.'”
O israelita corpulento fez um gesto de enfado.
“Isso foi há dois mil anos! Os zelotas... ou sicarii,
se prefere, já não existem! Vocês andam a caçar
fantasmas, que diabo!”
“Eu sei que os sicarii já não existem”, reconheceu o