historiador. “No entanto, as práticas de assassínios
rituais são as mesmas! Os sicarii esfaqueavam os
romanos em público com as suas sicae, as adagas
sagradas que escondiam por baixo dos capotes, e logo a
seguir às execuções punham-se a bradar aos céus em
grandes lamentos, como se estivessem consternados,
fingindo assim que nada tinham a ver com o sucedido, e
depois desapareciam entre a multidão e ninguém os
apanhava.”
“Isso são histórias antigas!”
“Pode ser que sim. Todavia, a prática é a mesma. Além
disso, duas das nossas vítimas são historiadores que
pesquisavam manuscritos do Novo Testamento, que abordam
justamente acontecimentos ocorridos na mesma zona do
globo e no mesmo período histórico. Agora some as
degolações e os lamentos rituais típicos dos sicarii ao
facto de as três vítimas terem estado há três meses em
Israel ao mesmo tempo. São demasiadas coincidências,
não lhe parece?”
Arnie Grossman ponderou a questão por momentos, como se
avaliasse a pertinência daquele raciocínio.
“Tem razão”, acabou por condescender. “Parecem de facto
demasiadas coincidências!...”
“Foi o que achámos”, disse o historiador, fazendo um
gesto largo a indicar o bar do American Colony. “De
modo que aqui estamos nós.”
Valentina, que se tinha mantido calada para deixar
Tomás desenvolver o raciocínio que os conduzira aos
sicarii, pareceu ganhar vida e encarou o seu homólogo
israelita.
“Já lhe expusemos todo o nosso raciocínio”, lembrou.
“Espero contar agora com a sua colaboração...”
“Com certeza”, assegurou Grossman enquanto recuava
algumas páginas no seu bloco de notas. “Tenho aqui a
informação que vocês me solicitaram no pedido que nos
remeteram por escrito. Não sei se vai ajudar, mas
espero que sim.”
Foi a vez de Valentina pegar na caneta e preparar-se
para registar os dados que ia receber.
“Então diga lá.”
“As suas três vítimas ficaram alojadas em hotéis
diferentes”, indicou. “A professora Escalona instalou-
se no King David, talvez o hotel mais famoso de
Jerusalém.”
“Típico dela”, observou Tomás com um sorriso. “A
Patrícia sempre apreciou o grande luxo.”
“O professor Schwarz ficou no Mount Zion Hotel, em
pleno Monte Sião”, acrescentou o polícia israelita,
imperturbável, “e o professor Vartolomeev foi para o
Ritz.” Virou de página e leu as anotações seguintes.
“Os três vieram cá fazer coisas diferentes e, tanto
quanto nos foi possível perceber, tiveram itinerários
separados.” Fechou o bloco de notas e esboçou um
sorriso conclusivo. “E é tudo.”
Os seus dois interlocutores ficaram a olhá-lo,
decepcionados.
“É só isso?”
“Receio bem que sim.”
“Mas... mas...”, titubeou Valentina, “não há nenhuma
possibilidade de que se tenham encontrado em algum
momento?”
Arnie Grossman respirou fundo.
“Oiça, ninguém pode garantir coisa nenhuma!”, disse.
“Jerusalém é uma cidade grande, mas não tão grande
quanto isso. Será que deram com o nariz uns nos outros
na Porta de Damasco, por exemplo? Sei lá! Se isto fosse
uma investigação prioritária, eu alocaria grandes
recursos e pode crer que, se eles se tivessem
encontrado, acabaríamos por sabê-lo. Mas, como deve
calcular, este problema é insignificante para a nossa
ordem de prioridades. Lidamos todos os dias com coisas
bem mais graves. Assim sendo, só pude destacar um homem
durante uma manhã para este assunto.”
“Mas então como fazemos agora?”
“Agora já temos em campo dois investigadores a tempo
inteiro. Com certeza que isso nos permitirá chegar a
algum lado.”
“Ai sim? É gente experiente do seu departamento?”
O anfitrião abriu o rosto num vasto sorriso e, pegando
no seu copo de whisky, recostou-se na cadeira e
descontraiu-se.
“Isso não sei”, riu-se, fazendo um gesto na direcção
dos seus interlocutores. “Os novos investigadores estão
à minha frente.”
Tomás e Valentina entreolharam-se.
“Está a falar de nós?”
O inspector-chefe Grossman engoliu o líquido dourado de
uma assentada e pousou pesadamente o copo sobre a
mesinha. A seguir cruzou a perna e pôs-se confortável,
uma expressão indisfarçável de gozo a bailar-lhe nos
olhos.
“Pensaram que vinham a Jerusalém de férias?”
XXXI
A circunspecta fachada de calcário cor-de-rosa abojar-
dado do Hotel King David era de impor respeito, mas
Tomás e Valentina estavam de tal modo preocupados com a
necessidade de encontrarem indícios que os pusessem na
pista certa que nem pararam para contemplar o edifício
histórico. Foi só quando cruzaram a porta rotativa de
entrada e calcorrearam o lóbi que verdadeiramente
sentiram o esplendor daquele lugar.
“Que hotel!”, exclamou Tomás enquanto apreciava o
átrio. Ao longo do corredor que unia as duas alas, o
chão era cortado por uma longa faixa branca com nomes e
assinaturas de hóspedes notáveis. Inclinou-se sobre a
faixa e leu um dos nomes. “Churchill esteve aqui
alojado!”
“Ele e mais uma catrefada de outras celebridades”,
acrescentou a italiana, estudando também as assinaturas
registadas no chão; viam-se os nomes garatujados de
Elizabeth Taylor, Marc Chagall, Henry Kissinger, Simone
de Beauvoir, do Dalai Lama, de Kirk Douglas, Yoko Ono e
uma infinidade de outros famosos. Depois lançou um
olhar apreciador à decoração. “Hmm... ma che bello!”
O átrio do hotel era de uma imponência babilónica, com
grandes colunas ricamente trabalhadas e vistosas
arcadas azuis a sustentarem o tecto, num espaço
ornamental cheio de elementos decorativos inspirados
nos vários estilos da região, incluindo arte fenícia,
egípcia, grega e assíria. Tratava-se sem dúvida de uma
entrada imponente.
Um empregado uniformizado aproximou-se dos recém-
-chegados.
“Em que vos posso ser útil?”
Como se estivesse preparada, Valentina exibiu de
imediato o seu crachá da Polizia Giudiziaria e um
documento que lhe fora passado pelas autoridades
israelitas.
“Sou da polícia italiana e procuro informações sobre
uma cliente vossa”, explicou. “Gostaria de falar com o
gerente do hotel, se faz favor.”
O empregado fez uma curta vénia e desapareceu tão
depressa quanto tinha surgido, mas voltou dois minutos