mais tarde na companhia de um homem baixo e
engravatado. O homem estendeu a mão aos visitantes e
exibiu um sorriso profissional.
“O meu nome é Aaron Rabin, sou gerente do King David.
Posso ajudar-vos?”
Valentina voltou a identificar-se. Depois de o gerente
inspeccionar o cartão da Polizia Giudiziaria e o
documento israelita e se prontificar a auxiliar no que
pudesse, a italiana extraiu da mala uma fotografia a
cores com o rosto de uma mulher sorridente.
“Esta
senhora
chamava-se
Patrícia
Escalona,
era
espanhola e foi assassinada há alguns dias”, disse.
“Temos a informação de que esteve há três meses alojada
neste hotel e gostaríamos de saber se algum dos seus
funcionários se lembra dela.”
O gerente pegou na fotografia e contemplou-a por alguns
instantes. Era evidente que aquele rosto não lhe
parecia familiar. Pediu licença e foi ao balcão da
recepção
conferenciar
com
os
empregados.
Os
recepcionistas viram a fotografia e chamaram o
concierge, que também estudou, a imagem. A certa altura
havia já um pequeno grupo reunido atrás da recepção.
Mais pessoas foram chamadas, incluindo dois bell-boys,
até que pareceu gerar-se um consenso, com várias
cabeças a acenarem afirmativamente.
O gerente regressou enfim para junto dos dois
forasteiros, acompanhado por um homem calvo que trazia
na mão a fotografia da professora Escalona.
“Apresento-vos Daniel Zonshine, da agência Jerusalem
Tours”,
anunciou
o
gerente,
indicando
o
seu
acompanhante. “Creio que ele vos poderá ajudar.”
Valentina
e
Tomás
cumprimentaram-no
e
Zonshine,
ultrapassadas as amabilidades formais, apontou para uma
loja na zona comercial do piso térreo do hotel.
“A minha agência tem uma sucursal aqui no King David.”
Exibiu a fotografia. “Acontece que esta senhora foi de
facto nossa cliente. Lembro-me dela porque falava muito
mal inglês e precisava de um guia que soubesse espanhol
e que, além de a levar aos locais onde precisava de ir,
lhe
pudesse
servir
de
intérprete
sempre
que
necessário.”
O rosto da italiana iluminou-se.
“Ah! E onde está esse guia?”
Zonshine consultou o relógio.
“O Mohammed deve entrar ao serviço daqui a pouco.”
Indicou uns sofás. “Porque não esperam aí? Quando ele
chegar, trago-o cá.”
Os dois visitantes instalaram-se na elegante esplanada
do restaurante do hotel, rodeada por um pequeno muro
coberto de flores e com vista para a piscina e o
jardim. Ao longe estendiam-se as muralhas da cidade
velha no sector da Porta de Jaffa. Apesar do calor,
pediram um chá de hortelã e ficaram a observar o
movimento na esplanada, onde jovens casalinhos de
judeus ortodoxos namoriscavam com infinito pudor, e a
comentar a decoração e o valor histórico do edifício.
Tomás contou que foi justamente ali no King David que,
após o colapso do Império Otomano, esteve instalada a
administração do Mandato Britânico. Por causa disso, o
movimento judaico Irgun fez explodir uma bomba naquele
hotel em 1946, precipitando a retirada britânica, que
conduziria à proclamação do estado de Israel, dois anos
mais tarde.
“Como pode ver”, observou Tomás, “o King David é um
hotel cheio de história, de tal modo que...”
A conversa foi interrompida por Daniel Zonshine, que
apareceu na esplanada na companhia de um rapaz magro e
de bigode preto, no corpo uma camisa a exibir o
logotipo da Jerusalem Tours.
“Este é o Mohammed”, apresentou-o. “Foi ele que
acompanhou a senhora em causa.”
“Salaam alekum!”
“Alekum salema”, devolveu Tomás, exibindo o seu árabe.
“Foi você o guia da professora Escalona?”
“Sim, senhor.”
“Lembra-se dos sítios que ela visitou enquanto cá
esteve?”
“A senorita fez um pouco de turismo na cidade velha e
deslocou-se
a
algumas
instituições
ligadas
à
investigação histórica, creio eu”, revelou. “Mas passou
a maior parte do tempo numa conferência na Universidade
Hebraica de Jerusalém. Do que me recordo, tratava-se de
umas palestras sobre as descobertas de Qumran.”
“Os manuscritos do Mar Morto?”
“Isso.”
“Ela andou sozinha?”
“Inicialmente, sim. Depois arranjou uns amigos e
dispensou-me.”
Tomás e Valentina trocaram um olhar.
“Uns amigos?”
“Sim. Uns ocidentais que a senorita conheceu na
Fundação Arkan. Ainda os acompanhei no dia seguinte a
uma visita à Autoridade de Antiguidades de Israel, mas
ela acabou por prescindir dos meus serviços e já não
voltei a vê-la.”
“Lembra-se do nome dos amigos da professora Escalona?”
O palestiniano abanou a cabeça.
“Não. Isto foi há três meses, não é? Além do mais,
tinham nomes esquisitos. Acho que nem na altura os
decorei...”
A inspectora da Polizia Giudiziaria retirou umas
fotografias da mala e mostrou-as ao guia. Eram imagens
com os rostos dos professores Alexander Schwarz e Petar
Vartolomeev.
“Eram estes?”
Ao ver as fotografias, Mohammed estreitou os olhos e
comparou-as com os arquivos da sua memória.
“Como disse, isto já foi há uns três meses e não estive
muito tempo com eles”, indicou, hesitante. “No meio de
tantos clientes, não é fácil lembrarmo-nos de todas as
pessoas que vemos.” Concentrou-se de novo nas imagens e
acabou por acenar afirmativamente. “Mas, sim. Acho que
são eles.”
“De certeza?”
O guia lançou um derradeiro olhar sobre as imagens,
para se certificar de que não se enganava.
“Tenho quase a certeza. Quanto mais vejo esses rostos,
mais eles me parecem familiares.”
“Onde disse que a professora Escalona os encontrou?”
“Na Fundação Arkan.”
“O que é isso?”
Mohammed hesitou e o seu superior hierárquico, que até
ali acompanhara o diálogo em silêncio, respondeu por
ele.
“É uma instituição muito prestigiada aqui em Israel”,
indicou Daniel Zonshine. “Desenvolve actividades em
várias áreas e tem a sede no Bairro Judeu da cidade
velha.” Valentina e Tomás trocaram uma nova miradela,
desta feita com uma expressão triunfante a cintilar-
lhes nos olhos. Tinham acabado de dar com a pista que
procuravam.
A Fundação Arkan.
XXXII
O ambiente no Bairro Judeu da cidade velha era de