absoluta tranquilidade. As ruas estavam quase desertas,
à excepção de uma ou outra pessoa que passava a caminho
do Muro das Lamentações ou se dirigia para a Praça Hur-
va. O chilrear dos pássaros parecia ecoar pelos becos
como melodia serena e as palavras das raras pessoas que
por ali circulavam reduziam-se a murmúrios.
Neste contexto, o ruído seco dos passos de Tomás e
Valentina a reverberar no chão empedrado ganhou
amplitude, mas os dois visitantes não se incomodaram.
Consultando o mapa do bairro, o historiador verificou a
posição das sinagogas sefarditas e indicou uma ruela
lateral.
“É por ali.”
Caminharam ambos na direcção apontada, mas Valentina
parecia mover-se com o piloto automático ligado,
limitando-se a seguir o vulto do companheiro. Tinha os
olhos mergulhados nos documentos que lhe haviam sido
enviados essa manhã de Roma e sabia que precisava de
acabar de os ler antes de chegar ao destino.
“Esta fundação é curiosa”, observou ela num tom
ambíguo; talvez estivesse apenas a falar consigo mesma,
mas nem isso era certo. “Muito curiosa, mesmo...”
“Em que sentido?”
A italiana levou alguns segundos a responder. Leu mais
um pouco e só quando terminou é que baixou os papéis e
encarou Tomás.
“Para já, tem interesses muito variados, com apostas em
áreas diversificadas do conhecimento”, disse. “A
fundação investe muito na pesquisa histórica, da
arqueologia à paleografia. Naturalmente que a sua área
de especialização incide no Médio Oriente, e em
particular em toda a região da Terra Santa. Ao que
parece, o seu espólio inclui uma colecção de artefactos
dos
tempos
bíblicos.
Mas
também
desenvolveu
investigação em vários domínios científicos, tendo
criado laboratórios especializados em coisas tão
diferentes como a física das partículas e a pesquisa
médica, por exemplo.” Assobiou, apreciativa. “Dio mio,
isto é um mundo!”
“Mas qual a filosofia que a orienta? A investigação
pura?” Valentina exibiu o topo de uma página dos
documentos que estivera a ler. Tratava-se de um
logotipo com uma frase escrita em grossos caracteres
góticos.
“‘Über allen Gipfeln”’ leu em voz alta, “‘ist Ruh, in
allen Wipfeln spürest du kaum einen Hauch; Die Vögelein
schweigen im Walde. Warte nur, balde. Ruhest du
auch.’’''’ Tomás ficou um longo instante especado a
olhá-la a 1er. “O que raio quer isso dizer?”
“‘Por todos estes montes reina a paz’”, recitou ela,
“‘em todas estas frondes a custo sentirás sequer a
brisa leve; em todo o bosque não ouves nem uma ave. Ora
espera, suave. Paz vais ter em breve.’”
O historiador fez uma careta incrédula.
“Você fala alemão?”
A italiana riu-se e exibiu o documento remetido de
Roma. “Este poema tem a tradução em italiano”, disse.
“Está a ver? É aqui em baixo.”
Foi a vez de Tomás sorrir.
“Ah, bom!” Esboçou uma expressão apreciativa. “São uns
versos bonitos, sim senhor. Quem os escreveu?”
“Ora, quem haveria de ser?”, retorquiu ela. “O maior de
todos os escritores alemães. Goethe.”
“Além de bonito, é um texto pacifista. Se o motto da
Fundação Arkan é mesmo esse, penso que estamos perante
uma instituição bem-intencionada.”
Valentina fez uma careta e ergueu o dedo, como se
quisesse interpor alguma cautela.
“Se!”, sublinhou. “Sabe, desconfio sempre daqueles que
passam a vida a pregar a paz. Por vezes são os piores.
Por detrás de uma conversa inócua ocultam desígnios bem
sinistros...”
O académico português estacou diante de um edifício
anónimo a meio da rua e verificou o número da porta.
Depois viu uma pequena placa dourada pregada por cima
da campainha com o nome Arkan Foundation esculpido no
metal.
“Então já vamos tirar a prova”, anunciou ele.
“Chegámos!” Carregou no botão e um crrrrrr eléctrico da
campainha soou no interior do edifício. Aguardaram uns
instantes até escutarem o som de passos a aproximarem-
se e a porta se abrir. Do outro lado viram uma rapariga
de cabelo negro e olhos curiosos.
“Shalom!”
“Good afternoon”, cumprimentou-a Tomás, sinalizando
assim que não iria falar hebraico. “Temos um encontro
marcado com o senhor Arkan, o presidente da fundação.
Ele está?”
Depois de se certificar da identidade dos dois
visitantes, a rapariga levou-os para uma sala e
ofereceu-lhes dois copos de água. Soltou a seguir um
cortês “aguardem um minuto, por favor”, e deixou-os a
sós. Pouco depois reapareceu, pediu-lhes que a
seguissem e conduziu-os até ao primeiro andar. Bateu à
porta com suavidade, ouviu-se uma voz de homem dar uma
ordem em hebraico do outro lado e ela indicou aos seus
acompanhantes que entrassem.
“Sejam bem-vindos”, cumprimentou-os o homem grande e de
sobrancelhas carregadas, à Brejnev, que os veio acolher
à porta. “Sou Arpad Arkan, o presidente da fundação. A
que devo o prazer da visita da polícia da bella
Italia?”
“Lamento incomodá-lo”, disse Valentina. “Estamos a
investigar a morte recente de três académicos europeus
em circunstâncias que nos parecem bizarras.”
A declaração da inspectora da Polizia Giudiziaria
toldou o olhar vivo do anfitrião.
“Ah, já soube!”, exclamou Arkan, de repente a falar
devagar como se medisse as palavras. “É terrível!
Fiquei chocadíssimo quando me deram a notícia!”
“As investigações aos três casos trouxeram-nos aqui a
Israel. Acabámos por perceber que as três vítimas se
cruzaram neste país.” Fez uma pausa, para estudar a
reacção do seu interlocutor. “Soubemos agora que o
local exacto onde se encontraram foi este mesmo.”
Apontou para o chão. “A Fundação Arkan.”
Calou-se, à espera do que Arkan tinha para dizer a
propósito desta revelação. Percebendo que as suas
reacções estavam a ser escalpelizadas, o presidente da
fundação respirou fundo e, quase com embaraço, desviou
o olhar para a janela.
“Não me tinha apercebido disso”, afirmou. “Mas é um
facto que os conhecia. Convidei-os a virem aqui ã
fundação.” Dedilhou a agenda que tinha aberta sobre a
secretária. “Fez anteontem três meses, veja lá. Mal
sabíamos nós a tragédia que se iria abater sobre
eles!...”
A inspectora italiana ponderava todas as palavras que