escutava, em busca de contradições, lacunas ou sentidos
ocultos, como um jogador de xadrez a avaliar cada
movimento do adversário.
“Pode saber-se o que vieram eles cá fazer?”
Arpad Arkan esboçou um gesto em direcção aos papiros e
aos pergaminhos emoldurados que estavam pendurados nas
paredes
do
gabinete.
Pareciam
antigos,
com
os
caracteres gregos e hebraicos em scriptio continua, e
apresentavam as bordas rasgadas e buracos no meio.
“A fundação possui um valioso espólio de manuscritos”,
explicou. “São alguns extractos da Bíblia ou então
outros
documentos
antigos
escritos
em
hebraico,
aramaico ou grego. Encomendei à professora Escalona uma
peritagem.” Apontou para o que parecia um vaso tosco
pousado no chão, mesmo ao lado da secretária. “E temos
também alguns ossários protocristãos. O professor
Schwarz foi-me aconselhado como perito nessa área.”
“E o professor Vartolomeev? Ele não era historiador...”
“Ah, o cientista da Bulgária? A fundação criou um
centro de pesquisa avançada na área molecular e
disseram-me que ele era uma autoridade a nível mundial.
Parece que todos os anos o seu nome é soprado para
ganhar o Prémio Nobel da Medicina. Convidei-o a
colaborar connosco e ele aceitou.” Abanou a cabeça,
combalido.
“O
seu
desaparecimento,
receio
bem,
constitui uma grande perda para a Fundação Arkan.
Depositávamos grandes esperanças no trabalho dele.”
“Estiveram os três juntos aqui na fundação?”
“Sim, estiveram juntos. Embora pertencessem a áreas
diferentes, falei com eles ao mesmo tempo.”
“Foi assim que se conheceram?”
“É provável”, admitiu. “De facto, não me deu a
impressão de que se conhecessem antes.”
Valentina fez um ar pensativo, como se considerasse a
maneira de formular a pergunta seguinte.
“Como explica o senhor que três pessoas que se
conheceram aqui no seu gabinete tenham sido executadas
três meses depois no espaço de menos de vinte e quatro
horas?”
O anfitrião pareceu atrapalhado com a pergunta.
“Pois... enfim, não sei como explicar”, titubeou. “É
realmente... quer dizer, é uma coincidência.” A palavra
surgiu-lhe como uma bóia de salvação, à qual se agarrou
de imediato. “Foi isso e apenas isso. Uma infeliz
coincidência.”
A italiana trocou um breve olhar com Tomás e voltou a
encarar o seu interlocutor, os olhos de um azul
glacial. “Para a polícia não há coincidências, senhor
Arkan.”
O presidente da fundação empertigou-se.
“O que está a insinuar?”
“Não estou a insinuar nada”, devolveu ela sem se deixar
intimidar. “Estou a dizer-lhe que, em ciência criminal,
as coincidências são para ser encaradas com grande
desconfiança. O facto é que três académicos que se
conheceram aqui no seu gabinete acabaram mortos três
meses depois em circunstâncias no mínimo bizarras. Não
sei se possa chamar coincidência a isso.”
Arpad Arkan ergueu o seu corpo volumoso e, com grande
veemência, apontou para a porta.
“Rua!”, vociferou. “Ponham-se na rua!”
Valentina e Tomás imobilizaram-se na cadeira,
estupefactos com aquela reacção. A insinuação que a
italiana havia feito era desagradável, sabiam, mas a
reacção
do
anfitrião
parecia-lhes
largamente
desproporcionada.
“Está a cometer um grave erro.”
“Quero lá saber!”, rugiu o homem das sobrancelhas
peludas, insistindo em apontar para a porta do
gabinete. “Quero-vos fora da minha fundação o mais
depressa possível! Rua!”
O tom intempestivo do anfitrião irritou Valentina, que
se ergueu e colou o nariz ao nariz de Arkan.
“Madonna! Mas com quem pensa que está a falar?”
“Saiam imediatamente ou chamo a polícia! Saiam daqui!”
“Cretino! Stupido! Stronzo!”
“Fora! Fora daqui!”
Os dois gritavam cara a cara um com o outro, os rostos
ruborizados e os perdigotos a voarem em todas as
direcções. Percebendo que estava a lidar com duas
cabeças quentes e que a situação ameaçava ficar fora de
controlo, Tomás agarrou na inspectora da Polizia
Giudiziaria e arrastou-a para fora do gabinete.
“Vamos embora”, disse num tom calmo. “Não vale a pena.”
“Rua!”, gritava Arkan, fora de si. “Quero-vos no olho
da rua! Quem pensam vocês que são para me virem
insultar na minha própria casa? Hã? Saiam daqui!”
“Imbecile! Scemo!”
As portas fecharam-se com fragor e, tão depressa como
tinha sido interrompida, a tranquilidade voltou ao
interior do edifício da fundação. Ainda a arfar, Arkan
desapertou a gravata, desabotoou o botão superior da
camisa e libertou o colarinho. Depois caiu pesadamente
na sua poltrona e respirou fundo, readquirindo o
controlo das emoções.
Os seus olhos desviaram-se para o telefone pousado ao
canto da secretária. Hesitou um instante, como se
combatesse a pulsão que tentava dominar-lhe a vontade.
Com um suspiro de rendição, resignou-se ao inevitável e
pegou enfim no aparelho.
“Está lá? És tu?”
XXXIII
“Sim, mestre. Sou eu. O que se passa?”
Sentado nos restos da velha muralha, os pés a dançarem
sobre o precipício e os restos do Palácio de Herodes,
assentes em três degraus escavados na face escarpada do
norte do promontório, Sicarius contemplou a extensão
árida do deserto da Judeia, cortada pela mancha azul do
Mar Morto como se o grande lago salgado fosse um oásis.
Sentiu o vento seco e quente soprar pela encosta do
maciço rochoso a afagar-lhe a face enquanto lhe sacudia
a túnica aos repelões.
“Hoje estou um pouco enervado”, confessou a voz do
outro lado da linha. Respirou fundo. “Lembras-te da
nossa última conversa?”
“Quando eu estava a rezar no HaKotel HaMa’aravi?”
“Sim”, confirmou o mestre.
“Disse-te que estivesses preparado.” Fez uma curta
pausa. “Estás Sempre.”
Nova pausa ao telefone.
“É hora”
O vento levantou uma súbita nuvem de poeira e Sica-
rius ajeitou o tallit que lhe cobria a cabeça,
posicionando-o de modo a proteger melhor os olhos. Lá
em baixo o vale estendia-se numa desconcertante
sinfonia de cores e tonalidades ao longo das margens
sinuosas do Mar Morto, passando do castanho da terra ao
ouro da areia, depois à orla branca do sal, ao verde
opalino da água que logo se torna azul-turquesa e a
seguir anil profundo, até desmaiar na outra margem,