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para além da neblina, entre o cinzento-amarelado das

montanhas e dos desfiladeiros da Jordânia.

“Quem é o alvo?”

“São

dois

investigadores

enviados

pela

polícia

italiana. Chegaram agora a Jerusalém e meteram-se no

nosso caminho.” Fez um estalido com a língua. “Este é o

momento de actuar.”

“Onde estão eles alojados?”

“No American Colony."

“Hmm... o hotel dos espiões. Parece-me apropriado.”

“Muito. Estamos a falar de um casal."

“Trato dos dois?”

”Deixa a mulher em paz. É inspectora da polícia

italiana, não queremos meter-nos com essa gente. A

pessoa de quem vais tratar é o tipo que a acompanha. É

do género calado."

“São os mais perigosos...”

“Este é historiador e parece ter capacidade para

interpretar os enigmas que fomos espalhando. Chama-se

Tomás Noronha e é português. Vou enviar para o teu e-

mail um retrato que lhe tirámos esta tarde com toda a

discrição. Dar-te-ei também instruções pormenorizadas

sobre o que deverás fazer, incluindo a mensagem que

vais deixar."

“Esse historiador é o meu alvo prioritário?”

A voz do mestre tornou-se cavada, a exemplo do que

acontecia sempre que dava ordens importantes.

“Sim.”

Fez-se silêncio na linha, como se depois daquela

confirmação já não houvesse mais nada a dizer entre

eles.

“Mais alguma coisa?”

“É tudo. Já sabes o que tens a fazer.” O mestre mudou o

tom de voz, que se tornou inquisitivo. “Quando planeias

actuar?”

Os lábios finos de Sicarius contorceram-se e formaram o

que parecia o vestígio de um sorriso.

“Hoje.”

Sicarius desligou o telemóvel e lançou um derradeiro

olhar para a direita, contemplando o deserto da Judeia,

com a mancha azulada do Mar Morto no meio, e depois

para a esquerda, onde se alinhava a cadeia de

montanhas, desfiladeiros e penhascos que bordejavam o

vale. O Sol deitava-se no horizonte, flamejante em

tonalidades laranja e roxas, tão baixo que acentuava as

sombras recortadas pelas marcas do que restava dos

vários

campos

romanos

que

um

dia

cercaram

o

promontório, as estruturas desenhadas na terra como

vestígios de labirintos rectangulares. Era uma vista de

atordoar, cenário de uma beleza majestosa, a prova de

que Deus abençoara aquela terra agreste. O silêncio era

retemperador; apenas se escutava o sopro do vento que

batia de norte e o tisitar melancólico dos estorninhos

que adejavam sobre a estrutura montanhosa.

Com agilidade inesperada, Sicarius pôs-se em pé de um

salto e virou as costas àquele panorama grandioso.

Começou a caminhar em direcção à porta do Caminho da

Serpente. O sol poente ainda escaldava e a brisa

beijava-lhe o rosto ardente, afagando o cabelo e

temperando a pele, mas logo o sopro parou e o ar

incendiou-se. Sicarius sabia que o vento só soprava na

encosta norte; o resto do promontório permanecia

estático. As gotas de suor começaram a deslizar-lhe

pela face, a túnica depressa ficou encharcada por baixo

dos braços, sentiu a pele em brasa e o chão tornou-se

tão luminoso que quase o encandeava.

Passou pelos restos dos alojamentos dos zelotas e

atirou uma miradela orgulhosa aos vestígios ainda

intactos da sinagoga; fora decerto naquele mesmo lugar

que Eleazar Ben Yair juntara os sicarii para o acto

final da tragédia que ali ocorrera dois mil anos antes.

As ruínas no topo do maciço rochoso eram os vestígios

mais sublimes que os seus antepassados lhe haviam

legado. Cabia-lhe agora mostrar-se à altura deles.

Foi ali, em Masada, que os sicarii esboçaram o

derradeiro e mais heróico acto de resistência contra os

invasores romanos. Quando os legionários da Décima

Legião conseguiram por fim romper as linhas de defesa,

os dois mil sicarii preferiram morrer a entregar-se ao

inimigo. Queimaram Masada e escolheram dez homens que

mataram todos os resistentes e se suicidaram de

seguida. Apenas duas mulheres escaparam para contar a

história.

Caminhando entre as ruínas, Sicarius sentiu-se voar no

tempo. Ouvia nas pedras os urros da discussão, a voz de

Eleazar a proclamar “escolhamos a morte e não a

escravidão”, os gemidos diante da angústia da decisão,

as vozes resignadas dos sicarii a aprovarem a escolha

fatídica do chefe, e depois os gritos da chacina, os

homens a matarem os filhos, a seguir as mulheres, por

fim uns aos outros até o silêncio se abater sobre o

promontório e apenas se escutarem os estorninhos que

esvoaçavam na fortaleza caída, tetemunhas mudas do

drama que os Romanos encontraram, atónitos, quando na

manhã seguinte franquearam a muralha e deambularam

entre os cadáveres que se estendiam pelo chão ensopado

de sangue.

Pousou a mão na adaga sagrada que trazia à cintura e

sentiu-lhe a superfície polida. A sica, descoberta nas

escavações de Masada, havia sido utilizada nessa grande

matança final. Tudo aquilo sucedera há dois mil anos,

quando os pagãos destruíram o Templo e expulsaram o

povo da Terra Prometida. Dois mil anos.

Chegara a hora da vingança.

XXXIV

A gargalhada ecoou pelo átrio do American Colony e foi

tão sonora que atraiu os olhares dos recepcionistas e

dos clientes do hotel que por ali deambulavam.

“Dá-lhe vontade de rir?”, questionou Valentina com uma

ponta de ressentimento na voz. “Pois eu não acho graça

nenhuma!”

O inspector-chefe da polícia israelita parecia bem-

-humorado. Arnie Grossman abriu os braços, quase como

se estivesse a espreguiçar-se, e passou as suas grandes

manápulas pelo cabelo grisalho e ondulado, penteando-o

para trás.

“É boa, essa!”

“Não teve piada”, insistiu a italiana, sem nenhuma

vontade de se rir. “Foi muito desagradável!”

“Peço desculpa, mas mandar a polícia pôr-se na rua

requer uma certa chutzpah!”, observou Grossman, ainda

com o semblante divertido. “O nosso Arpad Arkan até

pode ser um malandro da quinta casa, mas não há dúvida

nenhuma de que é um figuraço! Só de imaginar essa cena

quase apanho um ataque de cólicas!...”

O polícia israelita contorcia-se de riso, para

exasperação de Valentina. A italiana fervia de

irritação no sofá, mas Tomás, que acabara de se sentar

depois de ter ido pedir aos recepcionistas a chave do

quarto, mostrava-se indiferente e até percebia a

reacção de Grossman. Visto de uma certa perspectiva, o