que lhes sucedera nessa tarde tinha de facto a sua
graça. Podia ser que com o tempo a bela inspectora
também o percebesse.
“Isso não interessa nada”, cortou Valentina, desejosa
de avançar na conversa para outros pontos que
considerava mais relevantes. “A nossa investigação
conduziu-nos a este ponto, a partir do qual não tenho
qualquer autoridade para intervir. Precisava de saber o
que pode agora fazer a polícia de Israel.”
Já recomposto, Arnie Grossman abriu as palmas das duas
mãos, como se a quisesse travar.
“Woah! Tenha calma!”, exclamou. “Vamos mais devagar.”
Inclinou-se para a frente e desfez o sorriso, como se
enfim se tivesse decidido a encarar o assunto a sério.
“Vamos por partes. Que conclusão tirou da conversa que
teve na fundação?”
“Que tudo aquilo é muito suspeito”, disse ela. “O homem
está evidentemente a esconder-nos alguma coisa.”
“Porque diz isso?”
“Primeiro, por causa da explosão intempestiva quando o
questionei sobre a coincidência de os três académicos
terem sido assassinados três meses depois de se terem
encontrado na fundação. A reacção desproporcionada do
Arkan mostra que ele está nervoso com isto. Ora quem
não deve não teme. Depois, porque a explicação dele não
bate certo. Repare nos factos: as três vítimas não se
conheciam umas às outras, o Arkan convidou-as para uma
conversa em que contratou os dois historiadores para
uma peritagem e o cientista para um instituto qualquer
e, quase por artes mágicas, as três pessoas até aí
desconhecidas tornaram-se inseparáveis. Segundo o guia,
as nossas vítimas juntaram-se no dia seguinte e foram
visitar a Autoridade das Antiguidades de Israel. Depois
a professora Escalona sentiu-se tão à vontade com os
seus novos amiguinhos que até dispensou o guia.” Fez
uma careta de perplexidade. “Os três tornaram-se
inseparáveis a propósito de quê? Por causa de um
encontro sem importância na Fundação Arkan? Como é que
uma mera conversa académica tem esse efeito?”
“Realmente...”
“E por que razão, sendo os três cientistas de
especialidades e áreas de investigação tão diferentes,
foi o Arkan falar com eles ao mesmo tempo? Não seria
mais lógico que tivesse uma reunião com um, depois com
outro e finalmente com o terceiro? Porquê os três ao
mesmo tempo?”
“A Valentina tem razão”, observou Tomás, que até ali
permanecera calado. “Nada disso faz sentido.”
Mas a italiana ainda não acabara de dizer o que lhe ia
na mente.
“Se eles se reuniram todos em simultâneo é porque o
presidente da fundação lhes queria falar sobre um
assunto de interesse comum. E que assunto seria esse?
Por que motivo o Arkan nos está a ocultar as coisas?
Que questões inconfessáveis nos anda ele a esconder?
Qual a relação dessa misteriosa conversa com as mortes
a que temos assistido? Como diabo...”
O inspector-chefe da polícia israelita fez um movimento
afirmativo com a cabeça.
“Seja”, atalhou, interrompendo o raciocínio da sua
homóloga. “Essa história parece realmente mal contada,
é evidente. Não me admiraria nada que o Arkan estivesse
metido num esquema qualquer de contornos duvidosos. Mas
temos de proceder com cautela.”
A italiana quase explodiu ao ouvir estas últimas
palavras.
“Como, proceder com cautela?” Apontou para a porta como
se o presidente da fundação ali estivesse. “Aquele
scemo
anda
a
esconder-nos
coisas!
Ele
tem
responsabilidades nestas mortes! E o que fazemos nós?”
Fez uma expressão caricatural, como se imitasse o seu
interlocutor. “Procedemos com cautela!...”
“Tenha calma”, pediu Grossman. “O Arpad Arkan é um
homem poderoso. Dispõe de muitos contactos nos meios
políticos e mexe com interesses que nos ultrapassam.”
Esfregou o indicador no polegar. “Há muito dinheiro
envolvido, e não apenas por cá. O tipo movimenta-se com
muita facilidade em certos círculos da finança
internacional. Além disso, a fundação apresenta-se como
uma instituição muito humilde, com toda uma conversa
sobre a paz que resulta bem junto da imprensa e da
política internacional. O motto da fundação é, aliás,
revelador, cheio de...”
“Está a referir-se ao poema de Goethe?”
O israelita arregalou os olhos, surpreendido.
“Ah! Já conhecem?”
“Fizemos o trabalho de casa...”
“Pois, esse poema que eles escolheram para motto é
muito pacifista e tem-se revelado incrivelmente útil à
fundação. A conversa da paz proporciona uma fachada
perfeita para as suas actividades mais nebulosas. E por
isso necessário proceder com o máximo cuidado.”
Valentina impacientou-se.
“Inspector Grossman, tudo isso pode ser verdade, mas
nós somos polícias, não somos? Então temos de actuar
como polícias. Em Itália a máfia também é um assunto
sensível, que mexe com a alta finança e a alta
política, e não é por isso que deixamos de a
enfrentar.”
“Está bem, mas mesmo assim...”, murmurou o israelita,
deixando a frase morrer. “Investigar a Fundação Arkan
pode ser um bico-de-obra. Há já algum tempo, aliás, que
a tenho debaixo de olho e sei bem do que estou a
falar.”
“Tem-na debaixo de olho?”, estranhou a italiana.
“Porquê?”
O inspector-chefe da polícia israelita calou-se por um
instante, como se ponderasse o que podia ou não
revelar.
“Digamos que tenho motivos para desconfiar das suas
actividades”,
indicou.
“Nunca
agarrámos
nada
de
concreto, mas por vezes correm uns boatos que me deixam
inquieto.”
“Boatos? Que boatos?”
Nova pausa hesitante de Arnie Grossman.
“Boatos”, repetiu. “Fiquemo-nos por aqui.”
Os três entreolharam-se, como jogadores de póquer a
esconder os respectivos jogos e a tentar adivinhar a
mão dos adversários. Valentina era a mais impaciente e
nervosa dos três, pelo que não constituiu surpresa que
tenha sido ela quem quebrou o silêncio desconfortável
que por alguns instantes se instalara entre eles.
“Então o que sugere que façamos?”
O polícia israelita desenhou no ar um gesto vago com a
mão.
“Não façam nada”, recomendou. “Vou dormir sobre o
assunto e amanhã digo-lhe alguma coisa, está bem?”
“Parece-me justo.”
Grossman voltou-se para Tomás.
“No entretanto, professor Noronha, talvez o senhor me