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possa ajudar a ligar aqui algumas pontas soltas deste

caso.”

O pedido surpreendeu o historiador.

“O que deseja saber?”

O inspector-chefe tiquetaqueou com os dedos sobre o

braço do sofá, como se considerasse a forma adequada de

apresentar o problema. Fez um sinal com o polegar a

indicar o caminho para o bar.

“Lembra-se de, na nossa primeira conversa, me ter dito

que suspeitava que os sicarii estivessem envolvidos

nesta história?”

“Claro. As execuções rituais das nossas três vítimas

apresentam características semelhantes às perpetradas

pelos sicarii há dois mil anos. Em especial aquele

pormenor do grito de lamento logo que matavam o seu

alvo. Porquê?”

Arnie Grossman fez um esgar, passou os dedos pelo

queixo e desviou os olhos para o lado, numa expressão

ainda pensativa.

“Os relatórios que vocês me enviaram quando pediram a

nossa ajuda deixaram-me intrigado”, disse. “Estive a

ler aquela parte dos três enigmas largados pelo

assassino junto das três vítimas e a sua interpretação.

Se entendi bem, o senhor acha que essas charadas

apontam para fraudes no Novo Testamento.”

“É verdade”, aquiesceu o historiador. “Mas onde quer

chegar?”

“A questão é esta: que interesse poderiam ter os

sicarii, uma organização judaica, por fraudes na Bíblia

dos cristãos?”

“Quer mesmo saber?”

“Sou todo ouvidos.”

Tomás inclinou-se para a frente, como se fosse soprar

um grande segredo.

“O problema é que Jesus já tinha religião.”

“Perdão?”

O português voltou a recostar-se, cruzou a perna e

sorriu, os olhos divertidos a dançarem entre os rostos

expectantes de Arnie Grossman e Valentina Ferro.

“Era judeu.”

XXXV

O American Colony tinha fama de ser o hotel dos

espiões. Acomodado no sofá e envolvido pelo ambiente

intimista que o cercava, Tomás percebia porquê; o local

era perfeito para conversas discretas. Não que ele

tivesse algo a esconder, mas a investigação em que

estava envolvido requeria de facto uma certa dose de

discrição, considerando a natureza dos crimes que

haviam sido cometidos.

O problema, claro, é que ele acabara de fazer uma

afirmação explosiva para os ouvidos teologicamente

sensíveis de Valentina, e intuía que a italiana seria

tudo menos discreta na reacção às suas palavras. Nem

foi preciso esperar um segundo para perceber que essa

intuição estava certa.

“O que quer você dizer com isso de que Jesus era

judeu?”, admirou-se Valentina, quase ofendida. “Dio

mio, não foi ele o fundador do cristianismo?”

Tomás abanou a cabeça.

“Lamento ter de o dizer”, murmurou. “Mas não, Jesus não

fundou o cristianismo.”

“Madonna, protestou ela, o corpo agitado num frémito de

justa indignação. “Mas que disparate! Claro que fundou!

A palavra cristianismo vem de Cristo! Jesus Cristo! São

as palavras e os ensinamentos de Cristo que servem de

fundamento à religião! Como se atreve a dizer uma coisa

dessas? Como pode afirmar que Cristo não fundou o

cristianismo? Que absurdo vem a ser esse?”

“Jesus era judeu”, repetiu o académico português. “Sem

interiorizar

essa

verdade

fundamental,

nada

perceberemos sobre ele. Jesus era judeu. Os pais eram

judeus e tiveram um filho judeu a quem circuncidaram e

com quem viviam em Nazaré, uma povoação judaica situada

na Galileia dos judeus. Jesus falava aramaico, uma

língua relacionada com o hebraico e que era falada

pelos judeus naquela época. Teve uma educação judaica,

rezava a um deus judaico, acreditava em Moisés e nos

profetas judaicos, respeitava as leis judaicas e era de

tal modo versado nas Escrituras judaicas e na lei de

Moisés que até as ensinava e discutia. As pessoas

chamavam-lhe rabino. A expressão é, por exemplo, usada

por Marcos em 14:45: ‘Rabbi.’ A palavra rabino

significava, há dois mil anos, professor. Diz Marcos em

1:21: ‘Chegado o sábado, Jesus entrou na sinagoga e

começou a ensinar.’ Ou seja, Jesus frequentava a

sinagoga aos sábados, prática naturalmente judaica, e

usava uma técnica típica dos rabinos para ensinar as

Escrituras: as parábolas. Além disso, tinha costumes

judaicos e até se vestia como um judeu.”

“Como sabe isso? Acaso alguma vez viu fotografias

dele?” “Basta ler os Evangelhos. Mateus refere em 9:20

que uma mulher ‘tocou-Lhe na orla do manto’, e Marcos,

em 6:56, diz que os enfermos ‘rogavam-Lhe que os

deixasse tocar pelo menos a franja da Sua capa’. Orla

do manto? Franja da capa? Do que estavam eles a falar?

Obviamente era do tallit, o manto de oração usado pelos

judeus com as suas franjas, ou tzitzit, atadas conforme

as ordens constantes em Números, um dos livros do

Antigo Testamento. Isto é, Jesus vestia-se como um

judeu.”

“Você está a falar-me de costumes”, argumentou

Valentina. “Admito que eles fossem totalmente judaicos.

No fim de contas, ele vivia entre judeus, é verdade.

Mas o que distinguiu Jesus dos judeus foram os seus

ensinamentos!...”.

Tomás indicou a Bíblia que tinha nas mãos.

“Ao contrário do que pensa, os costumes judaicos

constituem uma parte central dos ensinamentos de

Jesus”, respondeu. “Os Evangelhos põem-no com

frequência a discutir ao pormenor questões relacionadas

com costumes. As roupas são apenas um exemplo. Em

Mateus 23:5, Jesus critica os fariseus porque ‘alargam

as filactérias e alongam as bordas dos seus mantos’,

dando a entender que as suas próprias filactérias, ou

tefilin, eram estreitas e as suas bordas do manto, ou

tzitzit, curtas.”

“Ah! Então Jesus estava em desacordo com os judeus!...”

“Valentina, isto é uma discussão normal entre judeus!

Os judeus discutiam, e discutem ainda, com grande

paixão este tipo de coisas! Uns acham que os tzitzit

devem ser longos, outros acham que devem ser curtos.

Uns entendem que as tiras de pergaminho onde se

escrevem extractos das Escrituras, ou filactérias,

devem ser largas, por uma questão de devoção, e outros

defendem que essas tiras devem ser estreitas, por uma

questão de modéstia. Não passava pela cabeça de um

romano ou de qualquer outra pessoa que não fosse judia

questionar os tzitzit ou as filactérias de um judeu ou

qualquer outra dessas minudências bizantinas. Isso é

algo que só um judeu fazia. Percebe? O facto de Jesus

debater este tipo de questão serve justamente de prova