de que ele era judeu da ponta das unhas à ponta dos
cabelos!”
A italiana ergueu o dedo, como se tivesse acabado de
lhe ocorrer uma ideia.
“Espere aí! Havia costumes judaicos que ele não
respeitava! A comida, por exemplo. Tenho ideia de que
Jesus negou as Escrituras quando declarou que não havia
comidas impuras...”
Tomás procurou na sua Bíblia.
“Isso está em Marcos”, disse, localizando o extracto.
“Diz Jesus, citado em 7:18: ‘«Não percebeis que tudo
quanto de fora entra no homem não pode torná-lo impuro,
porque não penetra no seu coração mas no ventre, e
depois é expelido em lugar próprio?» Assim, declarava
puros todos os alimentos.’”
“É isso mesmo. Jesus está ou não a contrariar as
Escrituras?”
“Talvez,
mas
não
necessariamente”,
retorquiu
o
historiador. “É importante salientar que há boas razões
para duvidar que Jesus tenha realmente declarado a
pureza de toda a comida, assim invalidando o Antigo
Testamento.”
“Ora essa! Porque diz isso?”
“Porque a declaração de pureza não está numa citação de
Jesus, mas num comentário de Marcos. Além disso, esse
comentário sofre contradição noutros textos do Novo
Testamento.” Localizou um extracto. “Mateus, por
exemplo, cita Jesus em 15:17 como tendo perguntado:
‘Não compreendeis que tudo aquilo que entra pela boca
passa para o ventre e é expelido em lugar próprio, ao
passo que tudo quanto sai da boca provém do coração, e
é isso que torna o homem impuro?’ Como pode ver, Mateus
não conclui que Jesus declarou toda a comida pura.”
Avançou umas páginas. “O mais importante é o que Lucas
diz nos Actos dos Apóstolos, em 10:14, quando, já
depois da morte de Jesus, uma voz ordena a Pedro que
coma comida impura e o apóstolo responde: ‘De modo
algum, Senhor! Nunca comi nada de profano, nem de
impuro!’ Ou seja, Pedro respeitava a comida kosher. Se
Jesus alguma vez tivesse decretado toda a comida pura,
Pedro também a comeria sem problemas. Mas o facto, é
que não comia. Logo, Jesus também não a devia comer.”
“Então como explica que Marcos ponha Jesus a anular as
leis dos alimentos previstas no Antigo Testamento?”
“É uma retroacção.”
“Uma retro... quê?”
“O debate sobre o que se podia ou não comer era típico
do tempo em que o autor de Marcos escreveu o Evangelho.
A mensagem cristã não atraiu os restantes judeus, para
quem era ridículo dizer que um rabino pobre da Galileia
que fora crucificado como um reles bandido era o
poderoso Messias previsto nas Escrituras, mas seduziu
muitos gentios. Isso levantou um problema novo. Seriam
esses gentios obrigados a respeitar todas as regras do
judaísmo? As três questões dominantes na comunidade de
cristãos passaram a ser a proibição de consumir
alimentos impuros e de trabalhar ao sábado, e a
obrigatoriedade
da
circuncisão.
Havia
grupos
de
cristãos judeus que insistiam que as regras judaicas
eram para manter, enquanto outros admitiam que não. É
evidente que muitos gentios gostavam de comer porco,
pretendiam trabalhar ao sábado, e sobretudo não queriam
de modo nenhum que lhes tocassem com lâminas no pénis,
pelo que a insistência no respeito dessas três regras
só servia para os desencorajar de aderir ao movimento.
A questão é que sem os gentios não havia modo de o
movimento florescer, uma vez que os judeus não aderiam.
Tornou-se então fundamental eliminar essas regras que
desagradavam aos gentios. Daí que a obrigatoriedade da
circuncisão ou a proibição de consumir alimentos
impuros e trabalhar ao sábado tivesse acabado por ser
anulada.
Mas
como
legitimar
teologicamente
essa
anulação? A melhor maneira, claro, era atribuir a ordem
ao próprio Jesus. Foi o que Marcos fez.”
Valentina soergueu o sobrolho.
“Os evangelistas podiam fazer isso?”
Tomás riu-se.
“As retroacções são muito normais nos Evangelhos”,
confirmou. “Por exemplo, Lucas põe Jesus a dizer em
21:20: ‘Mas quando virdes Jerusalém sitiada por
exércitos, ficai sabendo que a sua ruína está próxima.’
Ora os Romanos sitiaram e destruíram Jerusalém no ano
70, acontecimento que já tinha ocorrido quando Lucas
escreveu o seu texto. Sabendo desse evento traumático,
o evangelista pôs Jesus a profetizá-lo. Isso foi uma
retroacção. Quando as profecias são escritas após o
acontecimento, a profecia e o acontecimento têm uma
natural
tendência
a
coincidir,
não
é
verdade?
Acontecia, por isso, vermos Jesus a dar respostas nos
Evangelhos a problemas que não eram do seu tempo, mas
do tempo dos próprios evangelistas.”
“É o caso do debate sobre a comida pura?”
“Precisamente. Este debate não é do tempo de Jesus, mas
do tempo dos autores dos Evangelhos. Na Carta aos Gála-
tas, Paulo descreve até um desacordo que teve com Pedro
justamente por causa da comida kosher. Escreve Paulo em
2:12: ‘Antes de terem chegado alguns homens da parte de
Tiago, ele comia juntamente com os gentios; mas, quando
eles chegaram, retraiu-se e separou-se deles, com
receio dos da circuncisão.’ Pedro justificou-se em
2:15: ‘Nós somos judeus por nascimento, e não pecadores
dentre os gentios.’
Isto significa que Pedro, que privou com Jesus,
insistia em respeitar as leis judaicas da alimentação.
Isto faz pressupor que Jesus também as respeitava.”
A italiana franziu o sobrolho, uma objecção a
formar-se-lhe na mente.
“Está bem, Pedro respeitava as leis da comida kosher”,
admitiu. “Mas Paulo não. E Paulo também era um
apóstolo. Portanto, se Paulo não respeitava a regra da
pureza alimentar, porque não admitir que era ele quem
seguia o exemplo de Jesus?”
O historiador sorriu e abanou a cabeça.
“Porque Paulo nunca conheceu Jesus.”
“Oh, lá vem você com as suas histórias!”, exclamou ela.
“Pois se ele era um apóstolo!...”
“Pois é, mas Paulo é o único dos apóstolos que nunca
conheceu Jesus pessoalmente”, explicou. “Paulo só se
converteu quando teve uma visão de Jesus já depois da
crucificação. Esse foi o seu único suposto contacto com
Jesus e o que lhe permitiu reivindicar o estatuto de
apóstolo. Mais tarde partiu para Jerusalém e conheceu
Pedro e o irmão de Jesus, Tiago. O que ele sabia do
Jesus de carne e osso era portanto pela boca de Pedro e
Tiago, não por experiência pessoal. Isto significa que,
quando Paulo entra em desacordo com Pedro, é a posição