de Pedro que mais provavelmente representa a posição de
Jesus. Se Pedro tinha pudor em comer com os gentios e
Paulo não tinha, então provavelmente Jesus também teria
pudor. Aliás, é interessante notar que, neste confronto
com Pedro, Paulo não deu o exemplo de Jesus. Se Paulo
soubesse que Jesus não respeitava as leis da pureza da
comida, teria decerto invocado esse argumento para
derrotar Pedro. Contudo, não o fez, indício seguro de
que ou desconhecia a posição de Jesus sobre esta
questão ou tinha consciência de que ela lhe era
desfavorável.”
Arnie Grossman, que até ali se havia mantido calado a
assistir à conversa, remexeu-se no sofá.
“Pois, já percebemos que Jesus respeitava as leis dos
alimentos kosher”, disse, desejoso de que a conversa
avançasse. “Mas o que está a tentar provar?”
“Estou a dizer-vos que as principais disputas descritas
nos Evangelhos entre Jesus e os fariseus se centram nas
proibições de consumir comida impura e de trabalhar ao
sábado, que curiosamente são duas das três principais
questões em debate na comunidade de cristãos na altura
em que os Evangelhos foram escritos.”
“Acha que isso não é coincidência?”
“Claro que não! A preeminência destas polémicas nos
Evangelhos não reflecte necessariamente os debates do
tempo de Jesus, mas os debates posteriores, de quando
os gentios aderiram ao movimento. O que os evangelistas
estavam a tentar fazer era tranquilizar os gentios,
pondo na boca de Jesus afirmações que permitiam que
eles trabalhassem ao sábado e comessem alimentos
impuros, como estavam habituados a fazer. Se essas
interdições judaicas se mantivessem, era provável que a
grande maioria abandonasse o movimento.”
“Estou a entender.”
“Os evangelistas encheram os seus textos com todas as
histórias que encontraram que pudessem pôr Jesus a
desautorizar as Escrituras nestas duas questões. O
problema é que não detectaram muita coisa nas tradições
que consultaram. Em parte alguma, com excepção daquela
retroacção de Marcos sobre a comida kosher, vemos Jesus
a pôr em causa a lei. Ele limita-se a fazer como todos
os judeus, os do seu tempo e os actuais, isto é, apenas
discute interpretações na aplicação da lei, não a
própria lei. Os evangelistas tentam a todo o custo
polemizar minudências, num esforço desesperado para se
agarrarem a tudo o que podiam. Fizeram isso com a
comida impura, mas também com o sábado.”
“Sim, o sábado!”, exclamou Grossman. “Diz o senhor que
Jesus não questionou o trabalho ao sábado?”
“Claro que não. Repare, o Êxodo proíbe o trabalho ao
sábado, mas o que é isso de trabalho? É aqui que
começam as divergências. Como sabe, alguns judeus dizem
que apanhar espigas para comer não é trabalho, outros
acham que é. Tal como os restantes judeus, Jesus tinha
as suas opiniões sobre o assunto. Marcos descreve os
discípulos de Jesus a colherem espigas ao sábado,
questão que suscitou dúvidas dos fariseus. Jesus
respondeu em 2:25 com uma excepção fornecida pelas
Escrituras: ‘Nunca lestes o que fez David, quando teve
necessidade e sentiu fome, ele e os que estavam com
ele?’ Era uma referência a um episódio em que David e
os seus homens trabalharam ao sábado porque tinham
fome. Ou seja, Jesus jamais pôs em dúvida que o sábado
fosse um dia sagrado. Apenas questionou o que se podia
ou não fazer ao sábado. Mas é importante sublinhar que
entre os judeus era aceitável debater estas pequenas
regras. Até os fariseus discordavam entre si sobre o
trabalho ao sábado e discordavam dos saduceus sobre
essa e outras regras. Há textos de autores judaicos,
como Filo, a discutir o que se pode ou não fazer ao
sábado. Embora a nós, hoje, nos pareçam bizantinos e
irrelevantes, eram debates normais entre os judeus.”
“E o divórcio?”, atalhou Valentina, regressando à
conversa. “As Escrituras aceitam-no, mas Jesus proíbeo.
Ou nega isso?”
“Não, não nego nada”, replicou Tomás, voltando a
folhear a sua Bíblia. “É verdade que Jesus interditou o
divórcio, mas fê-lo exclusivamente no quadro das
próprias Escrituras. Basta ver como Marcos põe o
problema quando Jesus é questionado em 10:2-9:
‘Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-Lhe se era
lícito ao marido repudiar a mulher. Esta pergunta foi
feita para O experimentarem. Respondeu-lhes Ele: «Que
vos preceituou Moisés?» «Moisés permitiu passar carta
de divórcio e repudiá-la», responderam-lhe. Jesus
retorquiu-lhes: «Devido à dureza do vosso coração é que
Ele vos deixou esse mandamento. Mas, ao princípio da
criação, Deus fê-los homem e mulher. Por causa disso,
deixará o homem seu pai e sua mãe e passarão os dois a
ser uma só carne. Portanto, já não são dois, mas uma só
carne. Aquilo, pois, que Deus uniu não separe o
homem.»’ Ou seja, Jesus diz que Moisés apenas permitiu
o divórcio ‘devido à dureza do vosso coração’, não por
o
divórcio
ser
algo
intrinsecamente
sagrado.
Considerando que a questão punha a vontade de Deus em
conflito, Jesus estabeleceu que a união abençoada por
Deus é que era sagrada, não o direito ao divórcio. Isto
é, mais uma vez, uma interpretação perfeitamente
judaica. Os manuscritos do Mar Morto mostram que os
essénios, outro grupo de judeus, tinham pontos de vista
semelhantes sobre o casamento e o divórcio. Havia
judeus que apresentavam interpretações liberais e
outros
que
se
inclinavam
para
interpretações
conservadoras. Neste caso, Jesus flectiu para o lado
conservador.”
De novo, Valentina descruzou e cruzou as pernas com um
movimento rápido e impaciente.
“Va bene, va bene”, aceitou entre dentes, a voz atada
de relutância. “Jesus era judeu nos costumes. Aceito
isso. Mas a mensagem que ele nos trouxe não se limita a
essas questões da comida e do trabalho ao sábado, pois
não?”
“Claro que não”, admitiu o historiador. “É verdade que
esses assuntos dominaram os debates que manteve com os
fariseus ao longo dos Evangelhos. Mas é evidente que
Jesus abordou igualmente outras questões. Algumas delas
revelaram-se da maior relevância em termos éticos e
teológicos.”
“Ah!”, exclamou ela, triunfante. “É o que eu digo!
Jesus abordou questões de fundo. E foi justamente com
essas questões que ele rompeu com os judeus e fundou o
cristianismo!”
Tomás respirou fundo e olhou para Grossman, que se