remetera novamente ao silêncio. Depois voltou a encarar
a italiana e considerou como poderia articular a
réplica à afirmação que ela acabara de proferir.
Poderia ser meigo e diplomático, mas isso requeria
muito trabalho de imaginação e àquela hora já não se
sentia com forças para tanto. O melhor era manter-se
curto e directo, mesmo correndo o risco de se revelar
brutal.
“Minha cara”, disse. “Ainda não percebeu qual é a
consequência última de Jesus ser judeu?”
“Um judeu que fundou o cristianismo.”
“Não”, insistiu Tomás com um toque de impaciência.
“Cristo não era cristão.”
XXXVI
A noite já havia caído sobre Jerusalém. Aproveitando a
cobertura da treva densa, Sicarius aproximou-se com
cuidado da janela e, sempre com mil cautelas para não
ser avistado, espreitou para o interior. Viu três
pessoas sentadas em sofás a conversar e perscrutou-lhes
as faces. Uma era de uma mulher. Outra correspondia à
fotografia que o mestre lhe havia enviado por e-mail.
“Tomás Noronha”, murmurou.
O seu alvo.
Tendo-se assegurado de que o historiador não estava em
condições de interferir na sua acção, Sicarius voltou a
mergulhar na sombra. Atravessou a rua, passou ao lado
da escadaria estreita que conduzia à livraria, àquela
hora encerrada, e penetrou na zona residencial do
American Colony.
“Quinze”, murmurou, falando para si mesmo. “Quarto
quinze.”
Caminhou na noite à procura da porta do quarto de
Tomás. Obter o número havia sido a coisa mais simples
do mundo. Bastara ter-se instalado na recepção durante
a tarde, sentado numa posição privilegiada, e ter visto
o seu alvo chegar e pedir a chave do quarto. Os
recepcionistas entregaram-lhe a chave número quinze.
Movendo-se na obscuridade, Sicarius identificou a porta
treze, depois a catorze e chegou finalmente à quinze.
Olhou em redor para se certificar de que ninguém o
estava a observar. Com um movimento rápido, extraiu do
bolso a chave mestra, que havia furtado da sala das
empregadas de limpeza depois de sair da recepção, e
inseriu-a na fechadura. Acto contínuo, a porta abriu-
-se.
Sem perder tempo, Sicarius entrou no quarto, fechou a
porta e ligou a lanterna. O foco dançou de um lado para
o outro, perscrutando a área. Era a primeira vez que
via um quarto do American Colony e ficou surpreendido;
não imaginara que fosse tão espaçoso.
Esquadrinhou metodicamente o espaço, revistando todos
os cantos. Inspeccionou o quarto de banho, o armário, a
varanda e até o pequeno frigorífico. Tinha de escolher
o local adequado para se ocultar. Qual o melhor? O foco
da lanterna saltitava de lugar em lugar, como se fosse
a luz, e não o intruso, quem permanecia indeciso.
“Maldição!”, resmungou. “Já me esquecia!”
Aproximou-se da cama, larga e com o cobertor dobrado
aos pés, e inspeccionou-a. Tinha várias almofadas bem
gordas, o que lhe conferia volume. Meteu a mão no bolso
das calças e extraiu a folha de papel que trazia
dobrada. Desdobrou-a e fez incidir o foco da lanterna
sobre o seu conteúdo, para se certificar de que tinha
trazido o papel correcto.
Era este mesmo.
Deu um passo para a cama e pousou a folha de papel
sobre a mesinha-de-cabeceira, mesmo ao lado do pequeno
candeeiro. Recuou e contemplou a posição da folha.
Achou que estava tudo muito bem. Era realmente melhor
tratar de tudo com calma; depois de fazer o que tinha a
fazer, a confusão poderia ser demasiado grande.
Parecia-lhe importante deixar já resolvido o problema
da mensagem.
Voltou a luz da lanterna para a mão e consultou o papel
que havia imprimido com as instruções enviadas pelo
mestre para o seu e-mail. Não queria cometer erros e
considerava importante memorizar tudo sem falhas.
A seguir regressou ao centro do quarto e recomeçou a
girar o foco da lanterna em todas as direcções. Onde
diabo se haveria de esconder? Aqui? Ali? Acolá? E
se?...
Tinha acabado de descobrir o sítio adequado. Por Deus,
muito mais do que adequado! Que rica surpresa teria
aquele Tomás Noronha quando entrasse no quarto! Ah,
como estava ansioso por que o momento chegasse! Não
havia dúvidas, aquele esconderijo era... era...
Perfeito.
“Já sei!”
XXXVII
O dedo furioso de Valentina estava apontado na direcção
de Tomás e tremia com indignação, como o de uma vítima
em tribunal a denunciar ao juiz o seu algoz.
“Sabe o que você é?”, rugiu ela. “O Anticristo!”
O historiador riu-se.
“Eu?”
“Sim. O Anticristo!” Ergueu os olhos azuis, como se
quisesse comunicar directamente com o Altíssimo. “Dio
mio, porque me enviaste esta maldita criatura? É uma
provação? Um teste à minha fé? Este homem... este
herege... este demónio parece apostado em demolir tudo
o que me ensinaram! Agora diz que Cristo não era
cristão!” Ainda a olhar para o alto, fez um gesto
teatral na direcção do seu interlocutor. “Pai, afasta
de mim este cálice!”
Apesar do tom exageradamente dramático, ela parecia
falar a sério. Na dúvida sobre como reagir, Tomás
voltou a soltar uma gargalhada; pareceu-lhe mais seguro
encarar aquele protesto com humor.
“Se quiser eu calo-me.”
“Aleluia!”, exultou ela, erguendo os braços como se
agradecesse aos Céus. “Aleluia!” Pousou o olhar nele.
“Parece-me de facto melhor que se cale! Ufa, já não o
consigo ouvir!”
Arnie Grossman agitou-se no seu assento.
“Eh lá!”, exclamou, como um advogado a recorrer da
decisão. “Não é bem assim! Eu preciso de saber qual o
interesse que os sicarii têm em apontar as fraudes no
Novo Testamento. Essa explicação pode ser crucial para
identificar quem está por detrás destes homicídios...”
O olhar indeciso de Tomás bailou entre o israelita e a
italiana.
“Então, como é?”, quis saber. “Continuo ou calo-me?
Decidam-se!”
Valentina suspirou, vencida, com um gesto de rendição.
“Prossiga.”
O historiador fez uma pausa para reestruturar os seus
pensamentos e avaliar o melhor caminho para prosseguir.
“Bem, para dar essa explicação é fundamental que vocês
percebam que Jesus era judeu a cem por cento.”
“Só nos costumes”, interpôs Valentina. “Na ética e na
teologia introduziu inovações que, quer você queira
quer não, fundaram o cristianismo.”
Tomás cravou o olhar nela.