“Quais inovações? Sabe qual era a crença central de
Jesus?”
“Amai o próximo.”
O historiador voltou-se para Arnie Grossman.
“Qual é a crença fundamental dos judeus, a oração na
base da vossa religião?”
“Sem dúvida que é o Shema”, retorquiu ele de imediato.
Para exemplificar, o polícia israelita tapou os olhos
com a mão direita e entoou a prece, como fazia todos os
sábados na sua sinagoga ou diante do Muro das
Lamentações. “‘Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus,
é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo
o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas
forças!”’
Enquanto Grossman entoava o Shema, Tomás folheava a sua
Bíblia para localizar um trecho.
“O Shema está enunciado em Deuteronómio, 6:4”,
identificou. “Agora vou ler o que está escrito no
Evangelho segundo Marcos, 12:28-30: ‘Aproximou-se d’Ele
um escriba que os tinha ouvido discutir, e, vendo que
Jesus lhes tinha respondido bem, perguntou-Lhe: «Qual é
o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu:
«O primeiro é: Ouve, Israeclass="underline" O Senhor, nosso Deus, é o
único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu
coração, com toda a tua alma, com todo o teu
entendimento e com todas as tuas forças.»”’ Bateu com o
dedo no versículo. “Ou seja, quando questionado sobre
qual a sua crença central, Jesus não fala no amor ao
próximo. A sua crença central é o Shema judaico, o amor
a Deus e a crença no monoteísmo. É esta a crença
basilar de Jesus. É a crença de um judeu a cem por
cento.”
Valentina pegou no exemplar da Bíblia que estava aberto
nas mãos do português e verificou o texto.
“Está bem, Jesus diz aqui que acima de tudo está o
Shema”, admitiu. “Mas você não leu tudo! Veja o que
Jesus afirma a seguir: ‘O segundo é este: «Amarás o teu
próximo como a ti mesmo.» Não há outro mandamento maior
que estes.”’ Fez um ar triunfante. “Está a ver? Está a
ver? É verdade que Jesus pôs o amor a Deus acima de
tudo, como os restantes judeus. Mas logo a seguir
introduziu uma inovação teológica. Estabeleceu o amor
ao próximo como o segundo maior mandamento! Isto é uma
inovação! É esta ideia que funda o cristianismo!”
O historiador mantém o olhar pousado nela.
“Tem a certeza?”
“Então não tenho? Jesus ensinou o amor ao próximo. É
este ensinamento que separa o cristianismo do judaísmo!
O Deus dos judeus é cruel e vingativo, mas o Deus de
Jesus é benigno e cheio de compaixão. O Antigo
Testamento fala na justiça de Deus, o Novo Testamento
traz-nos o amor de Deus! É esta a grande revolução de
Jesus! O amor de Deus, o amor ao próximo.” Fez um gesto
largo, a indicar as pessoas em redor. “Toda a gente
sabe!”
Tomás recomeçou a folhear a sua Bíblia.
“Ai sim?” perguntou com uma ponta de ironia. “Então
vejamos o que está escrito no Antigo Testamento dos
judeus.” Identificou o trecho. “Diz Deus a Moisés em
Levítico, 19:18: ‘Não te vingarás nem guardarás rancor
aos filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a
ti mesmo. Eu sou o Senhor.’” Ergueu a cabeça. “Então?”
Valentina observava as páginas da Bíblia com um olhar
atrapalhado.
“Bem... quer dizer, enfim...”
“Você disse-me que a inovação de Jesus era o amor. Mas
afinal as Escrituras dos judeus já falam no amor. Como
é? Jesus inovou ou limitou-se a repetir um mandamento
da lei de Moisés?”
“Pois... está bem”, gaguejou ela. “Mas... mas as
Escrituras dos judeus não dão ao amor a ênfase que
Jesus lhe dá. E essa a inovação.”
O historiador fechou a Bíblia e deixou-a pousada no
regaço.
“Qual ênfase?”, questionou. “Sabe quantas vezes aparece
a palavra amor no Evangelho segundo Marcos? Apenas essa
vez! A frase narrada em Marcos 12:31 é o único momento
desse evangelho em que Jesus fala no amor ao próximo!”
“Mas... mas não foi essa a inovação de Jesus?”
“Qual inovação?”, insistiu. “Você tem de perceber que
Jesus se limitou a fazer o que qualquer judeu fazia e
ainda faz.” Indicou o livro. “Sabe, o Antigo Testamento
inclui textos para todos os gostos. Uns judeus
privilegiam umas leituras, outros privilegiam outras.
Jesus fez as suas escolhas. Mas é importante que
perceba que ele não inovou coisa nenhuma. Tudo o que
ele disse foi no quadro exclusivo do judaísmo. Jesus
privilegiava o amor? À luz do que está escrito no
Evangelho segundo Marcos, o mais antigo dos Evangelhos,
essa afirmação é muito questionável. Mesmo que a
aceitemos, é importante sublinhar que outros judeus
também privilegiavam o amor. O célebre rabino Hillel
reduziu as Escrituras a esta observação: ‘Não faças aos
outros o que não queres que te façam a ti; tudo o resto
é comentário, leiam e aprendam.’ Jesus era um judeu que
vivia segundo os costumes judaicos, acreditava no Deus
judaico e ensinava a lei judaica. Não se desviou do
judaísmo nem um milímetro!”
A italiana abanou a cabeça, recusando-se a aceitar a
ideia.
“Isso não é verdade!”, exclamou. “O que Jesus pregava
entrou em ruptura com o judaísmo! Tenho a certeza
absoluta! Ele revogou certos aspectos da lei judaica!”
Percebendo que tinha de recorrer à artilharia pesada,
Tomás voltou a abrir a sua Bíblia.
“Acha que sim?”, perguntou. “Então veja o que diz Jesus
no Evangelho segundo Lucas, 16:17: ‘É mais fácil que o
céu e a terra passem do que cair um só til da lei.’ Ou
seja, Jesus defendeu a aplicação da lei judaica até ao
último til! Diz Jesus no Evangelho segundo João, em
10:35: ‘A Escritura não pode ser anulada.’ Isto é, o
Antigo Testamento não é revogável nem abrogável! E diz
Jesus no Evangelho segundo Mateus, em 5:17-18: ‘Não
penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas: Não vim
revogá-la, mas completá-la. Porque, em verdade, vos
digo: Até que passem o Céu e a Terra, não passará um só
jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra.’
Quer dizer, Jesus não só disse que não veio revogar a
lei judaica como insistiu que ela será respeitada até
ao derradeiro jota!” Cravou os olhos em Valentina.
“Pergunto-lhe eu: acha que estas palavras são de alguém
que quer mudar a lei judaica?”
A inspectora da Polizia Giudiziaria deixou-se cair
sobre as costas do sofá, numa postura de total
rendição.
“Pois, realmente...”, murmurou. Abanou a cabeça, não em
negação, mas como se tentasse encaixar todas as peças