soltas na sua mente. “Mas, se assim é, o cristianismo
funda-se em quê? Não percebo...”
“A estranha verdade é que o cristianismo não se funda
na vida de Jesus, nem nos seus ensinamentos”, disse.
“Ele era um judeu que respeitava e pregava a lei
judaica. Havia pontos inquestionáveis nessa lei, mas
outros permaneciam abertos a interpretações. Uns judeus
mais liberais interpretavam-na de uma maneira, outros
mais conservadores interpretavam-na de outra. Os
fariseus, por exemplo, eram conservadores.”
“E Jesus?”
“Também o era. Foi por isso que entrou em competição
com os fariseus. Jesus e eles disputavam quem
interpretava a lei de forma mais estrita. Os fariseus
privilegiavam a letra da lei, Jesus dava também atenção
ao seu espírito. Isso é muito visível no Sermão da
Montanha, onde Jesus cita a lei e depois enuncia o que
considera ser o seu espírito. Por exemplo, não só as
pessoas não devem matar como nem devem ficar zangadas;
não só devem evitar o adultério como também devem
evitar o simples desejo; não só devem amar o seu
próximo como também devem amar o inimigo. É como se
Jesus estivesse em competição com os outros judeus. Não
lhe interessava apenas a letra da lei. Levava a lei
judaica tão a sério que chegava ao ponto de querer
respeitar o que achava ser a intenção por detrás dessa
letra.”
Valentina fez um ar pensativo.
“Daí que ele nunca se zangasse e vivesse com grande
austeridade.”
Tomás olhou-a durante dois segundos, na dúvida sobre se
deveria ou não contradizê-la. Acabou por decidir levar
a verdade até ao fim.
“Lamento decepcioná-la, mas Jesus era tudo menos
austero”, disse. “Há um extracto em Mateus e em Lucas
onde Jesus contrasta a austeridade de João Baptista com
a sua própria flexibilidade. Diz Jesus em Mateus 11:18:
‘Veio, efectivamente João, que não come nem bebe, e
dizem dele: «Está possesso»! Veio o Filho do Homem, que
come e bebe, e dizem: «Aí está um glutão e bebedor,
amigo de publicanos e pecadores!»’ Ou seja, Jesus
admite que gostava da pingoleta e que era um valente
garfo!”
A italiana riu-se.
“Chamem-lhe parvo!”
“E há indícios de que, apesar de pregar que ninguém se
deveria zangar, ele próprio se zangava.”
O sorriso de Valentina desfez-se.
“O quê? Nunca ouvi falar nisso!...”
Tomás localizou o extracto pertinente na sua Bíblia.
“É um versículo no Evangelho segundo Marcos”, disse.
“Está em 1:40-41: ‘Um leproso veio ter com Ele, caiu de
joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes limpar-me.»
Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse:
«Quero, fica limpo.»’”
“Não vejo nada que indicie que Jesus ficou zangado”,
observou
a
italiana.
“Pelo
contrário,
ficou
compadecido.”
“Esta tradução usa uma palavra grega que aparece na
maior
parte
dos
manuscritos,
splangnistheis,
ou
compadecido. O problema é que há outros manuscritos que
usam a palavra orgistheis, ou zangado.”
“Mas, veja bem, dizer que Jesus ficou zangado quando
lhe apareceu um leproso não faz sentido”, argumentou
ela. “Mas dizer que ele ficou compadecido já faz.”
“É verdade”, admitiu Tomás. “E também é verdade que o
compadecido surge na maior parte dos textos. O problema
é que a palavra zangado aparece num dos mais antigos
manuscritos existentes, o Codex Bezae, do século V.
Mais importante que isso é que a mesma palavra surge
também em três manuscritos em latim traduzidos a partir
de cópias do século II, enquanto compadecido surge pela
primeira vez nos manuscritos do final do século IV.
Perante este impasse, qual a leitura mais embaraçosa
para os cristãos?”
“Bem... zangado é a palavra mais embaraçosa.”
“Proclivi scriptioni praestat ardua”, recitou. “A
leitura mais difícil é melhor do que a mais fácil.
Trata-se de um princípio elementar da análise histórica
de documentos. É mais natural que um copista cristão
transforme zangado em compadecido do que o inverso. Se
o copista manteve a palavra zangado, apesar de ser
embaraçosa, é porque provavelmente essa é que foi a
palavra originalmente escrita pelo autor de Marcos. É
impossível ter a certeza, claro, mas esta interpretação
é reforçada pelo facto de Mateus e Lucas terem copiado
este trecho de Marcos palavra a palavra, tendo apenas
suprimido a reacção de Jesus. Mateus e Lucas não dizem
que Jesus ficou compadecido ou zangado. Omitem a
reacção. Isso é um indício de que não terão gostado da
palavra originalmente usada por Marcos para descrever a
reacção de Jesus ao leproso. Se a palavra fosse
compadecido, não se vêem motivos para Lucas e Mateus
ficarem embaraçados e a eliminarem. Mas se a palavra
fosse zangado, já se compreende porque a suprimiram.”
Fechou a Bíblia. “De resto, este não é o único ponto
onde Jesus se zanga. Basta lembrar a fúria que ele teve
em Jerusalém quando visitou o Templo, por exemplo,
episódio bem documentado nos Evangelhos.”
Arnie Grossman consultou o seu relógio e, apercebendo-
se do adiantado da hora, deu uma sonora palmada nas
coxas e inclinou o tronco para a frente, fazendo
tenções de se levantar.
“Bem, meus amigos, já se faz tarde!”, exclamou, pondo-
se devagar de pé. “Acham que poderemos continuar a
conversa durante o jantar?” Apontou para Tomás. “É que
o senhor ainda não respondeu à minha pergunta: o que
estavam os sicarii a fazer quando deixaram aqueles
enigmas junto aos cadáveres?”
Valentina
e
Tomás puseram-se também
de
pé.
O
historiador encolheu os ombros e indicou a italiana.
“Por mim, já tinha respondido directamente à sua
pergunta”, devolveu. “O problema é que ela não vai
compreender a resposta se não perceber um conjunto de
questões.”
“Eu?”, admirou-se a inspectora da Polizia Giudiziaria.
“Agora a culpa é minha?”
Tomás ignorou-a e olhou para o israelita.
“Vá andando para o restaurante”, indicou. “Eu vou só
ali ao quarto mudar de roupa e já volto.”
“Eu também vou”, apressou-se a adiantar Valentina,
pegando na sua mala de senhora. Apontou para Tomás. “De
caminho, espero que responda à minha pergunta.”
“Qual delas?”
“Se o cristianismo não se funda na vida de Jesus nem em
novos ensinamentos sobre as Escrituras”, recordou,
“funda-se em quê, afinal?”