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Tomás indicou o pequeno crucifixo de prata que ela

mantinha no pescoço.

“Funda-se na morte de Jesus.”

Quase numa reacção reflexa, a italiana levou a mão ao

pescoço e acariciou o pequeno crucifixo.

“Na morte? Desculpe, mas isso é apenas um aspecto do

cristianismo.”

Antes de se voltar para a porta do átrio e de se

dirigir para o quarto, o historiador respondeu-lhe.

“A morte de Jesus, minha cara, é tudo.”

XXXVIII

A noite de Jerusalém era quente e seca, sem uma brisa a

temperar o ar. Tomás e Valentina saíram do átrio do

American Colony para a rua, uma estreita faixa de

caminho privado, e procuraram as luzes amareladas da

zona residencial do hotel. Os quartos ficavam do outro

lado da rua, entre a verdura.

“Não estou a perceber o que acabou de me dizer”,

observou ela. “A morte de Jesus é tudo? Que significa

isso?”

Tomás ergueu os olhos para o firmamento e apreciou a

miríade de estrelas que enxameavam a treva profunda,

como pó de diamantes espalhado sobre um manto de veludo

negro.

“Decerto já ouviu na missa os padres dizerem que Jesus

morreu para nos salvar.”

“Ah, sim. Com certeza. Quem não ouviu?”

O historiador estreitou os olhos, enfatizando a

importância da pergunta seguinte.

“Mas salvar-nos de quê?”

“Bem... salvar-nos de... de... de tudo.”

“Tudo, o quê?”

“O mal, o pecado... sei lá.”

“Nesse caso, Jesus morreu na cruz e nós ficámos salvos

do mal e do pecado?”

Os olhos de Valentina saltitaram com embaraço pelo

espaço em redor, como se buscassem a resposta em

qualquer canto da rua que a noite turvara.

“Quer dizer... sim, acho eu.”

“Então já não há mal no mundo? Nem pecado?”

“Enfim... claro que há. Ainda há.”

“Mas não foi Jesus que morreu para nos salvar do mal e

do pecado? Então por que razão ainda existe mal e

pecado?” A italiana bufou e encolheu-se, como um balão

que de repente se esvazia.

“Oh, sei lá”, rendeu-se. “Isso é uma trapalhada!...”

Satisfeito por ter feito a demonstração que tinha em

mente, Tomás começou a andar e atravessou a pequena

rua.

“A história de que Jesus morreu para nos salvar sempre

me fez confusão”, admitiu. “De cada vez que ouvia essa

frase numa igreja, interrogava-me: morreu para me

salvar? Mas salvar-me de quê? De quê? Essa ideia não

fazia nenhum sentido na minha cabeça, era apenas uma

daquelas expressões enigmáticas que eu me limitava a

papaguear na catequese sem entender.” Desceu o olhar

para a Bíblia que tinha na mão. “Foi só quando estudei

o judaísmo que percebi enfim o que queria isso dizer.”

“Ai sim?”, admirou-se Valentina. “A resposta está no

judaísmo?”

“Minha cara, tudo o que envolve a vida e a morte de

Jesus tem a ver exclusivamente com o judaísmo”,

sentenciou ele. “Tudo.”

“Mas em que sentido?”

Passaram ao pé das escadinhas que conduziam à livraria

do hotel. Numa pequena vitrina encontrava-se um guia

turístico com a capa ilustrada por uma pintura a

reconstituir o Templo de Jerusalém.

“Está a ver aqui o Templo?”, perguntou, apontando para

a imagem. “Os judeus acreditavam que o lugar onde a

presença física de Deus mais se sentia era no Templo.”

Indicou um compartimento no centro do complexo

religioso. “Mais exactamente nesta câmara. Achavam que

esta sala era o mais sagrado de todos os lugares e

chamavam-lhe o santo dos santos. A sala continha a arca

da aliança, com as tábuas da lei que Deus havia

entregue a Moisés. Estava fechada por uma cortina e

ninguém podia lá entrar. Com uma excepção. Todos os

anos, por ocasião do Yom Kippur, o sumo sacerdote do

Templo penetrava no santo dos santos e fazia um

sacrifício. Sabe porquê?”

Valentina encolheu os ombros.

“Ignoro.”

“O Yom Kippur é o dia da expiação. Os judeus acreditam

que Deus regista o destino de cada pessoa num livro, o

livro da vida, e espera pelo Yom Kippur para ditar o

veredicto. Durante um determinado período, cada judeu

confessa os pecados que cometeu ao longo do ano, tenta

obter perdão por eles e assim reconciliar-se com Deus.

A reconciliação faz-se no Yom Kippur através do

sacrifício de um animal. No dia da expiação, o sumo

sacerdote entrava no santo dos santos e matava um

cordeiro, expiando primeiro os seus próprios pecados e

depois os pecados do povo. De resto, todos os judeus

convergiam para Jerusalém no Yom Kippur para fazer o

mesmo. Como muitos vinham de longe e era incómodo

trazerem animais durante toda a viagem para fazerem o

sacrifício em Jerusalém, preferiam comprá-los em tendas

de vendedores às portas do Templo. Era mais prático.

Mas com que moedas o faziam? As moedas romanas eram

inaceitáveis, porque tinham gravada a imagem de César e

isso era considerado uma afronta à soberania de Deus.

Foi por isso criada uma moeda do Templo. Os peregrinos

traziam moedas romanas, trocavam-nas por moedas do

Templo e com elas compravam os animais.”

“Costumes curiosos”, observou a italiana, sem perceber

a relevância daquela explicação. “E então?”

“Agora recuemos dois mil anos”, propôs o historiador.

“Jesus e os seus seguidores, todos eles judeus,

deslocaram-se a Jerusalém por alturas do Yom Kippur. O

que vieram cá fazer? Participar nas cerimónias do dia

da expiação, claro. Mas Jesus era, e digo isto sem

ofensa, um parolo da província.”

Valentina revirou os olhos, agastada.

“Oh, lá está você!”

“A sério! Ele veio das berças! Se ler com atenção os

Evangelhos, vai reparar que Jesus passou a vida inteira

na Galileia. As povoações que frequentava eram

terriolas da província, como Cafarnaum, Corozaim,

Betsaida e outras do género, onde só havia pacóvios.

Não frequentava as grandes urbes. As duas maiores

cidades da Galileia, Séforis e Tiberíades, nem sequer

são mencionadas no Novo Testamento!”

“Já percebi. Adiante.”

“De modo que, quando viu instituído às portas do Templo

o sistema de troca de moedas e de venda de animais para

sacrifício, Jesus ficou ofendido. Achou que se estava a

fazer um negócio à custa de Deus.” A sua voz mudou de

tom, como se ele fizesse um aparte. “O que, aliás, era

verdade, embora se tratasse de um sistema bem mais

prático do que obrigar as pessoas a andarem centenas de