quilómetros com os animais atrás. Mas muitos judeus não
gostavam deste negócio. Os manuscritos do Mar Morto
revelam que os essénios, outro grupo judeu, achava que
o Templo estava corrompido. Isso mostra que criticar
aquele sistema era uma prática normal entre os judeus.”
Retomou o tom normal. “Ao ver o negócio ali montado, o
que fez Jesus? Protestou, derrubou umas bancadas de
moedas e umas caixas com pombos, também vendidos para
sacrifícios, e proferiu umas ameaças. Se calhar um dos
seus seguidores disse que ele era o rei dos judeus, de
modo a credibilizar o protesto. É possível que o
próprio Jesus tivesse profetizado que aquelas práticas
um dia levariam Deus a destruir o Templo. Não foi nada
de muito sério, claro, mas bastou para atrair as
atenções das autoridades. Jerusalém estava cheia de
gente e qualquer altercação poderia degenerar num
tumulto generalizado, o que o sumo sacerdote e os
Romanos queriam a todo o custo evitar, como é
compreensível.”
“Daí que o tivessem mandado prender.”
“Devem ter feito umas perguntas e concluído que estavam
perante uma daquelas figuras meio alucinadas que
poderiam
trazer
problemas.
Mais
valia
anularem
preventivamente aquele foco potencial de distúrbios
numa quadra tão sensível como o Yom Kippur. Prenderam-
-no e sujeitaram-no a um julgamento sumário, como
mandava a lei.”
“E foi aí que a coisa correu mal”, observou a italiana.
“Jesus disse que era o Filho de Deus e isso era uma
blasfémia punível com a morte. Foi por isso que o
executaram.”
O historiador fez uma careta.
“Não foi bem assim”, corrigiu. “É verdade que essa é a
versão dos Evangelhos. Marcos descreve este diálogo
crucial entre o sumo sacerdote e Jesus durante o
julgamento, em 14:61-64: ‘O Sumo Sacerdote voltou a
interrogá-Lo: «És Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?»
«Sou, respondeu Jesus, e vereis o Filho do Homem
sentado à direita do Poder e vir sobre as nuvens do
céu.» O Sumo Sacerdote rasgou, então, as suas túnicas e
disse: «Que necessidade temos ainda de testemunhas?
Ouvistes a blasfémia! Que vos parece?» E todos
sentenciaram que Ele era réu de morte.”’
“Exactamente”, insistiu Valentina. “Foi a blasfémia que
o condenou à morte.”
Tomás abanou a cabeça.
“Não é possível”, disse. “Em primeiro lugar, nenhum dos
apóstolos presenciou este julgamento. Tudo o que
souberam foi de ouvir dizer. Em segundo lugar, uma
pessoa afirmar que ela própria era o Messias não
constituía blasfémia punível com a morte. Em terceiro
lugar, o que é bem mais importante, a punição por
blasfémia era executada por lapidação. Mas Jesus não
foi lapidado, pois não?”
A inspectora indicou o crucifixo que trazia ao pescoço.
“Foi crucificado, sabe-o bem.”
“Aí é que está o busílis da questão: Jesus foi
crucificado. Acontece que a crucificação era uma forma
romana de execução, não uma forma judaica. E era
reservada aos inimigos dos Romanos.” Indicou o
crucifixo
da
sua
interlocutora.
“Se
Jesus
foi
crucificado, isso significa que não foi morto por
blasfémia, mas porque os Romanos o consideraram uma
ameaça. Em 15:25-26, Marcos dá-nos uma pista: ‘Era a
hora terceira quando O crucificaram. Na inscrição, que
indicava o motivo da condenação, lia-se «O Rei dos
judeus». Ou seja, acharam que o título rei dos judeus
constituía um desafio à autoridade de César, o único
que tinha o poder de designar o monarca da Judeia. Foi
por isso que Jesus foi executado! Por os Romanos terem
entendido que estava a afrontar César!”
“Ah, estou a perceber...”
Recomeçaram a caminhar, dirigindo-se para os corredores
da zona residencial do hotel. Tomás folheou a sua
Bíblia e posicionou-se debaixo de um candeeiro para
poder ler o texto.
“Agora repare como Marcos descreve a morte de Jesus, em
15:37-38”, disse, localizando o trecho. “‘Soltando um
grande brado, Jesus expirou. E o véu do templo rasgou-
-se em duas partes, de alto a baixo.’ ”Ergueu os olhos
para a sua interlocutora. “O véu do templo rasgou-se? A
que véu está Marcos a referir-se?”
“À cortina que isolava o santo dos santos, presumo eu.”
“E presume bem. Agora vem a pergunta mais importante:
por que razão Marcos relacionou a morte de Jesus com o
momento em que essa cortina se rasgou?”
Valentina curvou os lábios, esboçando uma expressão de
absoluta ignorância.
“Sei lá.”
“A resposta a essa pergunta é-nos dada no Evangelho
segundo João. Em 1:29, o evangelista descreve deste
modo o encontro entre João Baptista e Jesus: ‘No dia
seguinte, João viu Jesus, que vinha ter com ele, e
disse: «Aí está o Cordeiro de Deus que vai tirar o
pecado do mundo.»’” O historiador levantou os olhos e
fitou a italiana. “Percebeu?”
“Hmm... não.”
Tomás respirou fundo, quase desanimado. Perante tudo o
que tinha acabado de explicar, era só uma questão de
unir os pontos.
“O sumo sacerdote sacrificava um cordeiro no Yom Kip-
pur para expiar os seus pecados e os de todos os judeus
para que todos se salvassem. Jesus morreu no Yom
Kippur. João chama a Jesus ‘o Cordeiro de Deus que vai
tirar o pecado do mundo’.”
A inspectora da Polizia Giudiziaria arregalou os olhos
e abriu a boca.
“Ah, estou a entender!”
“O que os evangelistas nos estão a dizer é que Jesus
era o cordeiro da humanidade! Ao morrer, expiou os
pecados de toda a gente, da mesma maneira que o
sacrifício dos cordeiros expiava os pecados dos judeus.
É nesse sentido, e só nesse sentido, que a sua morte
significa a salvação de todos nós. A interpretação
dessa morte só se compreende no quadro de referências
da religião judaica. Se sairmos do judaísmo, como
saímos, a morte dele enquanto acto de salvação deixa de
fazer qualquer sentido. É preciso perceber o Yom Kippur
e a religião judaica para entender por que motivo os
seus seguidores, todos eles judeus, interpretaram a
morte de Jesus como um acto de salvação.”
“Sim, tudo agora é claro!”, exclamou ela. Hesitou. “E a
cortina do santo dos santos? Como é que ela aparece
nesta história?”
“É outra referência teológica de grande importância que
só se entende no quadro do judaísmo”, esclareceu o
historiador. “A cortina separava o santo dos santos do
resto do templo. Ou seja, separava Deus dos Seus