filhos. E só se obtinha o perdão de Deus quando no Yom
Kippur o sumo sacerdote cruzava a cortina e entrava na
câmara para sacrificar um cordeiro. Mas ao morrer Jesus
tornou-se o cordeiro de Deus. Quando Marcos diz que a
cortina se rasgou logo que Jesus morreu, está a afirmar
que nesse instante deixou de haver separação entre Deus
e os Seus filhos. A destruição da cortina significa que
Deus se tornou directamente acessível, e não apenas
através dos sacrifícios no Templo. A morte de Jesus
trouxe a expiação a toda a humanidade.”
As portas dos quartos estavam a dez metros e os dois
dirigiram-se a elas. Valentina caminhava, mas ainda não
fechara a boca.
“A cortina do santo dos santos rasgou-se mesmo?” Tomás
riu-se.
“Claro que não”, respondeu. “Não há registo histórico
de tal coisa. Isto é pura teologia, são os evangelistas
a tentarem extrair um significado judaico da morte
inesperada da pessoa que acreditavam ser o Messias. O
importante é que a morte de Jesus só se compreende num
contexto judaico. E é a interpretação que dessa morte
vai ser feita pelos seus seguidores que traz a primeira
ruptura entre o judaísmo e o cristianismo. Daí que eu
tenha dito que a vida e os ensinamentos de Jesus não
fundaram o cristianismo. Provavelmente nunca lhe passou
pela cabeça criar uma nova religião. Ele era um judeu
até ao mais profundo do seu ser.”
“Nesse caso”, recapitulou ela, “o que concluo é que o
cristianismo não se funda na vida e nos ensinamentos de
Jesus.”
“Pois não. Funda-se na sua morte.”
Chegaram diante da porta do quarto de Valentina. A
italiana retirou da mala o cartão de plástico que
servia de chave e inseriu-o na fechadura. A porta
abriu-se e, antes de entrar, ela olhou para trás.
“Tudo isso é realmente muito interessante”, disse. “Mas
agora vou arranjar-me. Encontramo-nos daqui a quinze
minutos no restaurante?”
“Sim”, confirmou o historiador. “O nosso amigo da
polícia israelita está à espera no The Arabesque.”
“Então até já.”
Tomás pôs o braço sobre a aduela da porta e o seu rosto
esboçou uma expressão maliciosa.
“Não me convida a entrar?”
A italiana ia a fechar a porta, mas travou o movimento
e reprimiu um sorriso.
“Está a ver o meu quarto?”, perguntou, indicando com o
polegar o interior do compartimento atrás dela. “É o
santo dos santos.” Acariciou a porta. “Isto é a
cortina.” Apontou-lhe o indicador para o meio do peito.
“Que eu saiba, você não é o sumo sacerdote, pois não?
Portanto, tenha juízo!”
O português fez uma expressão de cachorro abandonado e
voltou-se para se ir embora, mas ainda lhe lançou um
derradeiro olhar por cima do ombro.
“Vista qualquer coisa bonita”, sugeriu com um sorriso
conformado. “E sexy.”
Valentina fingiu-se ofendida.
“Oh! Que parvo!”
E bateu com a porta.
XXXIX
O quarto estava escuro e Tomás, logo que fechou a
porta, tacteou a parede até localizar e carregar no
interruptor da iluminação. Houve um clique, mas a luz
não se acendeu.
“Porra!”
Foi um murmúrio de frustração. Tinha-se esquecido de
inserir a chave do quarto no interruptor; enquanto não
o fizesse, permaneceria às escuras. Às apalpadelas na
treva, o historiador identificou de novo o interruptor
e lá inseriu a chave. Como no Génesis bíblico, fez-se
luz.
Um homem.
A primeira coisa que Tomás viu foi um homem parado
diante dele. Deu um salto de susto e recuou um passo,
encostando-se à porta. Só então viu o rosto do homem.
Era ele próprio. Ou melhor, a imagem dele reflectida no
espelho pregado diante da entrada.
“Ufa!”, desabafou. O coração batia-lhe no peito com a
força do rufar de um tambor. “Que cagaço!” Olhou de
novo para o espelho e riu-se da sua figura, o corpo
espremido contra a porta de entrada como um animal
encurralado. “Caraças, ando nervoso!...”
Endireitou-se e entrou no quarto de banho para urinar,
mas, confiando que a iluminação do quarto servia
perfeitamente, não acendeu a luz. Arrependeu-se, porque
a iluminação era insuficiente e o pequeno compartimento
estava mergulhado na sombra mais completa. Teve
preguiça de voltar atrás, até porque se sentia aflito,
e preferiu procurar a sanita às apalpadelas.
Fez pontaria para o sítio onde presumia que fosse o
centro da retrete; o som gorgolejante do líquido a cair
no líquido indicou-lhe que estava a acertar em cheio no
alvo. Quando terminou puxou o autoclismo e, ainda às
escuras, foi lavar-se. Abriu a torneira e mergulhou as
mãos na água fresca.
Nesse instante sentiu uma presença atrás dele.
“O que é isto?”, perguntou, voltando-se para trás com
um movimento brusco. “Quem está aí?”
Ninguém respondeu.
Alarmado e com o coração aos pulos, Tomás deu um salto
para a porta e carregou por fim no interruptor. Acto
contínuo a luz acendeu-se e revelou o quarto de banho.
Estava deserto.
O historiador respirou fundo.
“Olhem-me para isto!”, murmurou, entre o irritado e o
aliviado. “Pareço um puto, que diabo!” Abanou a cabeça.
“Este caso está a dar-me cabo dos nervos!...”
Saiu para o quarto e foi escolher a roupa que ia vestir
para o jantar. Dirigiu-se ao roupeiro e abriu-o com um
movimento rápido. A maior parte do móvel permanecia
mergulhada na escuridão, mas nem fez caso. Havia três
peças de roupa penduradas nos cabides e escolheu um
blazer azul-escuro.
Queria impressionar Valentina e achou que, para a
noite, o blazer lhe acentuaria o charme mediterrânico.
Além do mais, usaria uma gravata verde que condizia bem
com os seus olhos. A italiana não lhe resistiria. Claro
que tinha de se moderar na forma cruel como dissecava o
Novo Testamento. Católica como ela era, aquilo não lhe
caía nada bem. Mas, em boa verdade, que podia ele
fazer? Mentir? Dourar a pílula? Não tinha nascido para
diplomata e acreditava que a verdade era para abraçar
como uma mulher que se entrega. Nua. E quanto mais crua
mais verdadeira.
Tirou o blazer e a gravata do roupeiro e depois virou-
-se para a camisa. Escolheu uma branca de seda, mas
constatou que as mangas não tinham botões. Depositou as
peças de roupa nas costas do sofá, tendo o cuidado de
não as amarrotar, e dirigiu-se à mesinha-de-cabeceira.
Tinha ideia de ter ali guardado os botões de punho que
o senhor Castro, velho amigo da loja que frequentava na
Avenida da Liberdade, lhe havia oferecido pelo Natal.
Pôs a mão na gaveta para a abrir, mas a sua atenção foi
desviada para um papel pousado ao pé do candeeiro da
mesinha.