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o senhor Castro, velho amigo da loja que frequentava na

Avenida da Liberdade, lhe havia oferecido pelo Natal.

Pôs a mão na gaveta para a abrir, mas a sua atenção foi

desviada para um papel pousado ao pé do candeeiro da

mesinha.

“Que é isto?”

Não se lembrava de ter ali deixado qualquer papel.

Seria um recado dos funcionários da limpeza? Ou talvez

se tratasse de uma mensagem que a recepção lhe fizera

chegar ao quarto na sua ausência. Pegou no papel e

contemplou o seu conteúdo.

O que viu deixou-o de olhos arregalados.

“Veritatem dies aperit?”, interrogou-se. “Mas o que

raio vem a ser isto?”

Lançou um longo olhar perscrutador à mensagem, tentando

apreender o seu significado. Percebeu que havia algo de

estranhamente familiar e perturbador naquele papel. Mas

o quê? O mecanismo de raciocínio foi lento e rápido,

lento porque durou dois longos segundos, rápido porque

em apenas dois segundos caiu em si e compreendeu enfim

o que segurava nas mãos. Era um enigma semelhante a

outros que havia interpretado nos últimos tempos para a

polícia e que tinham sido encontrados junto a

cadáveres. Os enigmas dos sicarii.

Foi nesse instante que a cama pareceu levantar-se. Uma

figura de negro ergueu-se repentinamente dos lençóis,

como uma mola gigante a soltar-se do colchão, e saltou

de braços abertos para cima de Tomás.

“ímpio!”

O historiador sentiu primeiro o embate do desconhecido.

Perdeu o equilíbrio e bateu com as costas na parede,

estatelando-se no chão e derrubando um móvel. Uma jarra

tombou, estilhaçando-se com fragor no empedrado do

quarto.

A segunda coisa que sentiu, já estendido sobre o solo

frio e duro, foi o peso e a agilidade do assaltante. O

desconhecido enrodilhou-se na sua vítima como uma rede

elástica. Tomás tentou libertar-se, mas o homem era de

uma maleabilidade espantosa e conseguiu prender-lhe os

movimentos. Como se estivesse envolvido numa camisa-de-

-forças, o historiador apercebeu-se de que já nem se

conseguia mexer.

“Oiça”, disse, tentando naquelas circunstâncias parecer

o mais razoável possível. “Vamos conversar.”

O assaltante tinha-o bem preso, as costas para baixo e

a face voltada para o chão de pedra gelada. Tomás não o

conseguia ver, mas sentiu-lhe o calor da respiração

sobre a nuca.

“Já alguma vez sonhaste com o riso da morte?”,

perguntou o homem que o dominava, com uma voz baixa e

rouca. “Ou preferes conversar na antecâmara do

Inferno?”

O tom era intenso, quase fanático, mas o facto de o

desconhecido falar, mesmo que apenas para dizer coisas

estranhas, pareceu-lhe vagamente encorajador. Quem sabe

se o conseguiria convencer a largá-lo? Não que isso lhe

parecesse provável, sobretudo à luz dos três cadáveres

que aquele assassino deixara no seu rasto, mas valia a

pena tentar. No fim de contas, que tinha a perder?

A vida?

“Não há necessidade de violência”, murmurou, num

registo tão sereno que ele próprio ficou surpreendido.

“Diga-me o que pretende e estou certo de que poderemos

chegar a um entendimento.”

Ouviu uma gargalhada baixa atrás dele.

“Diz-me”, soprou-lhe o desconhecido ao ouvido. “Que

tentações me embriagam a transcendência da alma?”

“Não sei.” Forçou-se a si próprio a rir, de modo a

esconder o medo que lhe ateava o sangue e estrangulava

a voz. “Dinheiro não deve ser...”

Uma nova gargalhada sussurrada chegou-lhe aos ouvidos.

“Quero um cordeiro.”

Tomás sentiu o coração apertar-se-lhe. Considerando as

circunstâncias, não era o que mais gostaria de ouvir.

“Um... um cordeiro?”

“Sim, um cordeiro”, confirmou a voz baixa e rouca.

“Pequei e tenho de expiar os meus pecados. O sacrifício

de um cordeiro reconciliar-me-á com o Senhor.” O

desconhecido voltou a aproximar os lábios da orelha

direita da sua vítima. “Disseram-me que tens carne

tenra de bom cordeiro...” A situação estava a agravar-

se.

“Oiça, tenha calma”, implorou o historiador, sentindo o

tempo fugir-lhe. “Isso dos cordeiros são histórias

antigas que já não...”

“Histórias antigas?”, rugiu o agressor, a fúria a

irromper-lhe de repente na voz. “Como te atreves?”

“Tenha calma!”

O historiador sentiu um movimento rápido do homem por

cima dele e logo a seguir viu uma adaga de lâmina curva

diante dos olhos. Era o desconhecido que a exibia.

“E isto? Achas que é uma história antiga?”

A lâmina era enorme e reluzia como cristal, reflectindo

com mil brilhos a iluminação do quarto.

“Afaste isso”, pediu. “Alguém ainda se pode magoar!...”

O agressor soltou uma gargalhada, desta feita sonora e

aberta, e aproximou-lhe a lâmina dos olhos.

“Estás a ver esta adaga?”

“Demasiado bem. Não a pode afastar um bocadinho? Só um

bocadinho...”

“Tem dois mil anos”, sussurrou, ameaçador. “Foi usada

pelos meus antepassados para os sacrifícios do Yom

Kippur. Depois foi usada para enfrentar os legionários

pagãos.” Fez uma pausa. “Estou agora a usá-la para

resgatar de novo o meu povo. E tu, pobre criatura

tresmalhada, não passas de um cordeiro. O cordeiro que

Deus me entregou para expiar os pecados do meu povo.”

Logo que acabou de proferir a frase, o assaltante pegou

na adaga de outra forma, passando a segurá-la de uma

maneira muito agressiva. Tomás percebeu nesse instante

que o homem se preparava para a usar e que só dispunha

de alguns segundos para reagir.

“Socorro!”, gritou.

Ao mesmo tempo, sacudiu o corpo com violência. O

desconhecido desequilibrou-se por um momento e Tomás

sentiu de repente alguma liberdade de movimentos.

Tentou explorá-la para se libertar totalmente, mas o

agressor recompôs-se e voltou a prendê-lo com firmeza.

“Morre, cordeiro!”

Assentou a faca no pescoço da sua vítima e fez força.

Tomás sentiu a lâmina picar-lhe a pele pela parte

lateral do pescoço, junto às veias, e entrou em pânico.

Como um animal encurralado, fez um esforço titânico e

conseguiu libertar a mão direita. A adaga já lhe

rasgava a pele do pescoço e a dor aguda cegava-o, pelo

que deitou a mão à lâmina e agarrou-a com força,

travando a sua progressão.

“Larga-me!”

O assaltante pareceu ter sido apanhado de surpresa por

aquele movimento. Tomás conseguiu afastar a adaga do

pescoço, mas registou uma desagradável sensação de frio