na palma da mão. Pelo canto do olho viu sangue a
escorrer-lhe pelo braço e percebeu que a lâmina lhe
rasgava a mão direita. Teve uma vontade quase
irresistível de largar a adaga e proteger a mão ferida,
mas o instinto combateu essa vontade. Era melhor ter a
mão rasgada do que o pescoço.
O agressor reagiu mais uma vez. Conseguiu arrancar-lhe
a adaga e, com um jeito do corpo, imobilizou-lhe de
novo o braço direito. Com a vítima enfim dominada,
voltou a colar a ponta da lâmina à parte lateral do
pescoço e fez força. Não demasiada, para não efectuar
um corte rápido, mas o suficiente para a lâmina romper
a pele e Tomás perceber que estava perdido.
A vítima contorceu-se num último esforço, rodopiando e
dando uma cotovelada com o braço esquerdo no agressor.
O desconhecido gemeu, mas manteve o colete-de-forças
bem apertado.
“Dá um abraço a Belzebu!”
E fez força.
XL
O primeiro encontrão abanou a porta, mas ela não cedeu.
Logo a seguir veio o segundo, acompanhado por um
estrondo ainda maior. A porta manteve-se, porém,
trancada, resistindo à violência dos embates.
“Abram!”, gritou uma voz do outro lado. “Polícia!”
Sicarius mantinha a vítima presa entre os seus braços,
mas interrompeu os movimentos cirúrgicos da adaga. A
lâmina estava ensanguentada e da sua ponta pingavam
espessas gotas de um vermelho-vivo. Sem hesitar, como
se tivesse ensaiado já mil vezes aquele gesto, limpou-a
rapidamente às calças de Tomás, manchando-as de sangue.
Percebendo que a todo o momento a porta iria rebentar,
deu um salto e pôs-se de pé.
Soou um tiro.
O assaltante correu pelo quarto em direcção à varanda.
Escutou um segundo tiro atrás dele, ouviu um estrondo
surdo e percebeu que a porta havia sido derrubada, mas
nem olhou para trás; não valia a pena, sabia muito bem
que passara a ser um alvo.
“Alto!”, gritou a voz feminina atrás dele. “Não se
mexa!”
Por esta altura Sicarius estava na varanda e atirava-se
para os arbustos que decoravam o jardim nas traseiras
do quarto. Ouviu um novo disparo de pistola e o zumbido
da bala cortou o ar por cima dele, mas havia já
mergulhado na sombra do jardim e sabia-se em segurança.
De pistola em riste, Valentina viu o corpo de Tomás
tombado no chão, à esquerda, e hesitou um segundo.
Deveria
dar
caça
ao
assaltante
ou
socorrer
o
historiador?
“Tomás?”, chamou. “Tomás?!”
O português não respondeu e a inspectora da Polizia
Giudiziaria
sentiu-se
desfalecer.
Teria
chegado
demasiado tarde? Com a angústia a secar-lhe a boca,
correu para o corpo e inclinou-se sobre ele. Havia
sangue por todo o lado, parecia que estava num talho.
“Ah, Dio mio!”, exclamou, aflita, quase sem saber o que
fazer. “Tomás?” Viu-lhe a ferida no pescoço e sentiu um
aperto no coração. “Oh, não!” Sacudiu-o, tentando
reanimá-lo. “Tomás?! Por amor de Deus, responda!”
Pegou-lhe na mão direita para sentir a pulsação, mas
apercebeu-se que a palma ensanguentada se encontrava
rasgada com cortes sucessivos e vacilou. Estava
habituada a deparar-se com cenas daquelas no decurso do
seu trabalho de polícia, mas jamais envolvendo uma
pessoa que conhecia, e sobretudo de quem gostava.
“Tomás!”
A cabeça do historiador mexeu-se e ouviu-se um gemido.
“Ai...”
A italiana caiu-lhe em cima e abraçou-o, o alívio a
enchê-la como um banho retemperador, as lágrimas a
escorrerem-lhe pela face pálida e delicada.
“Ah, Tomás!...”, murmurou, apertando-se a ele e
sentindo-lhe o corpo de homem a estremecer. “Graças a
Deus! Graças a Deus! Tive tanto, tanto medo!”
O português voltou-se a custo, com cuidado para não se
magoar nem afastar a mulher que o abraçava, e encarou-a
por fim.
“Sempre imaginei que você acabaria por me cair nos
braços”, disse, esforçando-se por sorrir. “Mas não
calculava que fosse tão depressa.”
Desta vez ela riu-se.
“Que parvo!”, exclamou. “Ia morrendo de susto. Pensei
que tinha chegado tarde de mais...”
O ferido afastou ligeiramente a cabeça, de modo a
ganhar ângulo de visão, e contemplou a mulher debruçada
sobre ele. Valentina estava seminua, apenas de
calcinhas e soutien. Tudo o resto era pele branca e
desnudada, com formas esculturais que os vestidos
normalmente só deixavam adivinhar.
“Ena!”, admirou-se Tomás. “Eu sei que lhe pedi que
vestisse uma coisa sexy, mas você levou a coisa mesmo a
sério, hem?” A italiana, que lhe afagava os cabelos com
ternura, corou e apartou-se dele, pondo as mãos diante
do soutien para melhor esconder os seios.
“Oh, não goze!”, pediu. “Você está bem?”
O português fez um esgar de dor.
“Tenho a mão a arder e esta ferida no pescoço também
não ajuda, mas acho que o tipo não conseguiu degolar-
-me.” Passeou os olhos pelo corpo dela. “Explique-me lá
esses seus preparos!...”
Ela pôs-se em pé e, sentindo-se desconfortável com a
sua quase nudez, recuou até desaparecer no quarto de
banho.
“Estava a mudar de roupa quando recebi a chamada do
Grossman”, explicou. “Parece que alguém telefonou à
polícia israelita a avisar que você corria perigo de
vida.” Ouvia-se apenas a voz dela a falar do quarto de
banho. “Ele ligou-me e... enfim, não tive tempo de me
vestir.”
“Alguém telefonou à polícia? Quem?”
A italiana reapareceu envolta numa toalha do hotel e
com uma outra na mão, que acabara de molhar na torneira
do lavatório.
“Sei lá”, disse ela, aproximando-se. “Como deve
calcular, no meio daquela confusão não tive tempo de
fazer perguntas.” Ajoelhou-se ao pé dele e começou a
limpar-lhe a ferida no pescoço com a toalha molhada.
“Vim para aqui a correr.”
“Sozinha?”
Ela indicou uma pistola pousada sobre a cama.
“Trouxe a minha Beretta.”
Tomás esticou o pescoço para facilitar a limpeza.
“Que pena não ter recebido esse telefonema a meio do
banho”, observou. “Assim apareceria aqui ainda mais
bonita!...”
Valentina lavou a ferida do pescoço e voltou-se de
seguida para a mão direita, onde, apesar do sangue,
eram visíveis vários cortes.
“Que tonto me saiu!”, repreendeu-o com doçura. “Estou
aqui mortalmente preocupada consigo e você só pensa
em... enfim, só pensa nisso.”