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Ouviram-se sirenes a soar no exterior e nesse instante

o enorme perfil de Arnie Grossman surgiu recortado à

entrada do quarto. Trazia uma pistola na mão e atrás

dele vinha um polícia fardado com uma Uzi em riste,

preparada para disparar.

“Então?”, perguntou o polícia israelita, dardejando o

olhar atento em todas as direcções, como se buscasse

ameaças escondidas. “Está tudo bem?”

Valentina nem olhou para trás, preferindo manter-se

ajoelhada junto a Tomás a limpar-lhe as feridas que lhe

rasgavam a palma da mão direita.

“Porque levou tanto tempo?”, quis ela saber.

Grossman

aproximou-se

dos

dois

enquanto

o

seu

subordinado inspeccionava o quarto.

“Chamei reforços e enquanto eles não vinham fui para as

traseiras tentar interceptar o suspeito”, respondeu.

“Mas acho que cheguei tarde de mais. Ele já tinha

fugido.” Inclinou-se diante de Tomás e observou-lhe o

pescoço ferido. “Ui, isso está feio. Dói-lhe?”

O português esboçou um esgar de sofrimento.

“Não, é muito agradável”, ironizou. “Claro que dói! Já

experimentou espetar uma faca no pescoço? Olhe que é

coisa para estragar a tarde a uma pessoa!...”

O polícia manteve os olhos presos na ferida do pescoço.

“Pelos vistos o alerta foi dado mesmo a tempo, hem? Um

minuto mais tarde e...”

“Quem deu o alerta?”

“Foi uma chamada anónima recebida na central. Avisaram

o meu departamento, que me avisou a mim.”

“E porque não veio de imediato?”

Grossman corou e desviou o olhar, esboçando a expressão

de alguém comprometido.

“É que eu nessa altura estava... enfim, estava na

retrete do quarto de banho do The Arabesque”, disse em

voz baixa, quase num sussurro. Passada a revelação

embaraçosa, encarou o ferido. “Não tinha modo de sair

dali a correr naqueles preparos, não é verdade? Já viu

o espectáculo que seria?” Fez um gesto a indicar

Valentina. “Como sabia que a senhora Ferro se

encontrava alojada no quarto mesmo ao lado do seu,

liguei-lhe de imediato.”

A italiana alçou o olhar para o colega israelita

plantado atrás dela.

“Também me apanhou nuns lindos preparos, sim senhor”,

disse, fazendo um gesto para si mesma. “Só que eu, ao

contrário de si, não me preocupei com isso. Vim como

estava.”

“Ah, mas os seus preparos são muito melhores que os

meus”, retorquiu Grossman, quase empertigado. “No meu

caso era mesmo muito embaraçoso!”

Valentina não respondeu. Em vez disso, ajudou o

português a levantar-se, o que ele fez com visível

dificuldade. Ainda envolta na toalha que lhe escondia

as formas, a italiana certificou-se de que o ferido se

encontrava bem e depois pegou na pistola que deixara

pousada sobre a cama e deu meia volta, dirigindo-se com

passo decidido para a saída.

“Vou ao meu quarto”, anunciou, acenando já de costas.

“Tenho de me pôr apresentável.”

Desapareceu para lá da porta escancarada e Tomás ficou

a sós com os dois polícias israelitas, Grossman e o

homem fardado que vigiava a varanda.

“Que estão vocês a fazer para apanhar o tipo?”

O inspector-chefe esboçou um gesto na direcção da

janela e do que estava para lá dela.

“Isolámos o quarteirão e estamos a passar tudo a pente

fino”, explicou. “Mas, se quer que seja sincero, não me

parece que ele se deixe apanhar. O nosso homem teve

tempo mais do que suficiente para se pôr a salvo. A

esta hora já está do outro lado da cidade ou fugiu para

Ramallah, Belém ou Telavive.”

“Também me parece.”

Grossman apontou-lhe para a ferida na parte lateral do

pescoço.

“Você é que esteve bem pertinho dele. Como é o

sujeito?” Tomás indicou com a mão uma altura quatro

dedos mais baixa que a sua.

“Tem para aí esta estatura”, indicou. “É ágil e magro,

mas forte. Deve ter treino militar. Imobilizou-me de

uma maneira incrível, parecia que me tinham metido numa

jaula. Os braços dele eram de ferro.”

“E a cara?”

“Mal a vi. O gajo apanhou-me de surpresa e pôs-me de

cabeça para baixo, de maneira que não consegui vê-lo.

Apercebi-me apenas de que estava todo vestido de negro

e tinha o cabelo cortado à escovinha, como um soldado.”

Estremeceu. “Um tipo sinistro.”

“Disse-lhe alguma coisa?”

O português assentiu.

“Chamou-me cordeiro e informou-me que eu lhe tinha sido

indicado

para

sacrifício

de

expiação.”

Reviu

mentalmente as imagens gravadas na sua memória. “Houve

um pormenor curioso. Ele tinha uma adaga ritual.

Afirmou que foi usada pelos seus antepassados nos

sacrifícios do Yom Kippur e para matar legionários

pagãos.”

“Legionários?”, admirou-se o polícia israelita. “Isso é

uma referência evidente à grande revolta de há dois mil

anos, que conduziu à destruição de Jerusalém e à

expulsão dos judeus da Terra Santa.”

“É evidente. E sabe qual foi um dos grupos de judeus

mais activos nessa revolta, não sabe?”

Grossman estreitou as pálpebras.

“Os sicarii.”

Fez-se um silêncio súbito no quarto enquanto ambos

digeriam o significado daquela conclusão. A pausa foi

interrompida nesse instante por dois homens de bata

branca que entraram no quarto com uma maca e o ar

apressado de quem tinha uma missão a cumprir.

“O morto?”, quiseram saber.

Grossman sorriu e indicou Tomás.

“Está aqui”, disse. “Mas como ele é cristão e estamos

em Jerusalém, o cadáver pelos vistos já ressuscitou.”

Os

recém-chegados

pareceram

ficar

momentaneamente

decepcionados perante a visão da vítima a olhar para

eles, mas logo animaram quando se aperceberam das

feridas no pescoço e na mão direita do português. A

deslocação não tinha sido em vão.

“Isso tem de ser visto”, disse de imediato o paramédico

que parecia liderar o duo. “Vamos levá-lo para o

hospital para tratar essas feridas. Venha daí!”

O homem da bata branca puxou Tomás pelo braço, mas o

ferido libertou-se com um gesto seco e brusco.

“É só um momento.”

“Onde vai?”, admirou-se o paramédico. “A ambulância

está lá fora à espera...”

O historiador foi até à mesinha-de-cabeceira e pegou no

papel pousado junto à base do pequeno candeeiro.

Verificou que se tratava do que procurava e voltou para

junto de Arnie Grossman.

“O nosso homem deixou-nos mais uma mensagem.”