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O polícia israelita pegou no papel e leu a charada

rabiscada a tinta negra.

“Veritatem dies aperit” admirou-se, levantando os olhos

para o seu interlocutor. “O que raio vem a ser isto?”

“É latim.”

“Que é latim já eu percebi! Mas o que significa?”

Os paramédicos voltaram a puxar Tomás pelo braço e

desta vez ele não resistiu. Deixou-se arrastar até à

porta, mas antes de desaparecer no exterior lançou um

último olhar a Grossman, que ainda aguardava a resposta

à sua pergunta. “O tempo revela a verdade.”

XLI

Da boca dos actores que interagiam no ecrã do televisor

jorrava um dramalhão com sotaque carioca; era uma

novela brasileira transmitida pela televisão israelita.

Tomás estava estendido na cama do Hospital Bikur Holim

com um grande penso colado ao pescoço e a mão

engessada, mas seguia com curiosidade divertida o

diálogo legendado em hebraico entre duas beldades

tropicais na praia de Ipanema.

Foi nessa postura descontraída que Valentina e Grossman

o surpreenderam.

“Então como vai o nosso cordeiro?”, gracejou a italiana

ao entrar no quarto. “Preparado para a matança?”

Não perdeu pela demora.

“Eu posso ser o cordeiro”, retorquiu ele com ar

malicioso, “mas quem me apareceu toda tosquiadinha no

quarto foi você!...”

Valentina fez beicinho.

“Oh, já não se pode brincar!”

O inspector-chefe da polícia israelita fez hmm-hmm,

como se lhes pedisse que se contivessem na sua

presença.

“Como eu calculava, não apanhámos o homem”, anunciou.

“Revistámos o quarteirão inteiro, mas não lhe demos com

o rasto.” Consultou um bloco de notas. “Identificámos,

porém, a origem do telefonema anónimo que recebemos na

central. Era de uma cabina pública.” Vasculhou no bolso

e extraiu o papel encontrado na mesinha-de-cabeceira do

quarto. “A única coisa que nos resta é o enigma que o

tipo deixou.” Estendeu o papel para Tomás, que pegou

nele com a mão boa.

“Quer que o decifre?”

Grossman forçou um sorriso.

“É a sua especialidade, creio eu.”

O historiador respirou fundo e pousou os olhos na

charada, estudando-a demoradamente.

“A primeira coisa a notar é que este enigma é algo

diferente daqueles que encontrámos no Vaticano, em

Dublin e em Plovdiv.”

“Diferente?”, admirou-se Valentina, que por esta altura

conhecia já as outras charadas de cor. “Diferente

como?” Tomás apontou para a frase em latim.

“Isto é uma citação de Séneca”, disse. “Remete-nos para

a verdade.”

“E então?”

“Os outros enigmas, se bem se lembra, não apontavam

para

a

verdade”,

explicou.

“Apontavam

para

falsificações e fraudes introduzidas ao longo do tempo

no Novo Testamento.”

“Ah, sim!”, exclamou Grossman. “O que nos leva àquela

pergunta que lhe fiz e a que você ainda não me

respondeu: porque quereriam os sicarii chamar a atenção

para essas fraudes?”

“Não fiz outra coisa senão explicar isso”, retorquiu o

historiador. “Os sicarii são, como sabe, um movimento

judaico zelota. Com os anteriores enigmas queriam

evidentemente mostrar que o Novo Testamento, longe de

revelar o verdadeiro Jesus, o esconde. É preciso

cortarmos as fraudes e as falsificações e a retórica

dos evangelistas para podermos perceber quem era o

verdadeiro Jesus. O Messias dos cristãos não passava de

um judeu conservador.” Ergueu um dedo, para acentuar a

ideia que ia expor. “Um judeu tão judeu como os

sicarii.”

“Era esse o objectivo dos três primeiros enigmas?”

Tomás aquiesceu com a cabeça.

“Na minha opinião, sim.”

Valentina apontou para a nova charada que ele tinha na

mão.

“E este?”

“Este é diferente”, sentenciou o historiador. “Os

sicarii já não estão preocupados com expor as

falsidades que constam no Novo Testamento.” Agitou a

pequena folha de papel. “O que está aqui em questão não

é a mentira, mas a verdade.”

“A verdade? Qual verdade?”

“A verdade de quem realmente era Jesus.” Baixou os

olhos para o novo enigma. “Isso está aliás implícito

nesta frase de Séneca. Veritatem dies aperit. Ou o

tempo revela a verdade. É pois da verdade que esta

charada trata.”

O inspector-chefe da polícia israelita apontou para o

desenho.

“E este leão? O que significa isto?”

“Não é um leão qualquer”, observou Tomás. “Já reparou

que tem asas?”

Grossman riu-se.

“É então um leão-anjo.”

O historiador abanou negativamente a cabeça, os olhos

ainda presos ao desenho.

“Não, é Marcos.”

“Perdão?”

Tomás estendeu o braço para a mesa ao lado da cama e

abriu a gaveta. Inseriu os dedos no interior e retirou

uma Bíblia pequena e grossa impressa em hebraico e

inglês.

“O Evangelho segundo Marcos começa em 1:3 a falar numa

‘Voz do que brada no deserto’. Esta voz, que é a de

João Baptista, foi comparada ao longo do tempo com o

rugido de um leão. Por isso ficou instituído que o leão

alado é o símbolo de Marcos.”

Os olhos dos dois polícias mantiveram-se presos à

figura desenhada na charada.

“Este leão simboliza Marcos?”

“Exacto.” Indicou os caracteres garatujados a seguir ao

leão. “E este I:XV é, evidentemente, numeração romana.

Indica um determinado versículo que se encontra no

Evangelho segundo Marcos. Um versículo que perdura no

tempo.” Arqueou as sobrancelhas. “O mesmo tempo que

revela a verdade.”

Valentina e Grossman contemplavam, fascinados, o enigma

nas mãos do português.

“Ou seja”, disse a italiana, a excitação a apossar-se-

-lhe da voz, “o que o assassino nos está a dizer é que

a verdade sobre Jesus se encontra inscrita nesse

versículo?”

“Bingo!”, soltou Tomás. “O versículo I:XV. Ou 1:15, na

numeração moderna.”

Os três pares de olhos descaíram quase em simultâneo

para a Bíblia que o historiador tinha na mão.

“Ó homem”, ordenou o israelita, “leia lá esse

versículo!”

Tomás tinha o livro aberto na primeira página do

Evangelho segundo Marcos, onde acabara de ler a

referência à ‘Voz do que brada no deserto’, em 1:3,

pelo que só teve de descer umas linhas e localizar o

versículo 1:15, um pouco mais abaixo.