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“Isto é uma frase de Jesus”, disse, preparando-se para

a ler. “ ‘Completou-se o tempo e o reino de Deus está

perto: Arrependei-vos, e acreditai na Boa Nova.’”

Os dois polícias ficaram um instante à espera da

continuação, mas o português levantou a cabeça e

encarou-os como se não houvesse mais nada para ler.

“E o resto?”, quis saber a italiana. “Onde está o

resto?”

Tomás sorriu, com ar de sonso.

“Não há resto”, disse. “O versículo 1:15 é este.”

De

sobrolho

carregado

e

com

uma

expressão

interrogadora, Valentina atirou um olhar desconfiado

para a Bíblia.

“Isso?”, admirou-se. “É essa a grande verdade sobre

Jesus?” O historiador fez que sim com a cabeça.

“A verdade todinha.”

“Mas o que tem isso de especial? Que grande verdade é

que essa frase tão banal e inócua revela?”

Tomás pegou na Bíblia e mostrou a página aos dois

polícias, como um advogado a apresentar em tribunal uma

prova crucial.

“Este, meus amigos, é um versículo que muitos teólogos

cristãos gostariam de ver apagado para sempre do Novo

Testamento!”

Valentina esboçou uma careta de incredulidade.

“Está a brincar...”

“Minha cara”, disse ele com solenidade. “É esse curto

versículo que encerra a estranha verdade sobre Jesus

Cristo.”

“Não me diga? E qual é?”

O académico português pousou o livro na cama e cruzou

os braços, o olhar a saltar entre Valentina e Grossman,

como um toureiro a escolher qual das bestas iria

provocar.

“O último segredo da Bíblia.”

XLII

O sangue já estava seco na lâmina quando Sicarius

mergulhou a adaga na água e começou a lavá-la. Procedeu

com cuidado, esmero até, ensaboando o metal com

movimentos delicados mas metódicos. A água que escoava

pelo ralo tornou-se avermelhada e o seu rosto não

conteve um leve sorriso; era como se ele fosse Moisés e

tivesse acabado de se purificar com uma das dez pragas

lançadas sobre o Egipto.

‘“Eis o que diz o Senhor: para ficares a saber que Eu

sou o Senhor, vou ferir as águas do rio com a vara que

tenho na mão e transformar-se-ão em sangue’”, murmurou,

recitando de cor as Sagradas Escrituras numa litania

ininterrupta. “‘Sob os olhos do Faraó e sob os olhos

dos seus seguidores, Aarão levantando a vara, feriu as

águas do rio, e todas as águas do rio se transformaram

em sangue. Os peixes do rio morreram, as águas do rio

ficaram infectadas e os egípcios não as podiam beber.

E, em vez de água, só havia sangue por todo o Egipto.

Mas tendo...”’

A água que se escoava pelo ralo deixou de ser vermelha

e Sicarius calou-se. A adaga sagrada fora purificada.

Tirou-a de baixo da torneira e secou-a no tallit, o

manto das orações, de modo a garantir a sua pureza

ritual. Depois foi depositar a sica com todo o cuidado

na mala de couro negro e guardou-a no cofre.

Terminado o ritual da purificação da adaga, Sicarius

pegou no telemóvel. Digitou o número e aguardou. Uma

voz de mulher encheu a linha num tom melífluo, embora

monocórdico.

“O número para o qual ligou não está disponível”, disse

a voz. “Por favor, deixe uma mensagem após o sinal.”

Sicarius

olhou

para

o

aparelho

com

irritação.

“Maldição!”, vociferou. “Onde anda ele?”

Ainda esteve à beira de desligar, a exemplo do que

tinha feito nas três tentativas anteriores, mas

reconsiderou a tempo. O mestre tinha destas coisas,

sabia, contendo o ímpeto. Por vezes desaparecia de

circulação por tempo indeterminado e não deixava rasto.

O melhor, decidiu, era mesmo gravar uma mensagem. O

sinal soou ao telefone e começou a gravação. “Mestre”,

disse, hesitante. Oh, como odiava falar para uma

máquina! “A operação foi concluída com sucesso.” Mais

uma pausa, à procura das palavras certas; era difícil

apresentar um discurso fluido quando não tinha ninguém

do outro lado com quem interagir com perguntas e

respostas. “Conforme as ordens que me enviou por e-

mail, não o matei. Apenas o feri.” Vacilou. Deveria

repreender o mestre pelo seu atraso? Sim, no fim de

contas a única coisa que não correra a cem por cento

fora por responsabilidade dele. Porque não deixar-lhe

um remoque sobre o assunto? “A intervenção da polícia

foi um pouco tardia e tive de fazer tempo.” Suspirou.

“Mas enfim, já está.” Uma última pausa. “Aguardo

instruções.” Desligou.

XLIII

Embora Tomás permanecesse deitado na cama do hospital,

a sua atenção deambulou pelo quarto até recair nos

olhos pálidos de Arnie Grossman. Os polícias queriam

perceber a mensagem que o agressor lhe deixara no

quarto do hotel? Pois ele não os iria decepcionar.

“Diga-me uma coisa”, perguntou de chofre. “Qual a

natureza da aliança estabelecida entre Deus e o povo

judaico?”

Apanhado de surpresa pela interpelação, o inspector-

chefe da polícia israelita pestanejou.

“Bem... Deus deu-nos as tábuas da lei”, titubeou.

“Escolheu-nos como o Seu povo e concedeu-nos a Sua

protecção, em troca do nosso respeito pela Sua lei.”

“Se assim é, como explica a destruição do Templo em 70

e as sucessivas perseguições dos judeus, como a

escravidão na Babilónia, a expulsão da Terra Santa e o

Holocausto? Não é afinal Deus que vos garante a Sua

protecção? Como é possível que tanta coisa má vos tenha

sucedido ao longo da história se contam com o favor

divino?”

Confrontado com o paradoxo, Grossman coçou a cabeça

enquanto arquitectava uma resposta.

“Os nossos antigos profetas dizem que o mal sofrido por

Israel resulta da desobediência dos judeus ao Senhor”,

retorquiu por fim. “São os nossos pecados que levam

Deus a punir-nos. Segundo os profetas, se nos tornarmos

devotos, se cumprirmos fielmente a lei e regressarmos

ao caminho do Senhor, Israel renascerá em todo o seu

esplendor.” “Ou seja, o sofrimento é um castigo divino

pelos pecados cometidos pelos judeus.”

“É o que dizem os nossos profetas.”

Tomás lançou um olhar pela janela aos candeeiros

públicos que iluminavam a rua e os edifícios fronteiros

ao hospital, mas foi apenas por um momento, porque logo

a seguir voltou a encarar os dois polícias que o tinham

ido visitar.

“Essa é a explicação tradicional do sofrimento do povo

judaico”, confirmou. “Acontece que, na altura da