revolta dos Macabeus, a repressão intensificou-se e os
judeus foram até proibidos pelos seus opressores de
respeitar a lei. Quem desobedecesse era morto. Essa
proibição criou a convicção entre muitos judeus de que
o seu sofrimento não podia ser explicado como um
castigo de Deus pelos seus pecados. Pois se nem sequer
lhes permitiam respeitar a lei! Por outro lado, e por
mais pias e zelosas no respeito da lei que as pessoas
fossem, continuava a haver sofrimento. A que se devia
isso? Apareceu então uma nova explicação: não era Deus
quem estava a fazer sofrer as pessoas; era o Diabo. O
exílio na Babilónia tinha introduzido na cultura
hebraica a figura de Baalzevuv, ou Belzebu, a quem, com
o tempo, foi atribuído todo o mal do mundo. O Diabo
tomara conta da Terra e era ele o responsável por todo
o sofrimento.”
“Então e Deus?”
“Estava no Céu”, explicou o historiador, apontando para
cima. “Por qualquer razão não muito bem compreendida, o
Senhor permitia que Belzebu reinasse no mundo e fizesse
todo o mal que qualquer ser humano experimentava na
pele ou via em redor. Muitos judeus, embora não todos,
adoptaram assim uma visão maniqueísta da vida, fundada
neste dualismo entre o bem e o mal. Deus liderava as
forças do bem, tinha do seu lado a virtude e a vida, o
bem-estar e a verdade, a luz e os anjos. Belzebu
encabeçava as forças do mal, tinha do seu lado o pecado
e a morte, o sofrimento e a mentira, a treva e os
demónios. Estas duas grandes forças cósmicas submetiam
os seres humanos à sua vontade e as pessoas tinham de
escolher um lado. Ou estavam com Deus ou estavam com o
Diabo. Não havia terra-de-ninguém.” Tomás fez uma pausa
e arregalou os olhos. “Mas, atenção, isso não ia durar
para sempre. O dia chegaria em que Deus desceria à
Terra, destruiria as forças do mal e imporia o seu
reino. Que reino é esse?”
Os olhos de Arnie Grossman estreitaram-se ao reconhecer
a expressão.
“O reino de Deus.”
“Nem mais”, confirmou Tomás. “Algumas seitas judaicas
começaram a acreditar que este dualismo entre o bem e o
mal se estendia também no tempo. O dualismo tornou-se
assim apocalíptico. Nos dias que se viviam imperava o
reino de Belzebu e era isso que explicava a existência
de tanto mal e de tanto sofrimento na Terra. O mundo
vivia mergulhado no reino do Diabo, onde quem mandava
eram os pecadores e os corruptos, aliados de Belzebu.
Os justos e os virtuosos eram reprimidos. Porém, no
final
desta
idade do
mal ocorreria um
grande
acontecimento cataclísmico. Uns achavam que Deus
enviaria um Messias para chefiar a batalha contra o
mal, outros pensavam que o enviado seria uma outra
figura, a quem as Escrituras chamavam o Filho do homem.
Daniel descreveu em 7:13-14 esta visão profética: ‘Vi
aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante
a um Filho do homem. Avançou até ao ancião, diante do
qual o conduziram. Foram-lhe dadas soberanias, glória e
realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de
todas as línguas o serviram. O Seu império é um império
eterno que não passará jamais, e o Seu reino nunca será
destruído.’ Ou seja, na profecia de Daniel o agente de
Deus que viria estabelecer o Seu reino eterno é este
Filho do homem. Mas, fosse através do Messias fosse do
Filho do homem, o facto é que Deus interviria no mundo,
aniquilaria as forças do mal e instalar-se-ia na Terra.
Os mortos seriam ressuscitados e todos os seres humanos
seriam julgados.”
O polícia israelita reconheceu aqui uma das mais
importantes profecias das Escrituras.
“O dia do juízo final.”
“Isso. Depois desse grande julgamento começaria uma
nova era, em que não haveria dor nem sofrimento, não
haveria fome nem guerra, não haveria ódio nem
desespero, e o Senhor reinaria. O reino de Deus.”
Valentina escutou tudo em silêncio, mas já começava a
sentir-se impaciente. Tinha na mão a folha com o enigma
e, aproveitando a pausa, mostrou-a ao historiador.
“Tudo isso é muito bonito”, disse. “Mas qual a
relevância do que está a contar para entender esta
charada?”
Tomás abriu a Bíblia que tinha pousada na cama.
“Não é evidente?”, perguntou. “Esse enigma remete-nos
para o Evangelho segundo Marcos, versículo 1:15. Vou só
reler a frase de Jesus que está citada nesse
versículo.” Afinou a voz. ‘“Completou-se o tempo e o
reino de Deus está perto: Arrependei-vos, e acreditai
na boa nova.’”
Fez-se um súbito silêncio no quarto do hospital. A
frase de Jesus era digerida em todas as suas
implicações e ramificações.
“‘Completou-se o tempo e o reino de Deus está perto’?”,
repetiu Valentina, tentando extrair um sentido do que
acabara de escutar. “Está a insinuar que Jesus disse
que se completou o tempo de Belzebu e que Deus iria
instituir o seu reino?” Tomás apontou para o versículo.
“É o que está escrito nesta frase, não é?”
“Mas... mas o que quer isso dizer?”
O historiador cravou os olhos na italiana.
“Não é evidente?”, perguntou em tom retórico. “Jesus
era um pregador apocalíptico!” Fez um sinal para a
janela. “Nunca viu lá fora, na rua, aqueles maluquinhos
com grandes barbas e cartazes a dizer Arrependam-se! O
fim está próximo! e outras baboseiras do género? Nunca
viu?” Indicou o pequeno crucifixo de prata ao pescoço
dela. “Pois Jesus era um desses pregadores!”
“Mamma mia!”, escandalizou-se ela. “Como pode afirmar
uma coisa dessas?”
“Mas é verdade!”, insistiu Tomás. “Aliás, a própria
família de Jesus achava que ele não batia bem da
cabeça!” Foi como se tivesse espetado mais uma faca no
belo corpo de Valentina.
“Oh!”, gemeu ela. “Como se atreve? A Virgem... a
Madonna... a santíssima Maria nunca pensou tal coisa do
seu filho! Ela sabia que ele era... especial. Santa
Maria sempre lhe foi muito devota!”
O historiador pôs-se a folhear freneticamente a Bíblia.
“Ai sim?”, devolveu. “Então veja o que está aqui
escrito no Evangelho segundo Marcos.” Identificou o
trecho. “Versículo 3:21: ‘E, quando os seus familiares
ouviram isto, saíram a ter mão n’Ele, pois se dizia:
«Está fora de Si.»’ Levantou os olhos. “Jesus ‘Está
fora de Si’? Era isto o que dele pensavam os seus
próprios familiares, que correram para ‘ter mão n’Ele’?
A família de Jesus achava que ele enlouquecera? Mas o
que vem a ser isto?”