Valentina debruçou-se sobre o livro e leu o versículo
com os seus próprios olhos.
“Bem... quer dizer... nunca tinha reparado neste
trecho.”
“E não era apenas a sua família que o achava ‘fora de
Si’. Os próprios habitantes de Nazaré pensavam o
mesmo.” Adiantou umas páginas. “Ora veja o que Marcos
escreveu em 6:5 quando Jesus voltou a Nazaré e
enfrentou os seus conterrâneos na sinagoga: ‘Jesus
disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria,
entre os seus parentes e em sua casa.»’ Ou seja, Jesus
admite aqui abertamente que os parentes o desprezavam!
E os seus conterrâneos também! E não era apenas em
Nazaré. Em toda a parte por onde passava na Galileia,
as pessoas riam-se do que ele dizia! De tal modo que
Jesus se pôs a ameaçá-las. Citado por Mateus em 11:21,
disse Jesus com grande fúria: ‘Ai de ti, Corozaim! Ai
de ti, Betsaida! Porque, se os milagres realizados
entre vós tivessem sido realizados em Tiro e em
Sidónia, de há muito teriam feito penitência no saco e
na cinza. Aliás, digo-vos Eu, haverá mais tolerância,
no dia do juízo, para Tiro e Sidónia do que para vós. E
tu, Cafarnaum, julgas que serás exaltada até ao Céu?
Serás precipitada no inferno.’” Observou os seus
interlocutores. “Poderá haver coisa mais clara?”
A italiana leu também o trecho do Evangelho, para se
certificar de que era mesmo assim.
“Dio mio!”, exclamou com a mão sobre a boca ao
confirmar a leitura. “Mas porque diabo isto nunca me
foi explicado?”
A pergunta era evidentemente retórica e Tomás nem se
deu ao trabalho de tentar responder. Em vez disso,
folheou de novo o Evangelho segundo Marcos.
“A chegada do reino de Deus constitui, em boa verdade,
o essencial da mensagem de Jesus”, disse. “Não é,
aliás, por acaso que Marcos começa justamente por ela.
O Evangelho segundo Marcos inicia-se com o encontro de
Jesus com João Baptista e o episódio do baptismo no rio
Jordão. É importante lembrar que João andava a gritar
aos sete ventos que vinha aí o reino de Deus e que as
pessoas tinham de se arrepender e lavar os pecados na
água para se purificarem e poderem entrar nesse reino.
Se Jesus foi ter com João Baptista é porque acreditava
nessa mensagem. Segundo Marcos, logo que Jesus é
baptizado, purificando-se dos seus pecados como João
recomendava, dos céus vem uma voz a reconhecê-lo como
‘o Meu Filho muito amado’ e a seguir ele vai para o
deserto passar quarenta dias. Depois regressa à
Galileia e Marcos põe-lhe na boca a frase fatídica do
versículo 1:15, na verdade um mero eco da mensagem
apocalíptica de João Baptista: ‘Completou-se o tempo e
o reino de Deus está perto: Arrependei-vos, e acreditai
na boa nova.’” Indicou com o dedo esta derradeira
expressão. “Pergunto-vos eu: como se diz boa nova em
grego?”
Os dois polícias encolheram os ombros.
“O meu grego anda enferrujado”, gracejou Grossman.
“Evan gelion”, revelou Tomás. “Boa nova diz-se evan
gelion em grego.” Indicou o texto da Bíblia. “O que
significa que é esse o significado profundo e oculto
dos Evangelhos: a boa nova do apocalipse e da
consequente chegada do reino de Deus!” Ergueu as mãos
para o ar e fez um ar alucinado, imitando um pregador
apocalíptico. “Arrependam-se! Arrependam-se e acreditem
na boa nova! O mundo vai acabar e Deus vai impor o Seu
reino!” Readquiriu a fisionomia normal e fitou os seus
interlocutores. “É essa, acreditem ou não, a mensagem
central dos Evangelhos.”
Valentina abanou a cabeça, recusando-se a acreditar.
“Não pode ser!”, murmurou. “Não pode ser!”
“Acha que não? Então diga-me: qual é a oração principal
dos cristãos?”
“É o Pai nosso, claro.”
“Pode recitar-mo?”
“O Pai nosso?”, admirou-se a italiana.
Afinou a voz e começou a entoar a oração como fazia
quando ia à missa aos domingos. “Pai nosso que estais
no Céu, santificado seja o Vosso Nome, venha a nós o
Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra
como no Céu.”
“Já reparou no que acabou de dizer?”
“Ora! Estou simplesmente a recitar o Pai nosso...”
“Sim, mas já viu o que disse? ‘Pai nosso que estais no
Céu’? Ele não está na Terra? Então quem está na Terra?
O Diabo, claro. ‘Venha a nós o Vosso reino’? Que reino
é esse? O reino de Deus, é evidente. A oração pede que
esse reino venha a nós. ‘Seja feita a Vossa vontade,
assim na Terra como no Céu’? Seja feita a vontade de
Deus na Terra? Isso significa que ela ainda não está a
ser feita na Terra? Por enquanto só está no Céu?”
Valentina pareceu ficar confusa.
“É curioso, nunca tinha reparado nisto.”
“O Pai nosso, oração central do cristianismo, é na
verdade uma oração apocalíptica! São os judeus a
implorar a Deus que desça à Terra para impor ‘a Vossa
vontade’! Vontade que ainda não reina na Terra, uma vez
que o mundo está, lembro-o, nas mãos de Belzebu.”
“Mamma mia! Da próxima vez que rezar vou prestar mais
atenção ao que digo!...”
“Jesus até descreve em pormenor como será o dia em que
se desencadeará o acontecimento apocalíptico que
prenuncia a chegada da nova era, que Marcos e Lucas
chamam o reino de Deus e Mateus reino dos Céus”,
acrescentou. “Vejam o que diz Jesus, citado por Marcos
em 13:24-27: ‘Mas nesses dias, depois daquela aflição,
o Sol escurecer-se-á e a Lua não dará a sua claridade,
as estrelas cairão do céu e as forças que estão nos
céus serão abaladas. Então verão vir o Filho do Homem
sobre as nuvens, com grande poder e glória. Ele enviará
os Seus anjos e reunirá os Seus eleitos, dos quatro
ventos, da extremidade da Terra à extremidade do céu.’”
Encarou os seus interlocutores. “O que Jesus está aqui
a fazer é a elaborar a visão profética de Daniel nas
Escrituras.”
Arnie Grossman, que por ser judeu estava familiarizado
com o Antigo Testamento, anuiu.
“Evidentemente.”
“Deus instalará então o Seu reino na Terra. Quais as
consequências sociais desse grande acontecimento?”
“Acabam-se as desigualdades”, sentenciou Valentina.
“Deixa de haver ricos e pobres, poderosos e oprimidos,
fortes e fracos.”
Tomás abanou a cabeça.
“Não.”
A negativa surpreendeu a italiana.
“Não?”
O historiador fez uma pausa, para obter efeito
dramático. “Ocorre a inversão de papéis!”