hoje, a apologia da humildade. No entanto, no sentido e
no contexto em que Jesus proferiu estas palavras, não
estava a recomendar a humildade pelo simples desejo de
fazer o bem. Ao contrário do que agora possa parecer,
não se tratava de um acto puramente altruísta,
generoso, desinteressado e inocente. Pelo contrário,
havia aqui um projecto de poder muito claro. A
humildade praticada hoje era uma forma de as pessoas se
tornarem poderosas mais tarde e subjugarem as que agora
eram poderosas e mais tarde iriam ficar fracas.
Mais tarde quando? No momento em que se estabelecesse o
reino de Deus, claro.”
“Desculpe, mas não é bem assim”, argumentou Valentina,
que se recusava a aceitar aquela leitura. “O projecto
era altruísta e generoso e desinteressado porque se
tratava de algo a longo prazo. As pessoas iam ajudar as
outras durante muito e muito tempo, até porque o reino
de Deus não surge de um momento para o outro, não é
verdade? Vai levar imenso tempo a...”
“Amanhã.”
A italiana pestanejou.
“Perdão?”
Tomás fitou-a com intensidade, para sublinhar o
significado das suas palavras.
“O reino de Deus irá ser instituído já amanhã.”
XLIV
Acesa em mil pontos luminosos como uma grandiosa árvore
de Natal, Jerusalém à noite era quase uma cidade como
outra qualquer. Quase. A cúpula dourada do rochedo,
erguida pelos muçulmanos no topo do monte Moriah e
brilhante como um enorme farol entre a miríade de
luzinhas laranja e brancas que cintilavam tremulamente
na escuridão, servia para recordar a quem a olhasse que
aquela cidade não era como as outras.
Sicarius sabia-o melhor do que ninguém. Sentado diante
da janela enquanto aguardava notícias do mestre, ia
ruminando o significado profundo da maldita cúpula que
refulgia diante dos seus olhos. Ah, não havia dúvida:
aquilo era um insulto à memória dos seus antepassados!
Como ignorar a afronta? Fora justamente ali, no alto do
Moriah e por baixo daquela cúpula usurpadora, que
Abraão oferecera o seu filho ao sacrifício; fora também
no cimo daquele monte que Salomão erigira o seu Templo
e Herodes o reconstruíra; e fora ainda ali que se
levantara o santo dos santos, precisamente no local da
cúpula, o sítio do sacrifício de Abraão, a câmara onde
Deus bendito, Ele próprio, deambulava na Terra. Mas o
destino tinha destas coisas. Os Romanos destruíram o
Templo e os muçulmanos ergueram ali a sua cúpula. Dois
escarros na face dos judeus.
Mas a hora aproximava-se. Olho por olho, dente por
dente. A justiça de Deus era inexorável. Ah, o mundo
iria enfim perceber a verdade! E ele, Sicarius, tinha a
suprema honra de ser o punho de Deus, o instrumento da
vontade divina, a sica que os filhos devolveram à mão
do Pai.
Ergueu-se de repente e virou as costas à janela,
irritado com a imagem provocatória da cúpula dourada.
Vê-la era mais do que podia suportar. Ardendo de
impaciência, pegou novamente no telemóvel e voltou a
digitar o número do mestre. Tocou duas vezes e entrou
em gravação.
“O número para o qual ligou não está disponível”, disse
a voz feminina. “Por favor, deixe uma mensa...”
Desligou antes que a gravação terminasse e, em
frustração, atirou o telemóvel para o tapete.
“Por onde anda ele?”, rugiu. “Recolheu-se para o seu
retiro logo numa altura destas? Enlouqueceu?”
Nada daquilo fazia sentido. Respirou fundo e, já mais
controlado, foi apanhar o telemóvel e verificou se
tinha ficado avariado. Estava a funcionar. Deu duas
voltas diante da janela, mas desta feita evitou fitar a
irritante cúpula dourada no topo do monte Moriah, que
parecia ter sido ali plantada de propósito para
enxovalhar os filhos de Deus.
De repente teve uma ideia.
E a Internet? Deu uma palmada na testa. Como diabo não
se tinha ainda lembrado da Internet? Foi buscar o seu
computador portátil e ligou-o. Aguardou pacientemente
que as configurações se estabelecessem e as ligações
ficassem concluídas. Levou uns três minutos, mas acabou
por entrar no seu endereço electrónico e foi directo à
inbox. A mensagem estava lá.
Clicou na linha e o conteúdo encheu-lhe o ecrã.
Sicarius,
Correu tudo bem.
Houve apenas um atraso a passar o alerta, porque a
operadora da polícia levou algum tempo a convencer.
Vou permanecer incomunicável durante algum tempo, mas
quero-te a vigiar a fundação. Quando vires o alvo em
movimento, segue-o discretamente até onde ele te levar.
A hora está a chegar.
Quero-te a vigiar a fundação? Quando vires o alvo em
movimento, segue-o discretamente?
Sicarius desligou o computador e foi ao cofre buscar a
mala de couro negro onde havia guardado a sica.
Tinha uma nova missão.
XLV
“Amanhã?”, interrogou-se Valentina, verificando no
relógio o dia em que estavam. “Que quer dizer com
amanhã?” Tomás riu-se.
“Quando digo que o reino de Deus vai ser instituído
amanhã, não é na perspectiva de hoje”, esclareceu. “É
na perspectiva do tempo de Jesus. Ele achava que o
reino de Deus estava mesmo à beira de ser estabelecido,
o que devia acontecer ainda no seu tempo de vida.”
“Oh, que disparate! Ele nunca disse tal coisa!”
O historiador abriu de novo a Bíblia na primeira página
do Evangelho segundo Marcos.
“Ai não? Leia de novo o versículo 1:15 de Marcos, que o
meu agressor indicou na charada que deixou no meu
quarto”, sugeriu, descendo os olhos até ao texto.
‘“Completou-se o tempo e o reino de Deus está perto:
Arrependei-vos, e acreditai na boa nova.”’ Fitou a sua
interlocutora. “Jesus está aqui a dizer que o tempo se
completou! Está a dizer que o reino de Deus está perto!
É essa a boa nova! Percebe?”
A italiana fez com a mão um gesto no ar.
“Perto, perto... o que é isso? Perto é uma palavra
muito vaga! Tudo depende da perspectiva, não é? Na
perspectiva humana, um milhão de anos é muito, mas na
perspectiva do universo não é nada!...”
“Perto quer dizer iminente”, esclareceu Tomás. “Jesus
achava que o estabelecimento do reino iria acontecer a
todo o instante. Amanhã, no próximo mês, daqui a um ou
dois anos. Citado por Marcos em 9:1, disse Jesus aos
seus discípulos: ‘Em verdade vos digo que alguns dos
que estão aqui presentes não experimentarão a morte sem
ter visto chegar o reino de Deus com todo o Seu
poder.’”