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Encarou

os

seus

interlocutores.

“Isto

significa que Jesus disse aos discípulos que alguns

deles estariam vivos quando o reino de Deus fosse

instituído!” Virou três folhas. “Essa mensagem é

reforçada mais à frente por Jesus, citado por Marcos em

13:30: ‘Em boa verdade vos digo: Não passará esta

geração sem que todas estas coisas aconteçam.’ Ou seja,

a chegada do reino de Deus estava iminente. Jesus

sugeriu mesmo que a Terra é a casa de Deus, o dono

ausente que estava prestes a regressar. Citado por

Marcos em 13:35-37, disse Jesus: ‘Vigiai, pois, porque

não sabeis quando virá o dono da casa, se à tarde, se à

meia-noite, se ao cantar o galo, se pela manhã; não

seja que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir.

O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!”’

Valentina parecia desconcertada.

“Isso é mesmo assim?”

O académico português indicou a sua Bíblia.

“É o que está aqui escrito!”, exclamou. “Leia você

mesma, se duvida! Quando Jesus foi julgado pelo

sinédrio que supostamente o condenou à morte, por

exemplo, Marcos cita-o em 14:62 a profetizar o seguinte

ao sumo sacerdote: ‘Vereis o Filho do Homem sentado à

direita do Poder.’” Fez uma careta. “‘Vereis’? Jesus

considerava que a chegada do Reino de Deus estava de

tal modo iminente que profetizou que o próprio sumo

sacerdote, que já devia ter alguma idade, ainda estaria

vivo quando isso acontecesse!”

“Mas o que levava Jesus a pensar que o reino de Deus

estava prestes a chegar?”

“Achava que havia sinais nesse sentido. Citado por

Marcos em 4:11, disse Jesus aos discípulos: ‘A vós é

dado conhecer o mistério do reino de Deus, mas aos que

estão de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, para

que ao olhar, olhem e não vejam, ao ouvir, oiçam e não

compreendam, não vão eles converter-se e ser-lhes

perdoado.”’ Estreitou as pálpebras e baixou a voz,

quase num aparte. “Interessante, não é? Jesus, o

profeta do perdão, a mostrar receio de que as pessoas

‘de fora’ percebessem a sua mensagem e se convertessem

a ela, sendo assim perdoadas. Para o evitar, escolheu

explicar as coisas por parábolas. Numa delas compara

Deus com um camponês que espalha sementes pela terra.

Algumas dessas sementes já estavam a produzir frutos.

Esses frutos eram os primeiros sinais da chegada do Seu

reino.”

“Já havia sinais? Quais?”

“Olhe, as curas milagrosas. Os judeus apocalípticos

acreditavam que as doenças eram obra de Belzebu. Mas

como Jesus era um curandeiro e exorcista com capacidade

de curar as pessoas, acreditava que esses seus poderes

constituíam um primeiro sinal da intervenção de Deus,

em cujo reino não havia doenças. Daí a importância

deste episódio relatado por Mateus em 11:2 a propósito

de João Baptista: ‘Ora, João, no cárcere, ouvira falar

das obras de Cristo. Enviou-lhe os seus discípulos com

esta pergunta: «És Tu aquele que há-de vir ou devemos

esperar outro?» Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a

João o que vedes e ouvis: Os cegos vêem e os coxos

andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os

mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos

pobres.»’ Ou seja, Jesus interpreta essas curas

milagrosas como um sinal da chegada do reino de Deus.

Belzebu era o responsável pelas doenças existentes no

mundo, mas os cegos já viam e os coxos já andavam. Não

era isto a prova de que Deus estava a começar a

intervir na Terra?”

Valentina abanou a cabeça.

“E esta?”, exclamou. “Sempre pensei que Jesus era, para

além do Messias e de Deus Filho, um grande professor de

ética, que nos ensinava a viver de uma forma justa e

pacífica. O que me está a dizer é totalmente novo.”

“Jesus ensinava uma ética”, admitiu Tomás. “Mas não era

uma ética a longo prazo. Não haveria longo prazo,

porque ele achava que o mundo estava prestes a mudar

radicalmente. A ética que ele ensinava era para as

pessoas melhor se adaptarem ao mundo novo que surgiria

a todo o instante, o paradisíaco reino de Deus, onde as

injustiças, a fome, a doença e o sofrimento dos fracos

acabariam, e onde os fortes que não se arrependessem

seriam punidos. Uma vez que haveria inversão de papéis,

pediu às pessoas que se despojassem dos bens materiais

que possuíam e se empenhassem em ajudar os outros, para

depois serem recompensadas no novo reino. Marcos conta

que um homem rico foi ter com Jesus e lhe disse que

respeitava todos os mandamentos, não tendo morto

ninguém, nem roubado, nem cometido adultério nem feito

qualquer outra coisa ofensiva. Como deveria proceder

então?” O historiador folheou a Bíblia. “A resposta de

Jesus vem em 10:21: ‘Falta-te apenas uma coisa: Vai,

vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás

um tesouro no Céu; depois, vem e segue-Me.’ Quando o

rico se recusou a desfazer-se da sua fortuna, Jesus

observou: ‘Quão dificilmente entrarão no reino de Deus

os que têm riquezas!’” Encarou os dois polícias. “Ou

seja, o que está no centro da ética de Jesus é a

preparação para o reino de Deus. Esta ética implicava o

arrependimento e o despojamento. Mais ainda, a

insistência no despojamento era tal que ele até queria

que as pessoas abandonassem as suas famílias!”

“Ah, isso não!”, protestou a italiana. “Isso nunca!

Jesus defendia a família!”

“Acha que sim?”

“Toda a gente sabe!”

Tomás voltou a atenção de novo para a sua Bíblia.

“Então veja o que está aqui escrito”, sugeriu. “Citado

por Lucas em 12:51, disse Jesus: ‘Julgais que Eu vim

estabelecer a paz na Terra? Não, digo-vo-lo Eu, foi

antes a divisão. Porque daqui por diante estarão cinco

divididos numa só casa: Três contra dois e dois contra

três; dividir-se-ão o pai contra o filho e o filho

contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a

mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra.’”

Fitou Valentina. “Poderia Jesus ser mais claro do que

isto? Na verdade, incita as pessoas a abandonarem as

suas famílias! Citado por Mateus em 10:34-37, disse

Jesus: ‘Não penseis que vim trazer a paz à terra; não

vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o

filho do pai, a filha da sua mãe e a nora da sogra; de

tal modo que os inimigos do homem serão os seus

familiares. Quem amar o pai ou a mãe mais do que a Mim,

não é digno de Mim. Quem amar o filho ou a filha mais

do que a Mim, não é digno de Mim.’ Citado por Marcos em

10:29, disse Jesus: ‘Em verdade vos digo: Quem tiver