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deixado a casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, os filhos ou

campos por Minha causa e por causa da Boa Nova,

receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em

casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, juntamente

com perseguições, e no tempo futuro a vida eterna.

Muitos dos primeiros serão os últimos. E os últimos,

primeiros.’”

Sendo judeu, Arnie Grossman permaneceu calado até aí.

Neste ponto não conseguiu reprimir um sorriso.

“Parece um político em campanha eleitoral”, gracejou.

Abriu as mãos como se falasse diante de uma multidão de

eleitores durante um comício. “Sigam-me! Votem em mim!

Prometo-vos o Paraíso!”

O chiste pareceu adequado a Tomás, mas o português

preferiu

não

o

comentar

para

não

ferir

as

susceptibilidades de Valentina.

“Para Jesus, a família e a actual ordem social não

interessavam para nada”, sentenciou o historiador. “O

fim do reino de Belzebu estava a chegar e em breve tudo

seria posto em causa. O que interessava era as pessoas

prepararem-se para o novo mundo, o reino de Deus que aí

vinha. Havia que subverter tudo. Citado por Marcos em

2:22, disse Jesus: ‘Ninguém deita vinho novo em odres

velhos; se o fizer, o vinho acabará por romper os odres

e perder-se-á o vinho juntamente com os odres. Mas o

vinho novo deita-se em odres novos!’”

A italiana levantou a mão, como se o quisesse travar.

“Espere aí! Espere aí!”, ordenou. “Parece-me que você

está a misturar alhos com bugalhos! Quando Jesus falava

no reino de Deus, era tudo metafórico e simbólico!”

“Está enganada!”, respondeu Tomás. “Isso é a conversa

que surgiu mais tarde para tentar explicar o facto de o

reino previsto por Jesus nunca ter aparecido. Mas o

reino de que ele falava não era simbólico nem

metafórico. Era um sítio real. Era a Terra transformada

no Paraíso porque o seu dono, Deus, regressara enfim e

pusera termo às iniquidades de Belzebu. O reino de Deus

era um reino físico, com leis e pessoas de carne e osso

a governá-lo.”

“O quê?”, admirou-se Valentina. “Onde está tal coisa

escrita?”

Sem surpresa, a atenção do historiador regressou ao

exemplar da Bíblia que tinha nas mãos.

“Quantos apóstolos havia?”, perguntou.

“Essa é fácil. Doze, toda a gente sabe.”

“Vamos enumerá-los”, sugeriu Tomás, sinalizando cada

nome com um dedo. “Simão Pedro, André, Tiago e João,

filhos de Zebedeu, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus,

Tiago filho de Alfeu, Tadeu, Simão, Natanael, Judas

irmão de Tiago, Judas filho de Tiago e Judas

Iscariotes. Dá quinze nomes.” “Quinze? Mas eles eram

chamados os doze...”

“Pois eram. No entanto, somando todos os nomes dados

pelos diversos evangelistas, temos quinze. E Lucas

escreve em 10:1: ‘Depois disto, o Senhor designou

outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a

dois, à Sua frente, a todas as cidades e lugares aonde

ele havia de ir.’ Quer dizer, aqui ainda aparecem mais

setenta e dois! O que suscita uma pergunta: se os

apóstolos não eram doze, por que razão eram chamados os

doze?”

A italiana fez um olhar opaco.

“Não sei.”

O historiador voltou-se para o silencioso Arnie

Grossman.

“Que significado tem o número doze para os judeus?”

“São as doze tribos de Israel”, disse o inspector-chefe

da polícia israelita sem hesitar. “Quando a Assíria

conquistou o reino do Norte, Israel perdeu dez dessas

tribos. Só ficaram duas. O nosso sonho é reconstituir

Israel, juntando as dez tribos perdidas às duas que

ficaram.”

“Estão a perceber agora a relevância de serem doze

apóstolos? Sendo judeu, Jesus queria reconstituir

Israel. Ele acreditava que o velho sonho judaico se

realizaria no reino de Deus!”

Valentina torceu o nariz.

“Ora, isso é especulação sua! Em parte alguma está tal

tolice escrita!”

Tomás folheou mais uma vez a sua Bíblia.

“Está enganada”, disse. “O Evangelho segundo Mateus

narra um episódio curioso. Trata-se de uma conversa

entre Jesus e os seus discípulos, descrita em 19:27-28:

‘Tomando a palavra, Pedro disse-Lhe: «Nós deixámos tudo

e seguimos-Te, qual será a nossa recompensa?» Jesus

respondeu-lhes: «Em verdade vos digo: No dia da

renovação, quando o Filho do Homem Se sentar no Seu

trono de glória, vós, que me seguistes, sentar-vos-eis

em doze tronos para julgardes as doze tribos de

Israel.»’ Ou seja, cada discípulo iria governar uma das

tribos de Israel. Eram doze apóstolos para doze tribos.

Ao falar nas doze tribos, Jesus acreditava claramente

que os novos tempos que se aproximavam permitiriam

recuperar as dez tribos perdidas e recriar Israel na

sua íntegra. Isso é confirmado nos Actos dos Apóstolos,

em 1:6, quando, depois de um trecho sobre o reino de

Deus, os discípulos perguntaram a Jesus: ‘Senhor, é

agora que vais restaurar o reino de Israel?’ Isto

confirma que a restauração de Israel fazia parte da

visão de Jesus. O reino de Deus não era, pois, um

conceito meramente metafórico, mas uma realidade

política palpável!”

Os ombros de Valentina descaíram, como se o pilar que

os sustinha tivesse desabado, e ela respirou fundo.

“Pronto, está bem”, murmurou, vencida. “Já percebi.”

Grossman ergueu no ar o papel com o enigma deixado pelo

agressor do português e acenou com ele.

“Esperem aí! Onde é que isso nos deixa? O que queria o

tipo dizer-nos com esta chachada?”

“Ao chamar a nossa atenção para o versículo 1:15 do

Evangelho segundo Marcos”, disse Tomás, “o assassino

enviado pelos sicarii quis sublinhar quem era o

verdadeiro Jesus: um rabino com artes de curandeiro e

exorcista que acreditava que o mundo ia mudar a

qualquer momento e que Deus iria instituir o Seu reino

na Terra e repor a soberania de Israel.”

“E é tudo?”

O português

mordeu o

lábio

inferior,

como se

considerasse se deveria ou não dizer tudo.

“Pode ser que haja mais.”

“Mais, o quê?”

Tomás olhou para a sua mão engessada, como se se

quisesse assegurar de que o tratamento havia sido

adequadamente administrado. Tinha ainda os dedos sujos;

era sangue seco que ficara encravado nas unhas que

espreitavam do gesso.

“Jesus não fundou o cristianismo.” Acariciou a capa da

Bíblia e evitou olhar para a italiana. “A sua mensagem

nem sequer era destinada a toda a humanidade.”

Valentina encarou-o com um olhar incrédulo.