“O quê?!”
Só nesse instante ganhou coragem para a fitar nos
olhos. “Jesus discriminava as pessoas.”
XLVI
O rugido ressoou pelas pedras do Bairro Judeu antes de
um poderoso farol dar entrada na pequena rua, como um
unicórnio ameaçador. Tratava-se de uma moto japonesa de
grande potência, larga e de um negro luzidio, com tubos
de escape cromados que pareciam verdadeiros canos de
canhões. O homem que a pilotava vinha também vestido de
preto, um vulto fantasmagórico a cavalgar a máquina de
aço.
A moto abrandou a marcha e percorreu devagar a rua
sombria,
como
uma
pantera
a
ronronar
enquanto
espreitava as ameaças dissimuladas na treva, ela
própria uma ameaça à espera do menor pretexto para o
ataque. Mas não houve ataque. Em vez disso, a máquina
imobilizou-se a uma esquina e o piloto desligou o motor
e apeou-se. A tranquilidade regressou à ruela,
mergulhada no sono solto da noite.
O recém-chegado abriu um pequeno saco que trazia às
costas e retirou do interior uma longa túnica, velha e
esburacada, de textura áspera, como a da serapilheira.
O piloto vestiu a túnica e, já transformado num monge,
o rosto escondido na penumbra da capa, caminhou dez
metros e afastou-se da moto, agora um monstro
silencioso e adormecido.
O vulto esquivo escolheu uma casa antiga, num canto
obscurecido, ao qual a luz dos candeeiros públicos não
chegava, e verificou se dali tinha a visão desimpedida
para a entrada do edifício no outro lado da rua. O
edifício era ornado por uma placa dourada que anunciava
a instituição instalada no seu interior.
A Fundação Arkan.
Pareceu-lhe perfeito. O homem envolvido na túnica
recuou dois passos e sentou-se num degrau diante da
porta da casa antiga mesmo em frente da fundação, a sua
presença encoberta pelo manto inescrutável da noite.
O desconhecido percorreu a rua longamente com o olhar,
detendo-se
nos
pormenores,
mesmo
nos
mais
insignificantes. Queria ter a certeza de que nada lhe
escapava. Os detalhes eram o mais importante, sabia.
Havia até quem dissesse que Deus se escondia neles,
embora o recém-chegado achasse que era antes Belzebu.
Mas a rua permanecia calma, as casas mergulhadas no
sono, os passeios desertos.
Ao fim de alguns minutos de inspecção cuidadosa, o
homem descontraiu pela primeira vez. Inseriu a mão no
saco e retirou o seu velho exemplar das Sagradas
Escrituras. Tinha talvez muito tempo diante dele. Mais
valia ocupá-lo com Deus. Abriu o livro e folheou-o com
desvelo até se deter nos Salmos.
“Senhor, ouvi a minha prece, e chegue até Vós o meu
clamor”, entoou num sussurro quase inaudível. “Não me
oculteis o Vosso rosto no dia da minha angústia;
inclinai para mim o Vosso ouvido, no dia em que Vos
invocar apressai-Vos a responder-me. Porque os meus
dias esvanecem-se como o fumo, e os meus ossos ardem
como um braseiro.”
Calou-se e ergueu os olhos, verificando a entrada da
fundação. Tudo parecia tranquilo. Inspeccionou de novo
a rua. Nada se passava. Respirou fundo, enchendo-se de
paciência. Um soldado de Deus tinha de estar preparado
para tudo, mas a hora ainda não chegara. Baixou de novo
o olhar para o texto e, os lábios movendo-se como se
soprassem, retomou a leitura dos versículos sagrados.
Sicarius sabia que teria ainda de esperar.
Mas não muito.
XLVII
“Jesus discriminava as pessoas?”
Arnie Grossman tinha ido à janela do quarto do hospital
e espreitava Jerusalém à noite. Era tarde, mas a
descodificação do último enigma ainda não estava
concluída.
“Claro”, respondeu Tomás, deitado ainda na sua cama.
“Lembre-se que ele nasceu judeu, viveu judeu, morreu
judeu. Achava que pertencia ao povo eleito.”
O inspector-chefe da polícia israelita voltou-se e
encarou-o.
“Isso já nos explicou”, disse. “Mas sejamos razoáveis.
O cristianismo espalhou-se pelo mundo. Que história é
essa de que Jesus discriminava as pessoas? Não é o
cristianismo uma religião universalista?”
Tomás indicou com a cabeça o enigma rabiscado no papel
que se encontrava nas mãos de Grossman.
“Sabe, as consequências últimas da charada que o meu
agressor nos deixou remetem-nos directamente para a
fundação do cristianismo.”
“Em que sentido? Não percebo.”
O historiador suspirou, como se ganhasse fôlego para a
sua derradeira explicação.
“Proponho que façamos uma viagem no tempo”, disse,
indicando a cidade para além da janela. “Recuemos dois
mil anos. Estamos em Jerusalém algures entre o ano 30 e
o ano 33. É a semana do Yom Kippur, o dia da expiação,
no mês de Tishri. A cidade enche-se de judeus que
vieram de toda a parte para oferecer um sacrifício no
Templo em expiação pelos seus pecados, como requerido
pelas Escrituras. Os Romanos reforçam a guarnição,
porque sabem que o potencial para tumultos é elevado.
Também os sacerdotes do Templo se mostram vigilantes,
conscientes de que o clima com tanta gente junta é
sempre volátil. Entre os peregrinos aparece um grupo
acabado de chegar da Galileia.”
“Jesus e os seus apóstolos.”
“Ou seja, um bando de provincianos. Acreditam, como
acreditavam outros judeus na altura, que o fim do mundo
está próximo e Deus em breve intervirá para impor a Sua
lei e acabar com o sofrimento dos mais fracos. Até ali,
este grupo apenas teve palco nas terriolas da Galileia
e foi rejeitado pelos pacóvios que ali viviam. Como
eram cegos aqueles labregos! Jerusalém no Yom Kippur,
porém, é a sua grande oportunidade. A cidade fervilha
de gente. São mais de dois milhões de judeus oriundos
de toda a Judeia. Que melhor palco poderia haver para
alertar
as
pessoas
para
a
necessidade
de
se
arrependerem dos seus pecados e de se prepararem para a
nova idade de ouro?”
Valentina, que se remetera ao silêncio depois de ouvir
as últimas revelações, animou-se neste ponto. A
história da última semana de Jesus era uma das suas
favoritas.
“Ele entrou em Jerusalém sentado num jumento, não foi?”
“É o que contam os Evangelhos”, confirmou Tomás. “O
profeta Zacarias escreveu no Antigo Testamento, em 9:9:
‘Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de
júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti:
ele é justo e vitorioso, humilde, montado num jumento.’
Assim, ou Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento