para insinuar que era o rei profetizado nas Escrituras,
ou os evangelistas inventaram este pormenor para
convencer os seus contemporâneos de que Jesus preenchia
os requisitos da profecia. Nunca saberemos com
exactidão qual a verdade, embora tenhamos a certeza de
que este pormenor está relacionado com o texto de
Zacarias.”
“Estou a entender”, assentiu a italiana. “Mas depois
vem a história do Templo.”
“Sim, Jesus cria um incidente no Templo e põe-se a
profetizar a sua destruição, atraindo os olhares das
autoridades. A seguir é preso, julgado, condenado à
morte e crucificado. Toda essa história é por demais
conhecida.”
“E então?”
“O que é importante já não é o que sucede a Jesus, mas
a forma como os seus apóstolos interpretam esses
acontecimentos.”
Valentina sacudiu a cabeça.
“Não estou a perceber...”
“Ponha-se no lugar dos apóstolos. Estamos a falar de
pescadores e artesãos analfabetos da Galileia, que
largaram tudo e decidiram seguir este rabino que os
assustava com o anúncio do fim do mundo e lhes prometia
a salvação se o seguissem e fizessem o que ele lhes
dizia. O rabino prometia-lhes mesmo que cada um deles
iria chefiar uma das doze tribos de Israel quando o
reino de Deus fosse instaurado e os últimos, isto é,
eles próprios, se tornassem primeiros. Era gente pobre,
inculta e crédula. Acreditavam que o rabino, que viram
fazer curas milagrosas, gozava da protecção divina e
dizia a verdade. Podia mesmo ser o enviado de Deus! E
por isso seguiram-no. Andaram a penar pela Galileia e
foram enfim a Jerusalém anunciar a boa nova a todos os
judeus. Esta viagem seria a consagração. Israel render-
-se-ia ao rabino Jesus e reconhecê-lo-ia como rei. Deus
desceria então à Terra e instauraria o Seu reino! Ou
seja, as expectativas dos apóstolos eram muito
elevadas. Mas, em vez dessa consagração apoteótica, o
que acontece na verdade?”
“Jesus foi preso e executado.”
“Isso não estava no programa! Em vez de ser coroado, o
rabino é preso, humilhado e morto. Que fazem os
apóstolos? Fogem! Receiam pela sua vida e escondem-se
entre os mais de dois milhões de judeus que enchem
Jerusalém para o Yom Kippur. Isto mostra que Jesus
nunca lhes falou deste desfecho e que as palavras
postas na boca dele nos Evangelhos a profetizar a
própria morte são antes retroacções inseridas pelos
evangelistas. O que vai então na cabeça dos apóstolos
quando Jesus é crucificado? Além do medo, a desilusão.
Afinal o rabino não era o masbia! Tinham-se enganado!
Seguiram um falso profeta! A decepção é total. Contudo,
três dias depois da morte do rabino, aparecem umas
mulheres aos gritos histéricos. Ele ressuscitou!,
gritam elas. Ele ressuscitou! Os apóstolos animam-se. O
quê? Será verdade? Vão ao sepulcro e confirmam que o
local está vazio.” Ergueu os braços no ar, num gesto
teatral. “Aleluia! Afinal ele não é um falso profeta! É
o masbia! É o masbia! A excitação é enorme. O rabino
ressuscitou!” Fez uma pausa e encarou a italiana.
“Percebe o significado profundo da ressurreição numa
mente judaica, não percebe?”
Valentina hesitou.
“Numa mente judaica?”
“Tem de se lembrar sempre que estamos a falar de
judeus”, insistiu o historiador. “Eles acreditavam que
o mundo iria acabar e que haveria um grande julgamento.
Pouco antes do julgamento, porém, iria suceder uma
coisa: os mortos ressuscitariam. Isso era fundamental
para poderem ser julgados. Ora o que tinha acabado de
acontecer? Jesus ressuscitara! Fora o primeiro morto a
regressar à vida! O que significava isso? Que em breve
os outros mortos também iriam ressuscitar e que o dia
do juízo final se encontrava próximo! Afinal Jesus
tinha razão! O fim do mundo estava prestes a chegar! Os
mortos começavam a voltar à vida e em breve haveria o
grande julgamento! Separados os ímpios dos puros, Deus
instituiria o seu reino na Terra! Havia pois que
espalhar a boa nova! O reino de Deus estava mesmo à
beira de se tornar realidade!”
Os dois polícias seguiam a explicação com os lábios
entreabertos, absorvendo a exposição do contexto
judaico em que a morte de Jesus foi interpretada pelos
seus seguidores.
“Mas, espere aí”, disse Valentina. “Jesus apareceu aos
apóstolos depois de morto.”
Tomás curvou o lábio antes de responder.
“Oiça, isso é teologia”, disse. “Como historiador, só
lido com acontecimentos históricos. O sobrenatural não
tem a ver com história, mas com crença. Como
historiador não posso afirmar, nem desmentir, um
acontecimento sobrenatural. Isso pertence ao domínio da
fé. Não tenho meios de determinar se Jesus apareceu aos
apóstolos depois de morto. O que posso determinar é que
os apóstolos afirmaram que o viram.” Fez uma pausa.
“Lembre-se de que estamos a falar de gente crédula e
inculta, já predisposta a acreditar no sobrenatural.
Sobre isso, mais não direi.”
“Nesse caso, acha que os apóstolos começaram a
alucinar...”
“Não acho nem deixo de achar. O que sei é que os
apóstolos garantiram ter visto Jesus ressuscitado.
Seria verdade? Teriam alucinado? Estariam a aldrabar as
pessoas? Mateus chega a registar no seu evangelho, em
28:13, um rumor que corria: ‘Os Seus discípulos vieram
de noite e, roubaram-n’0.’ Não sabemos qual a verdade,
nem nunca saberemos. O que sabemos é que os apóstolos
se puseram a espalhar a boa nova: os mortos começaram a
ressuscitar, vem aí o juízo final e será enfim
instituído na Terra o reino de Deus. Alguns judeus
aderiram a esta mensagem.”
“Como Paulo...”
“Curiosamente, Paulo não foi um deles. Começou até por
perseguir os seguidores de Jesus. Mas depois teve uma
visão e passou a acreditar.”
“Portanto, tornou-se cristão.”
“Ainda não havia cristãos”, corrigiu Tomás. “Eram todos
judeus. O que se passava é que existiam várias seitas
entre os judeus, como os fariseus, os essénios, os
saduceus e outros. Os que acreditavam que era Jesus o
mashia previsto nas Escrituras representavam uma dessas
muitas seitas, a dos nazarenos. Repare, estes nazarenos
continuavam a respeitar as leis judaicas e o Templo. O
que os diferenciava era a crença na boa nova de que o
reino de Deus estava prestes a chegar, de que a morte
de Jesus era o sacrifício ritual para expiar os pecados
da humanidade e de que a sua ressurreição constituía o