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primeiro acontecimento do processo que desencadearia o

juízo final. Na Primeira Carta aos Coríntios, escreveu

Paulo, em 15:20: ‘Cristo ressuscitou dos mortos como

primícias dos que morreram.’”

“Primícias? O que é isso?”

“O dicionário dá várias opções: primeiros frutos,

prelúdio, primeiros efeitos. Ou seja, Paulo diz aqui

explicitamente que a ressurreição de Jesus foi o

prelúdio da ressurreição dos mortos. Quer isto dizer

que ele acreditava piamente que o mundo estava prestes

a acabar e vinha aí o julgamento final. Na Primeira

Carta aos Tessalonicenses, Paulo descreveu em 4:16-17

como seria esse dia: ‘Quando for dado o sinal, à voz do

Arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o próprio Senhor

descerá do Céu e os que morreram em Cristo ressurgirão

primeiro. Depois, nós, os vivos, os que ficarmos,

seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens;

iremos ao encontro do Senhor nos ares, e assim

estaremos para sempre com o Senhor.’ Ou seja, primeiro

ressuscitam os mortos e depois vão os vivos. Esta

mensagem é reforçada por Paulo na Primeira Carta aos

Coríntios, em 15:51: ‘Vou revelar-vos um mistério: nem

todos morreremos, mas todos seremos transformados. Num

momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última

trompeta, pois ela há-de soar, os mortos ressuscitarão

incorruptíveis, e nós seremos transformados.’ Foi esta

boa nova que Paulo se pôs a espalhar. Só que se deparou

com um grande problema.”

Tomás calou-se, para conseguir um efeito dramático.

“O que aconteceu?”, quis saber a italiana.

“Os judeus riram-se. Acharam ridícula a ideia de que

aquele pobre coitado vindo das berças e que os Romanos

humilharam e crucificaram era o mashia. Por exemplo,

nos Actos dos Apóstolos conta-se, em 17:2-5, que Paulo

foi falar com os judeus à sinagoga de Tessalónica ‘e,

durante três sábados, discutiu com eles a partir das

Escrituras, explicando-as e provando que o Messias

tinha de sofrer e de ressuscitar dos mortos. «E o

Cristo, dizia ele, é este Jesus que vos anuncio.»

Alguns deles ficaram convencidos’,mas a maioria não ‘e

espalharam a agitação pela cidade’. Perante esta

rejeição dos judeus, o que fez Paulo? Levou a mensagem

aos gentios. Disse-lhes que vinha aí o juízo final e

que quem abraçasse Jesus se poderia salvar. Muitos

gentios, receando o fim do mundo, quiseram aderir.

Claro que, nesse instante, se gerou um problema

absolutamente novo: os gentios teriam de praticar todos

os

costumes

judaicos?

Eles

recusavam-se

a

ser

circuncidados e queriam comer carne de porco e

trabalhar livremente ao sábado. Se esses costumes

judaicos se mantivessem, não adeririam. O que fazer? Os

discípulos de Jesus, como Simão Pedro, Tiago e outros,

torceram o nariz ao abandono destas obrigações. Elas

eram impostas pela lei e teriam de ser respeitadas.

Citado por Mateus, o próprio Jesus disse em 5:17: ‘Não

penseis que vim revogar a Lei e os Profetas: Não vim

revogá-la, mas completá-la’; e acrescentou, em 5:19:

‘Se alguém violar um destes mais pequenos preceitos, e

ensinar assim aos homens, será o menor no reino dos

Céus.’”

A alma judaica de Arnie Grossman não se conteve.

“Isso quer dizer que Jesus respeitava de facto a lei.”

“‘Não passará um só jota ou um só ápice da Lei sem que

tudo se cumpra’, como o próprio Jesus chegou a afirmar,

em Mateus, 5:18. No entanto, Paulo não conheceu Jesus

pessoalmente e, como era muito mais culto do que os

discípulos, decidiu alterar os parâmetros teológicos de

modo a encaixar as objecções dos gentios. A salvação,

decidiu ele, já não se alcançava pelo respeito da lei e

pelo sacrifício no Templo. Escreveu Paulo na Carta aos

Gálatas, em 2:16: ‘O homem não é justificado pelas

obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo.’ Esta

mensagem é reforçada em 5:4: ‘Vós os que procurais a

justificação pela Lei; decaístes da graça!’ Ou seja, e

ao contrário do que defendia o próprio Jesus, a lei

judaica já não salvava ninguém. Bastava agora acreditar

na morte de Jesus como sacrifício de expiação e na sua

ressuscitação

como

‘primícias’,

ou

prelúdio,

do

regresso à vida de todos os mortos para o julgamento

final. Nestas novas condições, como acham que os

gentios reagiram?”

“Ficaram encantados, claro”, exclamou o inspector-chefe

da polícia israelita, com uma gargalhada. “Já não

tinham de se circuncidar e podiam comer carne de porco

à vontade.”

“É evidente. De modo que os gentios aderiram à mensagem

em grande número. Os discípulos de Jesus, todos eles

judeus, protestaram. O que vinha a ser aquilo de se

desrespeitarem os requisitos da lei? Paulo foi a

Jerusalém falar com eles e disse-lhes que aquele é que

era o caminho. Os judeus não estavam a aderir à

mensagem, mas os gentios sim. Tinham portanto de

apostar na conversão dos gentios. Embora com manifesta

relutância, os discípulos lá aceitaram a ideia. Mas

Simão Pedro, conforme Paulo admitiu, continuou a evitar

comer à mesa com os gentios, prova de que não se

afeiçoou bem à ideia. E outros nazarenos insistiram que

Jesus não tinha ensinado nada daquilo e que a lei era

para se cumprir. Dentro da seita dos nazarenos

começaram a aparecer subseitas, umas pró-judaicas,

outras formadas por gentios. Quando os três primeiros

evangelhos foram escritos, os de Marcos, Mateus e

Lucas, este debate estava ao rubro e estendera-se já

para fora da Judeia. Daí que os evangelistas se

esforcem por narrar episódios da vida de Jesus a

renegar o sábado e as leis da pureza dos alimentos:

eles não estavam na verdade a contar o que Jesus

fizera, mas a invocar a sua autoridade para resolver os

problemas dos novos tempos.”

Valentina ergueu a mão.

“Alto!”, exclamou. “É importante esclarecer uma coisa

primeiro. Os apóstolos podiam ter reservas em relação

aos gentios, aceito isso. Mas Jesus não! Apesar da sua

conversa de que ele não era cristão, a verdade é que

Jesus se abriu ao mundo e não discriminava ninguém.

Nesse ponto em concreto, Paulo tinha razão.”

O historiador fitou-a com intensidade e tocou com a

ponta do indicador na boca.

“Leia os meus lábios”, pediu. “Jesus era judeu até à

raiz dos cabelos!” Apontou para a janela. “Está a ver

aqueles judeus ultra-ortodoxos que andam por aí nas

ruas de Jerusalém, de barbas e vestidos de negro? Se

fosse vivo, Jesus seria um deles! Era um ultra-ortodoxo