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que defendia que se respeitasse a lei ainda com mais

zelo do que os outros judeus. Citado por Mateus, disse

Jesus em 5:20: ‘Eu vos digo: Se a vossa virtude não

superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no

reino dos Céus.’ Ele era um judeu zeloso! Ora os judeus

consideravam que os gentios eram imundos. Por isso,

Jesus

nem

se

misturava

com eles!

Na

verdade,

discriminava-os.”

A italiana arregalou os olhos, horrorizada.

“Mamma mia! Como pode afirmar uma coisa dessas? Jesus

descriminava os gentios? Que horror! Ele jamais faria

uma coisa dessas!”

Tomás voltou a sua atenção para a Bíblia.

“Se ler com cuidado o Novo Testamento, vai reparar que

Jesus quase não interagiu com gentios. A pedido de

alguns judeus, teve um breve contacto com um centurião

romano e chegou a sentir-se na obrigação de explicar à

multidão porque o fez.” Folheou o livro. “Jesus ordenou

mesmo aos apóstolos que evitassem os gentios quando

estivessem a propagar a boa nova. Citado por Mateus,

disse-lhes Jesus em 10:5-7: ‘Não sigais pelo caminho

dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide,

primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel.

Pelo caminho, proclamai que o reino dos Céus está

perto.’ Ou seja, e como qualquer judeu pio, Jesus fazia

questão de reduzir o contacto com os gentios ao

mínimo.” Virou para a página seguinte. “Uma gentia foi

ter com Jesus e pediu-lhe que exorcizasse a filha,

possuída por um demónio. Sabe qual foi a primeira

reacção de Jesus? Segundo Mateus, em 15:23: ‘Ele não

lhe respondeu palavra.’ Os apóstolos intercederam então

pela gentia. Sabe o que retorquiu Jesus? Segundo

Mateus, em 15:24, Jesus disse-lhes: ‘Não fui enviado

senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.’ Poderia

ele ser mais claro do que isto? Só à terceira Jesus lá

se dignou atendê-la!” Adiantou um punhado de páginas.

“O próprio Paulo, apóstolo para os gentios, escreveu na

Carta aos Romanos, em 15:8, que ‘Cristo Se fez servidor

dos circuncisos’, reconhecendo assim que Jesus apenas

pregava aos judeus.” Virou a Bíblia para a sua

interlocutora. “A sua mensagem não era pois para toda a

humanidade; destinava-se apenas aos judeus. Mesmo

quando Marcos o põe a dizer em Jerusalém que ‘a minha

casa será chamada casa de oração para todos os povos’,

uma

mensagem

aparentemente

universalista,

Jesus

esclarece, em 11:17, que está apenas a citar o que

‘está escrito’, numa referência às profecias de Isaías,

que, em 56:7, usam justamente a expressão ‘casa de

oração para todos os povos’.”

Recusando-se a acreditar, Valentina leu com os próprios

olhos os versículos de Mateus e de Marcos e a linha de

Paulo na Carta aos Romanos.

“É incrível!”, murmurou, abismada. “Isto nunca me foi

contado! Nunca, nunca!”

“No entretanto, ocorreu um acontecimento cataclísmico”,

disse o português, retomando a narrativa. “A revolta

judaica e a destruição de Jerusalém pelos Romanos, no

ano 70.”

Arnie Grossman acenou afirmativamente com a cabeça.

“Isso foi um trauma para o nosso povo, não há dúvida.”

“É um acontecimento de grande importância também para

os nazarenos”, sublinhou Tomás. “Os judeus tinham caído

em desgraça junto dos Romanos e a associação com a

religião judaica tornou-se menos recomendável. Além

disso, a generalidade dos judeus não aceitava que Jesus

fosse o masbia e os nazarenos acusavam-nos de terem

assassinado, o Filho de Deus. Por outro lado, o tal

reino de Deus não havia meio de aparecer! Jesus tinha

prometido aos apóstolos que eles ainda estariam vivos

quando Deus estabelecesse o Seu reino na Terra, mas

isso não acontecera. Os apóstolos começaram a morrer e

não ocorrera ainda nenhum julgamento final. As

perguntas incómodas multiplicavam-se na comunidade.

Então quando é que ressuscita toda a gente? Para quando

o juízo final? O reino de Deus vem ou não vem?”

“O que fizeram os líderes da comunidade?”

“Tiveram de começar a reinterpretar tudo. Afinal,

decidiram eles, o reino de Deus não era para já.”

“Mas como sustentaram teologicamente essa ideia?”, quis

saber Grossman. “Pelos vistos Jesus tinha sido muito

claro quando disse que a chegada do reino de Deus

estava iminente.”

“Pois tinha”, reconheceu o historiador, “mas,

confrontados com a realidade de que o reino não

aparecia, os líderes dos nazarenos puseram-se a fazer

ginástica com as palavras. O autor da Segunda Carta de

Pedro viu-se forçado a lidar com o problema, em 3:8-9:

‘Um dia diante do Senhor é como mil anos, e mil anos

como um só dia. O Senhor não retarda a Sua promessa,

como alguns pensam, mas usa da paciência para

convosco.’ Isto é inspirado nos Salmos, onde se

estabelece, em 90:4: ‘Mil anos, diante de Vós, são como

o dia de ontem que já passou.’ Ou seja, eles andaram a

vasculhar nas Escrituras até encontrarem algo que lhes

permitisse dizer que Deus tinha afinal uma concepção

diferente do tempo. A mensagem apocalíptica, muito

forte nos primeiros textos dos nazarenos, como as

epístolas de Paulo, o Evangelho segundo Marcos e as

fontes de Lucas e Mateus, designadas Q, L e M, foi

gradualmente enfraquecendo até desaparecer por completo

no quarto evangelho, o de João, escrito por volta do

ano 95. Para quê insistir na chegada do reino de Deus

se ele não havia meio de aparecer?”

“Mas

essa

mensagem

apocalíptica

manteve-se

nos

primeiros textos”, observou o polícia israelita. “E

esses textos permaneciam disponíveis. Como se lidou com

isso?”

“O grande problema é que a parte mais importante da

mensagem de Jesus, o anúncio do fim dos tempos e da

chegada do reino de Deus, estava errada. Mas ninguém

podia admitir que Jesus errara, pois não? Seria uma

gravíssima blasfémia. Então o que fazer? Os líderes da

comunidade puseram-se a afirmar que afinal era tudo

metafórico e coisa e tal. O reino de Deus deixou de ser

um regime físico e tornou-se uma metáfora espiritual.

Já não era questão de haver duas idades, a de Belzebu e

a de Deus, mas duas esferas, o Inferno e o Céu. E a

noção da ressurreição do corpo transformou-se no dogma

da imortalidade da alma. Enfim, arranjaram-se maneiras

criativas de contornar o desconfortável problema.”

“Quer dizer, o discurso foi-se adaptando à realidade.”

“Isso mesmo. E ao mesmo tempo que se foi tornando menos