apocalíptica a mensagem dos nazarenos foi divinizando
Jesus. Enquanto o primeiro evangelho canónico, o de
Marcos, o apresenta como um homem de carne e osso, que
por vezes até se zangava, o quarto evangelho, o de
João, já o mostra como Deus. ‘O Verbo fez-se homem e
habitou entre nós’, escreveu João em 1:14. Além disso,
o que é igualmente importante, a seita dos nazarenos
foi-se separando dos judeus até formar uma religião
distinta, a dos cristãos.”
“Ou seja, o cristianismo nasce da negação do judaísmo.”
“Exacto. Para os cristãos, a questão era muito simples:
se os judeus rejeitavam Jesus, Deus rejeitava os
judeus. Ou seja, aos olhos dos cristãos os judeus já
não eram o povo eleito. É interessante notar que a
culpa dos judeus na morte de Jesus aumenta à medida que
os Evangelhos vão sendo escritos, ao mesmo tempo que o
romano Pôncio Pilatos é ilibado de responsabilidades.
No primeiro evangelho, o de Marcos, Pilatos nunca
declara Jesus inocente. Nos dois evangelhos seguintes,
a coisa começa a mudar. Em Mateus, Pilatos afirma, em
27:24: ‘Estou inocente do sangue deste justo.’ E em
Lucas declara três vezes a inocência de Jesus. João, o
último evangelho, põe Pilatos novamente a declarar três
vezes a inocência de Jesus e entrega-o para execução,
não aos legionários, mas aos judeus. Num trecho, em
8:44, chega mesmo a pôr na boca de Jesus a afirmação de
que os judeus são ‘filhos de um pai que é o Diabo’. O
corte com o judaísmo estava consumado. Os judeus
cristãos
denunciaram
os
restantes
cristãos
como
heréticos, mas a denúncia acabou por ter um efeito
boomerang. Os gentios cristãos tornaram-se dominantes e
acabaram por suprimir os judeus cristãos. Os ebionitas,
uma seita que insistia ser Jesus um judeu de carne e
osso, foram declarados heréticos e silenciados, e os
judeus tornaram-se alvo do ódio dos cristãos. Autores
cristãos do século II, como Martyr, escreveram que a
circuncisão existia para sinalizar quem teria de ser
perseguido.
Quando
Constantino
se
converteu
ao
cristianismo, no século IV, os cristãos adquiriram
enfim o poder de que necessitavam para punir os judeus.
O resto é história.”
Arnie Grossman cruzou os braços.
“E foi assim que desembocámos nos pogrons e no
Holocausto”, observou. “Mas, pelo que entendi das suas
palavras, a religião cristã que hoje existe não é a
religião original de Jesus.”
Tomás indicou o papel que o polícia israelita mantinha
preso entre os dedos.
“É isso, em última instância, o que o assassino quis
dizer com todos os enigmas que nos deixou”, concluiu.
“Jesus Cristo não era cristão.”
Fez-se um silêncio brusco no quarto do hospital. O
português guardou a Bíblia
na gaveta da mesinha-de-
-cabeceira e recostou-se na vasta almofada da sua cama.
“Tudo isso é muito bonito”, observou Valentina com ar
contrariado, obviamente a pensar o contrário do que
acabara de dizer. “Mas o que fazemos agora? Para onde
vai a nossa investigação?”
O inspector-chefe da polícia israelita cravou os olhos
nela.
“Diga-me uma coisa, cara colega. Como é que o assassino
dos sicarii descobriu o vosso paradeiro aqui em
Jerusalém?”
A italiana encolheu os ombros.
“Não faço a mínima ideia.”
“Quem é que sabia da vossa presença na cidade?” “Vocês,
claro.” Arregalou os olhos, como se tivesse acabado de:
ser atingida por um relâmpago. “E... e... a Fundação
Arkan!”
Grossmain sorriu.
“Curioso», não é? Horas depois de vocês visitarem essa
fundação e de se envolverem numa discussão acalorada
com o presidente, um assassino entra no quarto do
professor
Noronha.
Interessante
coincidência,
não
acha?”
Valentina manteve a atenção presa no seu colega
israelita, como se estivesse hipnotizada.
“Dio mio! Como é que não pensei nisso?”, exclamou,
quase a recriminar-se. “Mais do que coincidência, isso
é um forte indício!”
O israelita levou a mão ao bolso do casaco.
“Talvez”, admitiu. “Mas mais fortes ainda são estes
documentos que recebi há pouco e de que não vos falei
ainda.” Mostrou-lhes um quadrado branco de folhas
dobradas. O polícia começou a desdobrá-las, revelando
duas páginas com o logotipo de uma árvore e repletas de
nomes, datas e valores.
“O que é isso?”
“Fomos investigar a folha de papel onde o assassino dos
sicarii escrevinhou o enigma e tivemos sorte”, revelou
enquanto endireitava as páginas. “Descobrimos que se
trata de um tipo raro de papel produzido por uma
empresa em Telavive.” Acenou com as duas folhas. “Aqui
está a lista de clientes para onde a empresa enviou
remessas deste papel específico. São apenas quinze
clientes. E vejam quem aparece na décima segunda
posição...”
Arnie
Grossman
pousou
o
dedo
grosso
na
linha
respectiva, situada a meio da segunda página, para onde
convergiram os olhares de Valentina e Tomás. O que
estava ali escrito não deixava margem para dúvidas.
Fundação Arkan.
XLVIII
A noite havia sido fria e desagradável, mas uma mi-
nudência dessas não tinha o poder de afastar Sicarius
da sua missão. Não havia ele já suportado inúmeras
noites ao relento, no topo do promontório de Masada,
exposto ao gelo nocturno do deserto e das alturas?
Diante disso, o que era passar a noite no Bairro Judeu
da cidade velha, mesmo a dois passos do Muro das
Lamentações e do sagrado monte Moriah, onde outrora se
erguera o Templo com o santo dos santos, a câmara por
onde Deus deambulava? Seria isso um sacrifício? Não,
sentia-o nas entranhas. Não se tratava de sacrifício;
nunca uma coisa dessas poderia ser penosa para ele.
Era uma honra.
Havia passado parte da noite a recitar os Salmos, os
poemas sagrados das Escrituras, enquanto vigiava os
acontecimentos na rua. Mas fora uma noite calma. Agora
que o dia nascera, porém, o Bairro Judeu acordava e
ouviam-se portas a bater e passos de transeuntes a soar
pelos passeios e o ocasional tilintar da campainha de
uma bicicleta que deslizava pela rua. A cidade velha de
Jerusalém agitava-se com a luz da manhã, preparando-se
para mais um dia. O Sol banhava os telhados dos
edifícios milenares, mas permanecia ainda demasiado
baixo e os seus raios não chegavam ao solo.
Um zumbido distante, que se misturava inicialmente com