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o rumor longínquo do trânsito para lá das muralhas,

transformou-se num ronco crescente que se distinguiu do

resto. Sicarius desceu o olhar até ao fundo da rua e,

ao fim de alguns segundos, viu três motos e dois

automóveis aparecerem com grande aparato. Eram viaturas

da polícia.

O cortejo imobilizou-se mesmo diante dos degraus onde

Sicarius passou a noite, obrigando-o a ajeitar o capuz

para melhor ocultar o rosto vigilante. Os polícias das

motos

mantiveram-se

montados

nos

seus

veículos,

lançando olhares desconfiados em todas as direcções,

incluindo ao monge que parecia dormitar num degrau ali

ao lado. No entanto, os homens que vinham nos carros

apearam-se com movimentos enérgicos e juntaram-se num

grupo informal, trocando palavras e desviando as

atenções do monge.

A seguir, o grupo dirigiu-se para a porta da fundação e

tocou à campainha. Eram seis pessoas e Sicarius

reconheceu-as todas. O inspector-chefe da polícia,

Arnie Grossman, três agentes à paisana e os dois

estrangeiros, a inspectora italiana e o historiador

português. Com o rosto abrigado pela sombra do capuz,

Sicarius esboçou um sorriso ao ver a mão engessada e o

curativo no pescoço do homem que tinha atacado na

véspera.

Havia feito bem o seu trabalho.

O grupo permaneceu longos instantes à porta. O ins-

pector-chefe

Grossman

tocava

insistentemente

à

campainha

e

os

seus

três

homens

começaram

a

inspeccionar as janelas da fundação, como se quisessem

verificar se havia alguém lá dentro. O historiador

olhava para o relógio e trocava umas palavras com a

italiana. Sicarius avaliou-a. Linda mulher, concluiu;

parecia uma daquelas beldades que por vezes aparecem no

cinema francês, de cabelos escuros e olhos de gata.

A porta abriu-se.

XLIX

“Polícia!”

O crachá estendido para a recepcionista confirmava a

identificação. A rapariga de cabelo preto pestanejou,

intimidada por todo aquele aparato de agentes de

autoridade e carros com sirenes às portas da fundação,

e recuou um passo.

“Em que posso ajudar-vos?”

Arnie Grossman cruzou a porta com a postura de quem

dominava a situação.

“Queremos falar com Arpad Arkan”, anunciou. “Ele está?”

“Um momento, por favor.”

A recepcionista foi ao telefone e digitou um número.

Alguém deve ter atendido do outro lado porque ela

começou a falar muito depressa, quase com urgência.

Depois fez uma pausa, anuiu e desligou. Voltou ao átrio

e fez sinal aos visitantes.

“Queiram acompanhar-me.”

Subiram ao primeiro andar e depararam-se com a figura

imponente do presidente da fundação a aguardá-los de

mãos nas ilhargas no topo das escadas, as grossas

sobrancelhas carregadas de desconfiança, a pose de um

soldado diante do inimigo. Cumprimentaram-se com

frieza. Arkan apenas apertou a mão a Grossman,

preferindo fazer um sinal com a cabeça aos restantes.

Quando viu Valentina, emitiu um grunhido hostil.

Manifestamente, a italiana não era bem-vinda, mas ela

não pareceu incomodada com isso.

O anfitrião levou os visitantes para o seu gabinete.

Como só havia duas cadeiras e eles eram seis, a

recepcionista foi buscar mais quatro. No meio do

burburinho de determinar quem se sentava onde, Tomás

ficou a admirar os papiros e os pergaminhos emoldurados

nas paredes, tentando adivinhar a respectiva idade; leu

linhas em hebraico e grego e pareceram-lhe extractos do

Antigo e do Novo Testamento. O rigor e o cuidado postos

no texto de um pergaminho pareceram-lhe reflectir o

profissionalismo

da

escola

alexandrina,

o

que

significava que se tratava de um espécime valioso, mas

outro manuscrito deu-lhe a impressão de ser bizantino,

mais tardio e de menor interesse.

Todos os visitantes se acomodaram entretanto e o

português viu-se obrigado a seguir-lhes o exemplo,

instalando-se na única cadeira que ficara vazia.

“Então a que devo o prazer desta nova visita?”,

perguntou Arkan, já sentado na sua poltrona, por detrás

da secretária. “Presumo que tenha alguma coisa a ver

com os três académicos assassinados...”

Grossman pigarreou.

“Presume bem”, anuiu. Fez um sinal na direcção de

Valentina. “Recebemos recentemente um pedido das

polícias italianas, irlandesa e búlgara para dar

assistência à investigação internacional que está a ser

conduzida pela inspectora Ferro, da Polizia Giudiziaria

de Itália, com a colaboração do professor Noronha,

historiador da Universidade Nova de Lisboa.”

“Já os conheci”, murmurou o presidente da fundação em

tom agastado. “Estiveram cá noutro dia.”

“Assim fui informado”, disse o polícia israelita. “Mais

fui informado de que se deu a coincidência de as três

vítimas se terem conhecido justamente aqui neste

edifício no decurso de uma reunião que tiveram

consigo.”

Grossman calou-se e deixou o olhar inquisitivo demorar-

-se no seu interlocutor, como se buscasse confirmação.

“Assim é, de facto.”

“Três

meses

depois,

os

três

académicos

foram

assassinados”,

acrescentou

o

inspector-chefe

com

secura.

Estreitou

as

pálpebras.

“Estranha

coincidência...”

Arkan remexeu-se na poltrona, claramente incomodado com

esta última observação.

“Lá estão vocês com as vossas insinuações torpes”,

grunhiu, fazendo porém um esforço para controlar o tom

de voz. “Não tenho culpa nenhuma do sucedido. Lamento

estas mortes e, se pudesse voltar atrás no tempo, nem

sequer os tinha convidado.”

“Pode ser que sim”, disse Grossman. “O problema é que

as coincidências não se ficam por aqui.” Indicou

Valentina e Tomás. “Horas depois de os nossos colegas

terem estado aqui a conversar consigo e terem sido

postos na rua por si, o professor Noronha foi atacado

por um desconhecido no seu quarto de hotel.”

O anfitrião arregalou os olhos e fitou Tomás; se não se

sentia surpreendido, fingia bem.

“O quê?!”

O português ergueu a mão direita engessada, esticou o

pescoço para expor o penso e forçou um sorriso.

“Estão aqui as provas.”

O inspector-chefe israelita não descolou o olhar do

interlocutor, como se estudasse as suas reacções.

“Outra coincidência, não lhe parece?”, perguntou, num