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registo sibilino. “O senhor enfureceu-se com eles,

expulsou-os da fundação e algumas horas depois alguém

os atacou.”

Arkan deu um salto e pôs-se de pé, as faces rubras, as

sobrancelhas felpudas a tremerem de indignação.

“Como se atreve?!”, vociferou, fora de si. “Está a

insinuar que eu... que eu tive alguma coisa a ver com

aquilo?” Apontou para Tomás, como se o historiador

fosse aquilo. “Mas o que vem a ser isto?! Está tudo

louco? Como podem pensar uma coisa dessas? Com que

direito? Agora sou o culpado de tudo o que de errado se

passa no mundo?”

O presidente da fundação bufava e tremia, mas Grossman

não

se

mostrou

intimidado.

Deixou-se

ficar

tranquilamente na sua cadeira, de perna cruzada, e

esperou que o vendaval passasse.

“Tenha calma”, aconselhou por fim. “Ninguém o está a

acusar de nada.” Descruzou as pernas e dobrou o corpo

na direcção do seu interlocutor. “Ainda.” Recostou-se

novamente, muito satisfeito consigo próprio, e voltou a

cruzar as pernas. “O problema é que ocorreu uma nova

coincidência.” Fez um sinal ao polícia sentado ao seu

lado e o homem entregou-lhe um manuscrito. O inspector-

chefe abriu-o e retirou do interior uma folha de papel.

“Reconhece isto?”

Tratava-se do enigma que Tomás havia decifrado na noite

anterior, no quarto do hospital.

Arkan inclinou-se sobre a secretária para melhor

observar os rabiscos e esboçou uma expressão de

ignorância.

“Não faço ideia do que seja.”

“É uma charada que o agressor do professor Noronha

deixou no local do ataque”, explicou. “Uma mensagem, de

resto, muito parecida com as que foram encontradas ao

pé das vítimas de Roma, Dublin e Plovdiv.”

“E então?”

“E então, mandei analisar este papel. Localizámos o

fornecedor em Telavive e fomos informados de que se

tratava de um tipo de papel muito raro, só fornecido a

quinze clientes. A sua fundação é um deles.”

A boca de Arkan entreabriu-se de estupefacção.

“O quê?!”

Grossman acenou com a folha onde o enigma se encontrava

escrevinhado.

“Este papel veio provavelmente da sua fundação”, disse

devagar, quase a soletrar as palavras. “Tem alguma

explicação para isso?”

Os olhos do anfitrião dançavam entre a folha de papel e

o rosto do inspector-chefe, como se aí pudesse

encontrar a resposta à pergunta.

“Eu... eu não sei...”, titubeou. “Isso é... é

impossível.” Abanou a cabeça, ganhando convicção. “Não

pode ser!”

“No entanto, é o que diz a empresa.” Manteve os olhos

cravados no seu interlocutor.

“Agora repare na sequência de acontecimentos. O senhor

teve uma altercação com a inspectora Ferro e o

professor Noronha. Horas depois, o professor Noronha

foi atacado. O agressor deixou uma charada rabiscada

num papel adquirido pela sua fundação. Explique-me, por

favor!”

Arkan parecia atarantado, quase incapaz de formular um

discurso coerente.

“Deve haver engano!”, exclamou. “Uma coisa dessas

implica que... que...” Voltou a abanar a cabeça. “Não,

não pode ser! Tem de haver uma explicação qualquer!”

“Claro que sim”, concordou Grossman, sempre muito

calmo. “E a primeira explicação relaciona-se com os

três académicos que o senhor recebeu aqui na sua

fundação e que acabaram assassinados. Ainda ninguém

percebeu bem a natureza da investigação que os ligava.”

“Contratei-os para consultoria”, afirmou o anfitrião.

“Não há nada para explicar!”

O inspector-chefe fez um novo sinal para o homem ao seu

lado. O polícia entregou-lhe um segundo envelope, que

Grossman encetou. Retirou uma carta do interior,

encabeçada pelos símbolos oficiais de Israel.

“Se insiste em manter o silêncio, receio ter de o

convidar a acompanhar-nos para esclarecimentos”, disse,

estendendo-lhe a carta. “Verifique se está tudo em

conformidade.” Arkan pegou hesitantemente na carta, uma

expressão interrogativa no olhar.

“O que é isto?”

“Um mandado de detenção”, esclareceu o polícia

israelita. “Em seu nome.”

“Como?!”

“Perante as sucessivas coincidências a envolverem a sua

instituição neste estranho caso, o juiz acedeu a

autorizar-nos a dar-lhe ordem de prisão enquanto o

inquérito prossegue.” Exibiu um sorriso. “O que dá dois

anos, no mínimo, enquanto isto não se esclarece em

todos os seus contornos.” O presidente da fundação

estava de tal maneira atónito que nem conseguiu ler o

texto do mandado.

“Dois anos?!”

Grossman fez que sim com a cabeça.

“No mínimo. O prazo pode ser prolongado um ano.” Arkan

deixou-se cair para trás, recostando-se na poltrona

numa postura de derrota. O anfitrião mantinha o mandado

preso entre os dedos, mas claramente nem o sentia.

“Meu Deus!”

O inspector-chefe examinou as próprias unhas, como se

naquele momento se preocupasse sobretudo com a sua

higiene pessoal.

“A menos que o senhor decida poupar-se a estes sarilhos

e nos explique o verdadeiro motivo pelo qual convocou

os professores Escalona, Schwarz e Vartolomeev para uma

reunião.”

Levantou os olhos e cravou-os no seu interlocutor.

“Quero o verdadeiro motivo.”

O rosto de Arpad Arkan exibia uma lividez cadavérica.

Gotas de transpiração escorriam-lhe pela face, enquanto

avaliava as opções diante dele e o dilema o paralisava.

Passou os olhos pelos cinco polícias à sua frente e só

encontrou alguma simpatia no rosto do historiador

português,

evidentemente

menos

à

vontade

nestas

situações constrangedoras, em que um homem é posto

perante a terrível perspectiva de perder a liberdade. O

que fazer?

Ouviu um tilintar de metais e notou que um dos polícias

preparava já as algemas. O tempo escasseava, percebeu.

Quase em transe, o presidente da fundação forçou-se a

tomar uma decisão e chegou à conclusão de que, no ponto

a que as coisas haviam chegado, tinha de pôr os seus

interesses pessoais à frente do resto.

“Isto já foi longe de mais”, concluiu. “Vou contar-vos

tudo. Mas não aqui.”

“Onde, então?”

“No local onde se desenvolvem os trabalhos.”

“Que trabalhos? Está a falar de quê?”

Arkan respirou fundo, como um atleta que se prepara

para entrar em competição, e levantou-se do seu lugar.

“Do mais extraordinário projecto da humanidade.”

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