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A porta da fundação abriu-se e a partir desse instante

foi tudo muito rápido. Sicarius viu Arpad Arkan

abandonar o edifício na companhia dos polícias

israelitas, da inspectora italiana e do historiador

português e instalarem-se todos nos automóveis. Num

despertar súbito, as motos dos batedores desataram a

roncar e logo a seguir foi a vez dos carros, embora

estes mais suavemente.

O homem encapuzado que estava sentado num degrau do

outro lado da rua ergueu-se com gestos langorosos, para

evitar

despertar

as

atenções.

Lançou

um

olhar

enfastiado às viaturas e espreguiçou-se. Depois pôs-se

a caminhar com aparente despreocupação para a moto

negra parqueada a alguns metros de distância.

As viaturas iniciaram a marcha. À frente seguiam as

duas motos dos batedores, depois vinham os dois

automóveis, atrás encontrava-se a última moto da

polícia. Sicarius viu-os passar e só então tirou o

manto que o cobria. Guardou-o na sacola, que apertou às

costas, montou a sua moto e ligou o motor. A máquina

rugiu.

Ao fundo da rua, o cortejo da polícia dobrava já a

curva.

“Pensam que estão em segurança?”, murmurou Sicarius, os

olhos presos às traseiras dos veículos. “Enganam-se.”

A moto arrancou com estrépito e acelerou pela rua como

uma bala de canhão, chegando a empinar-se durante

alguns metros. Instantes depois Sicarius retomou o

contacto visual com a coluna da polícia e abrandou;

convinha-lhe manter a discrição.

O cortejo ziguezagueou pela cidade velha e saiu pela

Porta do Lixo, junto ao monte Moriah, em pleno Bairro

Judeu, mergulhando no bulício nervoso da Jerusalém

moderna. O tráfego era intenso, pelo que, apesar dos

batedores que abriam caminho, o cortejo avançou com

relativa lentidão. Como ia de moto, Sicarius conseguiu

progredir através do trânsito e colou-se à coluna.

“Isto não anda!”, resmungou.

Ia depressa de mais, percebeu. A continuar àquele

ritmo, em breve ultrapassaria o cortejo. Viu-se assim

forçado a abrandar, mas, como a progressão das viaturas

da polícia continuava a ser muito lenta, optou por

parar durante trinta segundos, de modo a deixar a

coluna ganhar alguma distância.

O tráfego melhorou consideravelmente depois de saírem

da cidade. A coluna seguiu para oeste, como se fosse

para Telavive, e o perseguidor continuou no seu

encalço,

embora

procurando

sempre

respeitar

uma

distância prudente e manter várias viaturas civis no

espaço que o separava do cortejo policial.

A viagem prosseguiu por mais de duas horas, sem muita

história. Antes de chegarem a Telavive, viraram para

norte e meteram pela rodovia Trans-Israel. Sicarius

ficou alerta quando se aproximaram da saída para

Netanya, mas o seu alvo ignorou as indicações para a

cidade da costa e manteve-se na estrada principal, rumo

a norte.

“Mas para onde vai esta gente?”, interrogou-se o

perseguidor, admirado com a viagem prolongada. “Para

Haifa? Para Acre?”

A resposta veio pouco depois, quando o cortejo

abandonou a estrada principal na saída da mais famosa

povoação da região da Galileia. No momento em que viu a

tabuleta à entrada da cidade, Sicarius percebeu que, se

tivesse

raciocinado

um

pouco,

facilmente

teria

adivinhado o destino. Como não pensara nisso mais cedo?

A tabuleta anunciava Nazaré.

LI

Antes de o cortejo de viaturas da polícia subir o monte

e entrar no perímetro urbano de Nazaré, o automóvel da

frente, onde seguia Arpad Arkan, virou à direita e

meteu por um caminho secundário. As motos e o segundo

carro, onde se encontravam Tomás e Valentina, viraram

também à direita e acompanharam a viatura da frente;

era evidente que o presidente da fundação estava a dar

instruções sobre o itinerário.

Diversos edifícios de traça moderna, com estruturas

metálicas e vidros, apareceram à esquerda, os vultos a

agigantarem-se entre o arvoredo. O cortejo cruzou os

portões do complexo e dirigiu-se para a entrada

principal do primeiro edifício, adornada por dois arcos

de aço entrecruzados como colunas dobradas por uma

força colossal.

Os automóveis e as motos imobilizaram-se à frente da

porta e a atenção do historiador desviou-se para uma

grande placa que identificava o complexo em inglês.

Advanced Molecular Research Center.

As portas das viaturas abriram-se e os ocupantes

apearam-se. Do carro da frente saíram primeiro os

polícias e depois Arkan, que se voltou para todos os

que o acompanhavam.

“Bem-vindos à jóia da coroa da minha fundação!”, disse

ele com evidente orgulho. “Este edifício chama-se

Templo.” Apontou para os dois enormes arcos que

decoravam a entrada e desviou o olhar para Tomás.

“Professor, sabe o que isto é, não sabe?”

O historiador aquiesceu.

“As portas do Templo de Jerusalém eram guardadas por

duas grandes colunas”, disse. “Se este edifício se

chama o Templo, presumo que estes arcos representem

essas colunas.”

“Isso mesmo.” Indicou a entrada. “Quando cruzarem esta

porta, lembrem-se que vão entrar num novo mundo.” Fez

um gesto grandiloquente com os braços. “O mundo do

Templo.”

Arnie Grossman fez um gesto para os seus homens.

“Vamos!”

Os polícias dirigiram-se para a entrada do edifício,

mas Arkan deu três passos rápidos e cortou-lhe o

caminho.

“Senhor inspector”, disse, “tenho muito gosto em

convidar a polícia a visitar as nossas instalações,

mas... sem armas. Lamento, são as regras em vigor no

Templo.”

O

inspector-chefe

da

polícia

israelita

estacou,

surpreendido com a objecção.

“Que disparate vem a ser este?”

Arkan pousou nele os olhos.

“O senhor tem algum mandado judicial para entrar neste

edifício?”

“Tenho um mandado para o deter se achar necessário.”

“Para me deter, onde?”

“Bem... na fundação ou na via pública.”

O presidente da fundação girou a cabeça em redor,

fingindo

que

se

certificava do

local

onde

se

encontravam.

“Olha, olha”, disse. “Não estamos na fundação nem na

via pública, pois não?”

Os olhos do polícia chisparam e a voz tornou-se gelada,

repleta de ameaças veladas.

“Quer que eu vá ao juiz obter o mandado? Olhe que

isso...” Arkan abanou negativamente a cabeça.