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“Os senhores são bem-vindos ao Templo”, apressou-se a

esclarecer. “A única coisa que gostaria de evitar é a

entrada de armas neste edifício. As nossas regras

proíbem-no explicitamente.”

Grossman olhou para os seus homens com uma expressão

pensativa e avaliou o pedido. Depois voltou-se para o

seu interlocutor, a decisão já tomada.

“Ninguém desarma a polícia israelita”, sentenciou.

“Mas, num gesto de boa-fé, estou disposto a chegar a um

compromisso que me parece razoável. Os meus homens

ficam cá fora e só entro eu.” Abriu a aba do casaco e

revelou uma pistola atada ao peito. “Armado.”

O anfitrião olhou para a pistola e durante uns momentos

ponderou a proposta.

“Não pode deixar a arma com os seus homens?”

“Isto é inegociável”, murmurou Grossman. “E se calhar

já estou a contemporizar em demasia...”

Arkan massajou o queixo, pensativo. Porque não? A

alternativa àquela proposta de compromisso era os

polícias arranjarem um novo mandado e prenderem-no. A

regra que impusera no seu Templo determinava que não

haveria armas no interior, mas certas situações

requeriam flexibilidade. Aquela parecia-lhe uma delas.

“Está bem”, acedeu, com um gesto de rendição. “O senhor

entra armado. Os seus homens ficam cá fora.”

O inspector-chefe da polícia deu instruções aos seus

subordinados e, tudo já esclarecido, fez sinal a Arkan.

O presidente da fundação entrou enfim no edifício,

seguido por Grossman, Tomás e Valentina. Depois de se

identificarem na recepção, os visitantes passaram por

um detector de metais. Os dois seguranças que

controlavam a entrada não gostaram de ver a arma do

polícia penetrar no perímetro, mas o chefe fez-lhes

sinal de que estava tudo bem e eles consentiram.

O interior do edifício era, depois da entrada,

iluminado pela luz natural de um grande pátio. Havia

longos

corredores

em

duas

direcções

opostas,

contornando o pátio como tentáculos a abraçá-lo. Cada

corredor exibia uma fileira de portas na parede oposta

ao pátio.

“Onde estamos?”, quis saber Grossman.

Com os olhos pequenos quase escondidos por baixo das

sobrancelhas grossas, Arkan fez uma expressão de sonso.

“No Templo, já lhe disse.”

“Não era isso o que dizia lá fora”, atalhou Tomás,

indicando a entrada com o polegar. “A tabuleta

anunciava um Advanced Molecular Research Center. O nome

não me parece ter grandes conotações religiosas...”

O anfitrião soltou uma gargalhada; a irritação com que

os acolhera na fundação parecia substituída por uma

vasta bonomia.

“Tem razão, professor!”, exclamou Arkan. “Templo é o

nome deste edifício onde nos encontramos. Mas o

complexo tem de facto uma designação mais científica,

que revela os seus verdadeiros propósitos. Na verdade,

estamos no Centro de Pesquisa Molecular Avançada, o

mais ambicioso e sofisticado projecto da minha

fundação.”

“Sim, mas o que se faz aqui?”

“É segredo.”

O inspector-chefe exibiu o seu mandado judicial e,

confiante

de

que

a

visão

do

documento

era

suficientemente eloquente, sorriu.

“Se assim é, receio que tenha de nos contar tudo. Que

segredo vem a ser esse?”

Arkan respirou fundo, preparando-se mentalmente para

começar a revelar o que sempre escondera do mundo, e

arqueou as sobrancelhas peludas no momento em que fez a

declaração.

“É a última esperança da humanidade.”

LII

O bafo quente da humidade artificial acolheu os

visitantes quando penetraram no grande salão situado no

complexo científico da Fundação Arkan em Nazaré. Por

toda a parte cresciam plantas, com caminhos abertos

entre elas, como uma selva ordenada. O tecto do salão

era coberto por vidro fosco, deixando a luz do Sol

banhar a verdura que enchia todo o perímetro.

Uma estufa, percebeu Tomás. Tinham entrado numa estufa

gigante.

“Éden”, anunciou Arpad Arkan com um vasto sorriso.

“Este sector do complexo chama-se Éden.” Fez um gesto

para as plantas em redor. “É fácil entender porquê, não

é verdade?”

“O que isto é já eu percebi”, disse Grossman. “Mas para

que serve uma estufa em instalações científicas como

estas?”

O anfitrião não respondeu de imediato. Dirigiu-se a um

homem de bata branca, pequeno e magro, que estava

acocorado a analisar as folhas de uma planta, e

cumprimentou-o efusivamente. Trocaram algumas palavras,

impossíveis de captar à distância, mas era evidente que

Arkan lhe explicava a situação, uma vez que o homem da

bata branca desviou o olhar para os três visitantes

enquanto

escutava

o

chefe.

Por

fim

acenou

afirmativamente e acompanhou o presidente da fundação

até junto dos dois polícias e do historiador.

“Este é o professor Peter Hammans”, apresentou-o Arkan.

“É o director do Departamento de Biotecnologia do nosso

centro.” Deu-lhe uma palmada nas costas que quase o

atirou

ao

chão.

“Roubámo-lo

à

Universidade

de

Frankfurt.”

O professor Hammans, um homem com o rosto magro cortado

por rugas e uma barba grisalha rala que afunilava no

queixo, reequilibrou-se e, com um sorriso encabulado,

estendeu a mão aos desconhecidos.

“Muito prazer.”

Trocaram cumprimentos e apertos de mão, com cada

visitante

a

apresentar-se

com

nome

e

funções.

Terminadas as cortesias introdutórias, que envolveram

uma rápida explicação do inquérito que estava a

decorrer aos três homicídios na Europa, o director do

Departamento de Biotecnologia levou-os para um canto da

estufa e mandou-os sentar-se a uma mesa.

“Gostaria de vos oferecer uma coisa para comerem”,

disse com um sorriso malicioso. “Querem provar uma

couve geneticamente alterada ou uma couve absolutamente

natural?”

“Uma couve geneticamente alterada?”, interrogou-se

Grossman. “Nem pensar! Isso faz mal à saúde!”

O professor Hammans foi ao frigorífico e distribuiu

pratos com uma folha de couve por cada um dos três

visitantes.

“Então experimentem a couve no seu estado natural.”

Valentina fez uma careta.

“Não tenho fome...”

O cientisita apontou para a couve.

“Coma!”, insistiu. “É importante para a demonstração

que vos quero fazer.”

Os três lançaram um olhar desconfiado à folha de couve