que cada um tinha no seu prato. Estava cozida, mas
apresentava um aspecto que não era familiar.
Tomás espetou o garfo na sua e levou-a à boca. Deu duas
mastigadelas e, acto contínuo, cuspiu os pedaços que
saboreara.
“Bah! Que porcaria!”
O professor Hammans simulou um ar admirado.
“Então? 'Que se passa?”
O historiador fez uma careta.
“Esta couve é intragável”, disse. “Sabe a... sei lá,
tem um sabor amargo!”
Os dois polícias provaram um pequeno pedaço, que
trincaram quase a medo, e confirmaram o veredicto.
“Isto não presta para nada!”, sentenciou Grossman. “Que
raio de couve é esta?”
O director do Departamento de Biotecnologia voltou ao
frigorífico e trouxe uma outra couve cozida, que cortou
em três pedaços pequenos e distribuiu pelos pratos.
“Experirmentem agora esta couve e digam-me o que vos
parece...”
Desta vez: Tomás hesitou. À luz do que acabara de
suceder, interrogava-se sobre se deveria sujeitar-se
àquela experiência. Analisou a nova folha. Parecia-lhe
perfeitamente normal, como as que se emcontram no
supermercado. Uma couve lombarda. Com mil cuidados,
espetou o garfo na folha e levou-a à boca. Deu uma
pirimeira trincadela e parou, à espera que algo de
muito estramho lhe acontecesse na boca. Tudo parecia
normal. Deu uma segunda trincadela e voltou a aguardar
algo de explosivo. Nada. Retomou a mastigação e comeu a
couve.
“Então?”, quis saber o professor Hammans, o olhar
expectante. “Estava boa?”
“Hmm-hmm”, confirmou o historiador, ainda a mastigar.
“Fria, mas normal.”
Os dois polícias, que preferiram prudentemente aguardar
a reacção de Tomás, meteram esta segunda folha à boca e
mastigaram-na, confirmando o veredicto.
“Sabem como é que isto ficava mesmo bom?”, perguntou
Valentina enquanto saboreava a couve. “Com spaghetti,
azeite e alho.”
O director do Departamento de Biotecnologia trocou um
olhar rápido com Arpad Arkan e sorriu para os três
visitantes.
“Estão a ver esta primeira couve?”, perguntou. “É
absolutamente natural e vocês não a conseguiram comer.”
Indicou a boca dos seus interlocutores. “A segunda
couve é geneticamente modificada e acharam-na uma
delícia!”
Grossman suspendeu a mastigação.
“O quê?”, indignou-se. “O senhor deu-me a comer uma
couve geneticamente modificada?”
“E vocês adoraram!”
O inspector-chefe virou a cara para o lado e cuspiu a
comida mastigada para o chão.
“Que horror!”, exclamou. “Eu não como estas porcarias!”
O professor Hammans simulou surpresa.
“O quê? O senhor nunca comeu couve na vida?”
“Claro que comi! Mas nunca comi couve geneticamente
modificada! Isso, recuso-me!”
O cientista cruzou os braços e fitou-o fixamente, como
um professor à espera que o aluno corrija a resposta
errada. A seguir desviou a atenção para a folha de
couve que ninguém havia conseguido engolir.
“A única couve existente no mundo que nunca foi
geneticamente alterada é essa aí”, disse. “E vocês não
a quiseram comer. Todas as outras couves, e em especial
aquelas couves deliciosas que se encontram à venda nos
supermercados, como a couve lombarda, a couve roxa e
todas as outras, foram geneticamente manipuladas.”
“O quê?”
“É como lhe digo”, insistiu o professor Hammans. “As
couves naturais são demasiado amargas para consumo
humano. O seu sabor desagradável é, obviamente, um
mecanismo de defesa que desenvolveram para impedir que
os animais as comessem. Para as tornar saborosas, o que
fizeram os seres humanos? Começaram a manipulá-las
geneticamente, claro.”
“A manipulá-las geneticamente como?”, questionou Gross-
man. “Está a insinuar que as couves à venda nos
supermercados foram concebidas em laboratório?”
“Não num laboratório convencional, com bactérias e
ampolas e tubos de ensaio e placas de Petri e coisas
assim. Mas sim, as couves que consumimos são de certo
modo produtos de laboratório. Ou pelo menos de
manipulação genética. Desde que o homem inventou a
agricultura, há mais de dez mil anos, que não tem feito
outra coisa que não seja manipulação genética. Os
agricultores andam há milhares de anos a cruzar plantas
de modo a produzir verduras novas, mais saborosas e
fáceis de plantar.”
“Oh, isso é uma coisa diferente!...”
“Não é não! O cruzamento de plantas é uma forma
elementar de manipulação genética. As couves que
comemos não existiam assim no estado natural. Foram
desenvolvidas ao longo de muito tempo em cruzamentos
sucessivos
de
plantas.
Os
agricultores
faziam
experiências e, através do sistema de tentativa e erro
no cruzamento de verduras diferentes, criaram produtos
que não existiam na natureza. Muitos desses produtos
estão
à
venda
nos
supermercados
e
comemo-los
diariamente na sopa, na salada ou em forma de fruta.”
Arnie Grossman olhou para Valentina e Tomás em busca de
apoio, mas não o obteve. Quem se atreveria a desmentir
um especialista em biotecnologia num assunto, daqueles?
Vendo-se sem argumentos, o polícia israelita fez um
gesto rápido com a mão, como se afastasse uma mosca.
“Está bem, e depois?”, perguntou, com alguma irritação
na voz. “O que quis provar com isso?”
O professor Hammans sorriu.
“Quis simplesmente demonstrar que a biotecnologia é
usada pelos seres humanos há milhares de anos e não tem
nada de mal. Os agricultores estão habituados a cruzar
diferentes variedades de plantas para obter espécies
novas.” Ergueu o dedo. “Aliás, é até interessante notar
que a própria natureza pratica a biotecnologia. E até a
clonagem! Os morangueiros, por exemplo, libertam
vergônteas que depois se transformam em morangueiros.
Esses novos morangueiros são clones do original. As
sementes de batata usadas para plantar batatas não são,
na verdade, sementes, mas clones da batata de onde a
semente foi cortada. E quando arrancamos uma folha e a
plantamos, e ela se transforma numa nova planta, essa
nova planta é um clone da planta original.”
“Ah, bom!...”
“A questão que se põe é perceber como funciona este
cruzamento. Se cruzarmos uma planta comprida com uma
planta curta, que tipo de planta resultará da
experiência?”
“Ora, essa é fácil!”, exclamou Grossman. “Sai uma