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planta média, claro!”

“Isso foi o que sempre se pensou. Mas decerto já ouviu

falar em Mendel, que fez a experiência com plantas que

produzem ervilhas. Sabe o que aconteceu? Todas as

plantas que resultaram deste cruzamento eram altas!

Mendel ficou surpreendido. Então decidiu cruzar uma

vagem verde com uma amarela. Todas as plantas

resultantes deste cruzamento nasceram verdes. Mendel

concluiu

que

havia

características

dominantes

e

características recessivas. A planta comprida era

dominante, a curta era recessiva. A vagem verde era

dominante, a amarela era recessiva. Sempre que se

cruzavam, a recessiva desaparecia.”

Tirou a língua de fora e afunilou-a. “É como afunilar a

língua. Quem consegue fazer como eu?” Preocupado com

salvaguardar a sua dignidade de polícia, Grossman

recusou-se a participar na experiência, mas Valentina e

Tomás colaboraram. O português afunilou a língua, a

italiana não.

“Não consigo!”, queixou-se ela. “Como é que vocês fazem

isso?”

“É uma habilidade inata”, explicou o professor Hammans.

Indicou os dois. “No entanto, se a senhora engravidar

deste cavalheiro, os vossos filhos terão todos a

capacidade de afunilar a língua. Ou seja, essa

característica é dominante.”

Tomás e Valentina trocaram um olhar embaraçado.

“Pois...”

“O mesmo se passa com os olhos. Os olhos castanhos são

dominantes, os azuis são recessivos. A visão a cores é

dominante, a visão sem cores é recessiva.” Passou a mão

pela barba. “Tendo feito esta descoberta, Mendel não se

ficou por aqui. Pegou nas plantas altas resultantes dos

cruzamentos e cruzou-as entre elas. O que acham que

aconteceu?”

Foi a vez de a italiana responder, esforçando-se por se

libertar do embaraço que lhe transparecia no rosto.

“As altas não são as dominantes?”, perguntou. “Então

resultaram novas plantas altas.”

O cientista abanou a cabeça.

“Um quarto das plantas nasceram curtas. Ou seja, na

primeira geração as altas dominaram e as curtas

desapareceram por completo. Contudo, na segunda geração

as curtas reapareceram. Tinham-se mantido escondidas na

primeira geração para depois reaparecerem. Mendel

concluiu que havia algo de especial nas plantas que

determinava o seu tamanho, e deu um nome a isso.

Chamou-lhe gene.”

“Gene, de genética?”

O rosto chupado do professor Hammans, com os malares

salientes e a barba grisalha a formarem uma extremidade

pontiaguda no queixo, voltou a abrir-se num sorriso.

“E de génesis”, disse. “O texto da criação.”

LIII

Havia já algum tempo que Sicarius estudava os edifícios

à distância. Vira o cortejo entrar pelo portão que dava

acesso ao complexo, mas não se atrevera a aproximar-se.

E se algum dos polícias o tinha visto de moto no

percurso de Jerusalém? Se o avistasse de novo, e ali,

decerto chegaria a conclusões. Era por isso fundamental

desfazer-se da moto.

Sicarius desmontou e deixou a sua máquina negra

estacionada na berma da estrada, à sombra de uma

oliveira. Escondeu o capacete na sacola e meteu-a na

caixa de viagem por cima da roda traseira. Depois

voltou-se e começou a caminhar descontraidamente ao

longo do muro, em direcção ao portão.

Chegou junto das grades do portão e espreitou para o

interior do complexo. Viam-se as três motos da polícia

e os dois carros estacionados junto à entrada do

edifício da frente. Vários homens conversavam por ali e

o intruso contou-os. Três fardados e três à paisana. Os

seis polícias tinham ficado cá fora.

“O mestre é brilhante”, murmurou Sicarius, sem ocultar

o sorriso. “Um verdadeiro génio!”

O seu mentor arranjara maneira de deixar os polícias à

porta do complexo, concluiu. Isso era extraordinário,

porque facilitaria enormemente a operação.

“Deseja alguma coisa?”

Uma voz interpelou Sicarius de surpresa. O intruso

olhou na direcção de onde ela soara e descobriu,

embasbacado, que estava ali um segurança do complexo.

Não havia reparado nele! Com a atenção voltada para os

polícias, negligenciara aquele pormenor. Como podia ter

sido tão descuidado?

“Sou um turista cristão”, desculpou-se. “É aqui que

está a gruta onde o anjo Gabriel anunciou a Maria que

iria gerar Jesus?”

O guarda riu-se.

“A Gruta da Anunciação encontra-se na basílica”,

explicou, apontando em direcção ao casario de Nazaré,

lá ao fundo. “Tem de ir para a cidade velha.”

Sicarius acenou em despedida.

“Ah, obrigado.” Desenhou uma cruz no ar. “Deus o

abençoe!”

O intruso afastou-se com ar descontraído, mas, pelo

canto do olho, inspeccionou o muro que protegia o

recinto. Era alto, embora não em demasia. O maior

problema parecia ser o arame farpado enrodilhado no

topo. Além disso, é claro, teria de escolher o ponto

ideal para passar para o outro lado. O melhor seria dar

uma volta a todo o perímetro e escolher o sítio mais

discreto. Já percebera que o complexo era protegido por

um dispositivo de segurança, mas não se tratava de nada

de extraordinário. No fim de contas, não tinha de

penetrar num banco nem numa cadeia de alta segurança.

As

medidas

de

protecção

pareciam-lhe

apenas

ligeiramente mais fortes do que as de um edifício

normal. Nada que não se ultrapassasse. Afinal não tinha

já lidado com coisas bem piores?

Atirou um novo olhar ao muro. O que fazer com o arame

farpado ali no topo? Não ia ser agradável, mas tinha na

caixa da bagagem da moto um alicate que iria resolver

esse problema. Dispunha também das cordas necessárias

para escalar até lá acima. Como é evidente, era também

na caixa da moto que se encontrava o instrumento mais

importante para aquela missão.

A adaga sagrada.

LIV

O edifício era seguramente o maior do complexo. Logo

que o grupo saiu de Éden, a estufa, Arkan e Hammans

conduziram os visitantes na direcção de uma estrutura

gigantesca com um formato curvo, como o de uma bacia

colossal. Vista de longe, entre as árvores, não parecia

tão grande. Mas ali, já de perto, a verdadeira dimensão

do edifício tornou-se perceptível em toda a sua

plenitude.

“O que é isto?”, quis saber Arnie Grossman, abismado

com o tamanho da construção. “Parece um barco.”

“Chamamos-lhe a Arca.”

“Como a de Noé?”

“Isso”, assentiu o presidente da fundação. “É o

principal edifício do nosso centro de pesquisas. Uma