catedral da ciência, se quiser.”
Os dois anfitriões conduziram o grupo para o interior
da Arca. Pairava no ar um vago odor asséptico a álcool
e a formol que tudo parecia permear. Os visitantes
cruzaram o átrio e meteram por um grande corredor com
paredes de vidro para lá das quais se espraiavam vários
laboratórios. Uma legião de técnicos de bata branca
afadigava-se em torno de microscópios, de tubos de
ensaio, de pipetas e de diverso material, evidentemente
a proceder a experiências.
As paredes de vidro foram, ao fim de uma centena de
metros, substituídas por paredes de alvenaria. O grupo
dobrou a esquina do corredor e o professor Hammans
abriu uma porta e convidou os visitantes a passarem à
frente. Primeiro entrou Valentina e depois Tomás e
Grossman. Os três detiveram-se, quase assustados, logo
que se aperceberam do que estava para lá da porta.
Uma câmara de horrores.
A sala para onde os conduziram era um armazém de jarros
de todas as dimensões arrumados em prateleiras. O
cheiro a álcool e formol revelava-se aqui muito forte,
denunciando o horror que se encerrava no interior dos
jarros. Cadáveres. Eram centenas e centenas de corpos
confinados aos jarros e a boiar numa solução líquida.
Viam-se coelhos, pássaros, ratos, cães, cabritos e
macacos. Todos a flutuarem nos líquidos dos jarros, de
olhos vidrados e membros em posições bizarras, parecia
que tinham a vida suspensa.
“Que horror!”, exclamou a italiana. “O que é isto?”
Arpad Arkan contemplou as fileiras de jarros como um
artista a apreciar a sua obra.
“São as nossas experiências”, disse. “Não se esqueça de
que estamos no Centro de Pesquisa Molecular Avançada.”
“Vocês matam animais e metem-nos em jarros?”, admirou-
-se ela. “Que raio de trabalho é esse?”
Os dois anfitriões soltaram uma gargalhada.
“O nosso trabalho não é matar bicharada”, corrigiu o
professor Hammans. “É criar animais. E quando digo
criar não é no sentido de produção alimentar, mas no
sentido bíblico da palavra.”
“Bíblico? O que quer dizer com isso?”
O director do Departamento de Biotecnologia abriu os
braços e indicou toda a estrutura em redor.
“Este edifício chama-se Arca, lembram-se? Isso acontece
porque ele está envolvido no acto da criação.”
Apontou para os jarros arrumados nas prateleiras.
“Esses animais são experiências falhadas. Mas estamos a
afinar a técnica e temos um número crescente de casos
de sucesso.”
Tomás esboçou um esgar de incompreensão; nada daquilo
lhe parecia fazer sentido.
“Experiências de quê? Sucesso em relação a quê?”
Voltando-se para os convidados, Arkan arregalou as suas
sobrancelhas peludas e exibiu um grande sorriso.
“Clonagem.”
“Como?”
“É disso que o nosso centro se ocupa”, esclareceu o
presidente da fundação. “De clonagem.”
O historiador e os dois polícias entreolharam-se.
“Mas... mas... para quê?”
Arpad Arkan manteve o sorriso, como uma criança que
exibe os brinquedos aos filhos dos vizinhos, e voltou-
se para o seu subordinado.
“Explica-lhes, Peter.”
“Tudo?”
“Quase tudo. A parte final fica para mim.”
Foi a vez de o professor Hammans sorrir.
“Então é melhor começarmos pelo princípio.” Encarou os
três visitantes. “O que sabem vocês sobre a forma como
os genes funcionam?”
O historiador e os polícias vacilaram. Quem se
atreveria a explicar um assunto daqueles a um
especialista?
“Bem”, titubeou Tomás, “são os genes que determinam
cada uma das nossas características. Os olhos, o
cabelo, a altura... até o nosso feitio, se somos
pacientes ou irritáveis, se temos propensão para esta
ou aquela doença. Enfim, tudo.”
“Correcto”, disse o director do Departamento de
Biotecnologia do centro. “Mas como é que eles
funcionam?”
O português fez uma expressão vazia.
“Sabe, a minha especialidade é a história...”
Os dois polícias mantiveram-se calados e desviaram os
olhares, como se de repente achassem grande interesse
ao conteúdo macabro dos jarros que se alinhavam pelas
estantes da sala. Aquela área de conhecimento não era
manifestamente a deles.
O professor Hammans já esperava a reacção, pelo que se
dirigiu a uma secretária no canto da sala. Atrás dela
havia um quadro branco, como o das escolas. O cientista
pegou numa caneta de feltro azul-escura e desenhou no
quadro o que parecia um ovo estrelado.
“As células que constituem as plantas e os animais,
incluindo os seres humanos, têm a estrutura de um ovo”,
explicou. “Uma membrana exterior rodeia toda a célula e
mantém-na unida e protegida. O interior é formado pela
clara, ou citoplasma, um fluido que exerce várias
funções, e pela gema, ou núcleo.” Bateu com a ponta da
caneta na “gema” do ovo estrelado e olhou para os
convidados. “Para que serve o núcleo?”
“O núcleo é o centro de controlo”, respondeu Tomás.
Isso sabia. “É ele que comanda a célula.”
“O núcleo não comanda apenas a célula.” Fez um gesto
largo, como se quisesse englobar o universo. “É ele que
controla tudo. Tudo. A célula, o tecido, o órgão, o
corpo... até a espécie! O núcleo da célula controla a
própria vida no nosso planeta!”
Arnie Grossman ergueu uma sobrancelha céptica.
“Não estará a exagerar um pouco?”
Como em resposta, o professor Hammans voltou-se para o
quadro e, partindo da estrutura esquemática da célula,
fez novos desenhos, cada um uma ampliação de uma secção
do desenho anterior. Depois escrevinhou palavras a
identificar os pontos-chave do esquema.
“Vejamos o que se passa no núcleo de uma célula”,
propôs. “Se ampliarmos uma secção, descobrimos que o
núcleo é formado por filamentos enrodilhados, chamados
cromossomas. Se ampliarmos novamente uma secção,
verificamos que o cromossoma é constituído por dois
fios enrolados um no outro numa longa espiral. Chamamos
a estes dois fios ácido desoxirribonucleico, ou ADN.
Ampliando uma secção do ADN, percebemos que os dois
fios estão ligados um ao outro por quatro elementos-
base: adenina, timina, guanina e citosina, ou A, T, G e
C.” Redigiu as quatro letras no quadro. “São estas as
letras com que se escreve o livro da vida.”
“É isso um gene?”
“Um gene é uma secção do ADN. Uma determinada
combinação de pares A-T e G-C constitui um gene. E o