que faz o gene quando é activado? Produz proteínas que
transmitem as ordens dos genes, pondo as células a
trabalhar de um modo ou de outro. As proteínas
produzidas pelas células dos olhos são sensíveis à luz,
as do sangue transportam oxigénio... enfim, cada uma
tem as características necessárias para desempenhar as
funções para que foi criada.”
“O que está a dizer é que as células do coração têm
determinados genes, as dos rins têm outros, as da...”
“Não!”, cortou o professor Hammans. “Cada célula do
nosso corpo contém no seu núcleo o ADN completo. Ou
seja, o nosso ADN inteiro está espalhado por todo o
corpo. Mas, devido a um mecanismo ainda relativamente
desconhecido, só determinados genes são activados num
certo órgão. Por exemplo, as células do coração apenas
usam o ADN necessário para as suas operações. O resto
do ADN permanece adormecido. Um dos grandes mistérios
ainda por desvendar é justamente perceber como cada
célula sabe qual o gene que tem de activar. Mas o facto
é que a célula sabe. E, facto igualmente relevante,
descobrimos que um determinado gene produz uma enzima
específica independentemente do animal ou planta onde
se encontra inserido. Se eu colocar num animal o gene
humano que produz a insulina, esse animal começará a
gerar grandes quantidades de insulina no seu leite.”
Arqueou as sobrancelhas com movimentos rápidos. “Estão
a ver as vantagens, não estão?”
“Mamma
mia!”,
exclamou
Valentina,
percebendo
as
perspectivas que se abriam com esta inovação. “Pode-se
pôr os animais a produzir insulina para os diabéticos!”
“Isso, e muito mais! Lembram-se daquelas plantas que
viram no Edifício Éden? Temos lá umas plantas de arroz
onde inserimos um gene que produz vitaminas. As pessoas
dos países subdesenvolvidos que comam esse arroz terão
assim uma refeição mais rica. Estamos também a inserir
um gene no milho que reduz a necessidade de água. Esse
milho é assim perfeito para as zonas desérticas e, tal
como o arroz rico em vitaminas, ajudará a combater a má
nutrição no terceiro mundo.”
“Incrível!”
Sentindo-se
impaciente,
Arnie
Grossman
espreitou
ostensivamente o relógio.
“Tudo isso é muito bonito”, disse. “No entanto, como
sabem, estamos a investigar três homicídios e uma
tentativa de homicídio. Por que razão considera estes
pormenores relevantes para o nosso inquérito?”
Arpad Arkan interveio.
“Devido à falta de sexo.”
“Perdão?”
O professor Hammans percebeu de imediato a necessidade
de manter a conversa longe dos detalhes demasiado
técnicos, fascinantes para ele mas susceptíveis de
enfastiar um leigo.
“O nosso presidente está a falar de uma segunda função
dos genes: a reprodução”, disse o cientista. “Além de
produzirem enzimas, os genes reproduzem-se. Isso não
acontece com sexo, mas sempre que uma célula se divide.
Ao criar-se uma nova célula, o que sucede no nosso
corpo cerca de cem mil vezes por segundo, os
cromossomas da célula original duplicam-se. Isto é
muito importante, porque significa que,quando criamos
um ser vivo a partir do material genético de outro, o
ADN do novo ser é exactamente igual ao do que forneceu
os genes.”
“Como os gémeos?”
“Bom exemplo! Os gémeos verdadeiros partilham o mesmo
ADN.” Abriu as mãos, como um ilusionista a mostrar o
seu último truque. “Ou seja, são clones um do outro.”
Valentina mordeu o lábio.
“E assim chegamos à clonagem.”
“Nem mais!”, assentiu o professor Hammans. “Sempre que
clonamos uma planta ou um animal, estamos a fazer uma
cópia com recurso ao mesmo ADN.”
“Mas como se faz isso?”
“O processo é simples numa planta, como qualquer
agricultor sabe. Já nos animais é mais complexo.”
Voltou ao desenho do ovo estrelado no quadro. “Pegamos
na célula de um ovo acabado de ovular e, com uma
pipeta, retiramos-lhe o núcleo. Depois pegamos numa
célula do indivíduo que queremos clonar e colocamo-la
ao lado da célula do ovo sem núcleo. Retiram-se-lhes os
nutrientes, de modo a colocá-las numa espécie de estado
suspenso, e aplica-se uma dose de electricidade. As
duas células fundem-se numa única. Depois faz-se uma
nova descarga de electricidade, imitando o fluxo de
energia que acompanha a fertilização de um ovo pelo
esperma. Lembrem-se que um ovo, independentemente do
seu tamanho, é uma célula. Julgando que foi fertilizada
pelo esperma, a célula começa a dividir-se, produzindo
um novo núcleo para cada nova célula. E voilà! O animal
clonado começa a crescer!”
“E assim que clonam animais?”
“Exactamente assim”, confirmou o cientista alemão. “A
primeira experiência foi realizada em 1902 por um
conterrâneo meu, Hans Spemann, que conseguiu clonar uma
salamandra. Em 1952 foi clonado um sapo e, em 1996, foi
a vez de se produzir o primeiro mamífero: a ovelha
Dolly. Isso abriu um novo mundo, como deve calcular. Se
era
possível
clonar
mamíferos,
imagine
só
as
perspectivas que se abriram! Desde então clonaram-se
ratos, porcos, gatos... eu sei lá!”
Os visitantes passaram de novo os olhos pelos animais
encerrados nos jarros alinhados nas estantes da grande
sala, e observaram-nos já não com horror, mas com
estupefacção.
“Se é possível clonar mamíferos”, murmurou Tomás, quase
com medo de formular a pergunta, “porque não seres
humanos?”
O professor Hammans trocou um olhar com Arpad Arkan,
como se lhe perguntasse o que devia responder. O
presidente da fundação fez um sinal afirmativo com a
cabeça, dando luz verde ao seu subordinado para fazer a
revelação. O cientista indicou com a mão os jarros
macabros que enchiam a sala e fitou o historiador
português.
“O que pensa o senhor que estamos aqui a fazer?”
LV
O tronco do pinheiro inclinava-se naturalmente para o
muro, decerto empurrado ao longo dos anos pela força do
vento, e alguns ramos chegavam a enredar-se no arame
farpado que se enrodilhava no topo. De mãos nas ancas,
a avaliar a árvore e a sua posição privilegiada,
Sicarius não conteve um sorriso.
“Uns incompetentes!”, murmurou com satisfação. “Erguem
um muro e esquecem-se de cortar as árvores que permitem
saltá-lo!...”
O giro ao longo do muro havia produzido resultados.
Bastou percorrer quatrocentos metros em torno do