cromossomas e era por isso que não conseguiam
funcionar. Curiosamente, e apesar desses problemas
todos, algumas dessas células defeituosas continuaram a
dividir-se.”
“O problema de os cromossomas não estarem no núcleo...
isso também acontecia com os outros animais?”
O professor Hammans apontou para o jarro com o macaco
minúsculo.
“Só com os primatas”, sublinhou. “Como devem calcular,
temos andado à volta desta dificuldade e já conseguimos
perceber por que razão ela existe.” Voltou para junto
do quadro e indicou o ovo estrelado que havia
desenhado. “Sabem, quando uma célula se divide em duas
normalmente os seus cromossomas também se dividem em
dois. Um grupo vai ordeiramente para uma célula e o
outro grupo é puxado para a outra célula, de modo a
compor dois núcleos iguais. No caso dos primatas, no
entanto, as coisas não se processam assim. Quando chega
a hora de os dois grupos de cromossomas irem cada um
para a sua célula, eles não se conseguem alinhar
ordeiramente. Em vez disso, posicionam-se de forma
caótica e por isso vão parar aos sítios errados das
células.”
“Porquê?”
“As nossas análises mostram que faltam duas proteínas
ao embrião clonado. São essas proteínas que organizam
os cromossomas. Nos animais em geral essas proteínas
encontram-se espalhadas pela clara do ovo, mas, no caso
dos primatas, percebemos que estão concentradas junto
aos cromossomas dos ovos por fertilizar. Ora quando se
leva a cabo uma clonagem a primeira coisa que se faz é
justamente retirar esses cromossomas. O que se passa é
que, quando se procede a essa operação na célula dos
primatas, acaba-se também por se retirar acidentalmente
as proteínas, uma vez que elas estão demasiado perto
dos cromossomas. Como elas desaparecem, os cromossomas
não se conseguem alinhar ordeiramente no momento da
divisão das células.” Bateu com a ponta da caneta no
ovo estrelado garatujado no quadro. “É justamente esse
problema que estamos a tentar resolver nos nossos
laboratórios.”
A explicação técnica extraiu um bocejo enfadado de
Arnie Grossman. O inspector-chefe da polícia israelita
apoiou-se numa perna, impaciente por avançar na
conversa e chegar ao que realmente lhe interessava.
“Por favor, esclareçam-me!”, pediu. “O que tem isso a
ver com os homicídios que estamos a investigar?”
A pergunta deixou o professor Hammans sem resposta;
aquele assunto não era da sua competência. Teve de ser
o seu superior hierárquico a responder.
“Calma, já lá chegamos!”, disse Arkan. “O nosso
director do Departamento de Biotecnologia esteve apenas
a expor o maior problema relacionado com a clonagem de
primatas e que estamos a tentar solucionar aqui no
Centro de Pesquisa Molecular Avançada. Para poder
responder a essa pergunta, é importante que percebam
que existe um segundo problema técnico que tem ainda de
ser resolvido. Como estamos muito concentrados na
resolução do primeiro problema e precisamos de apressar
a investigação, resolvemos recorrer ao outsourcing para
lidar com esse segundo problema. Estudámos o mercado
para procurar um parceiro que nos ajudasse a lidar com
essa outra dificuldade e descobrimos que existia uma
instituição que nos poderia auxiliar. Trata-se da
Universidade de Plovdiv, na Bulgária, que está muito
avançada na pesquisa de...”
“O
professor
Vartolomeev!”,
exclamou
Valentina,
interrompendo-o num sobressalto. “Foi por isso que o
senhor falou com o professor Vartolomeev!”
Arpad Arkan anuiu.
“De facto, essa foi a verdadeira razão pela qual
contactei o professor Vartolomeev. Ele chefiava a área
de Biotecnologia da Universidade de Plovdiv e tinha
pesquisas tão inovadoras nesta área que até se dizia
que acabaria por ganhar o Prémio Nobel da Medicina.
Através dos meus contactos, arranjei maneira de a
Universidade Hebraica de Jerusalém o convidar para uma
palestra. Quando o professor chegou a Israel, chamei-o
discretamente à fundação e, depois de lhe explicar o
projecto em pormenor, ele aceitou articular as
pesquisas do seu departamento na Universidade de
Plovdiv com o nosso trabalho no Centro de Pesquisa
Molecular Avançada.” Sorriu. “Isto, claro, também a
troco de uma generosa doação para a sua universidade.”
A explicação foi seguida por Tomás com atenção. Havia,
porém, um ponto que o historiador percebeu não estar
esclarecido.
“O senhor falou num segundo problema, cuja resolução
foi entregue ao professor Vartolomeev. Que problema é
esse?” O presidente da fundação desviou o olhar para o
professor Hammans, endossando-lhe a resposta a essa
questão técnica.
“Há uma dificuldade grave com os animais clonados”,
revelou o cientista alemão. “Eles são, em geral,
doentes e têm uma esperança de vida mais curta do que o
normal. A ovelha Dolly, por exemplo, só viveu seis
anos. Apesar de ser jovem para a sua espécie, sofria de
artrite e de obesidade e teve de ser abatida devido a
uma infecção pulmonar progressiva. O principal problema
é que envelheceu prematuramente. Essa é, de resto, uma
das características dos animais clonados. Enquanto essa
questão não for resolvida, receio que não possamos
clonar seres humanos.”
“Foi essa tarefa que entregámos ao professor Vartolo-
meev”, atalhou Arkan. “Podíamos ter-nos dedicado à
questão, claro. O problema é que os nossos recursos
estavam todos direccionados para resolver a dificuldade
das proteínas coladas aos cromossomas e que impedem a
clonagem de primatas. Como a Universidade de Plovdiv
estava já
muito avançada
na
pesquisa
sobre
o
envelhecimento prematuro dos clones, achei melhor
entregar-lhes
essa
investigação.
Mera
gestão
de
recursos.”
“Espere aí”, insistiu Tomás, habituado a esclarecer os
assuntos até ao mais ínfimo pormenor. “Por que razão os
animais clonados envelhecem tão prematuramente?”
O professor Hammans voltou-se para o quadro e escreveu
uma palavra. Telómeros.
“Já ouviu falar nisto?”
O historiador cravou os olhos na palavra. Tentou
dividi-la, procurando-lhe a raiz etimológica de modo a
descobrir o seu significado, mas não foi capaz.
“Telómeros?”, interrogou-se. Abanou a cabeça. “Não faço
a mínima ideia do que seja...”
O cientista indicou a extremidade do cromossoma que, no